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Praga. 31 de Outubro.

A malfadada virulência está quase vencida. Da gripe resta uma tosse irritante e uma certa obstrução das vias nasais. Estou portanto apto para sair à noite. Ora durante o dia, nas andanças rotineiras, encontrei um clube de Jazz, por coincidência paredes meias com a minha livraria de eleição na cidade, a BigBen. E à porta, um cartaz: “Today, free entrance”. Bem, bem, veio-se a verificar que era algo semelhante a publicidade enganosa, porque de graça, só mesmo a entrada para o bar. Se quisesse assistir à música ao vivo, pomposamente denominada de “concert”, teria que pagar. Ora como fui atraido pelo isco, como já estava fartissimo de estar enterrado em casa e como ando há um bom tempo com esta ideia do jazz na cabeça, saquei mesmo das duas notas de 100 coroas e comprei o bilhete.

Em boa hora o fiz, pois apesar dos vários incovenientes (já lá vamos), diverti-me à séria. A música não era grande coisa. Na realidade era noite de blues o jazz ficará para outro dia e de facto, blues europeus são uma coisa estranha. Não calça a bota com a perdigota, que dizer. Na verdade, blues blues, para serem blues, têm que ser interpretados por afro-americanos. Mas não podendo ser, pois quem não tem cão, caça com gato. Ora sucede que, não sendo eu um entendido na coisa, a rapaziada em cena não me convenceu, nem mesmo ao nível dos blues à moda europeia. E depois, ah meus senhores, aquele sistema de som metia dó. Ninguém me convence que os altifalantes não estavam mesmo rasgados. Uma coisa triste de se ouvir. Mas lá está, há momentos destes. Com o cenário completo para o caldo se entornar, e sai de lá a assobiar, ligeirinho de alegria e de frio. É que me soube bem. Música ao vivo é música ao vivo, a cerveja era barata e o ambiente muito bom. A sala tem uma acústica jeitosa, e o ambiente é extremamente intimista, precisamente o que eu preciso para apreciar um jazz ou uns blues. Sei lá, se estavam ali na sala quarenta pessoas era muito. E assim se fez uma noite diferente, que bem falta fazia para suceder aos serões febris da última semana. Já que falo do dia de hoje, vamos ser literais e contar o que se fez enquanto o sol brilhou. No par de horas de energia diurna, fui andando até à cidade antiga. E já que estava nas imediações, e, diga-se de passagem, um pouco deprimido, fui-me meter na tal BigBen, que isto de deitar fora uns tostões quando se está na mó de baixo não é terapia exclusiva das meninas. E como sempre sucede quando vou lá, sai com dois belos livros no saco. Fui logo estrear um deles, que fala, em prosa muito agradável, da História do povo checo. Subi então a meia-encosta de Petrin e abanquei-me numa das mesas da esplanada que deixou já de funcionar, mas que deixou, por enquanto, as estruturas. E só arredei pé quando o fri apertou. Para vir para casa recompôr-me e preparar-me para o clube de jazz.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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