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Budapeste. 26 de Abril. Dia 1.

Um despertador que toca pouco depois das quatro da manhã terá sempre que ser considerado um instrumento de tortura. Era assim quando me batiam à porta, mais ou menos por essa hora, estando eu de oficial de serviço ao quarto das quatro nos meus longos tempos de vida militar. E continua tudo na mesma.

A coisa atenua-se se por detrás se encontra uma missão nobre, como embarcar no vôo TP1900 com destino a Lisboa, onde uma escala para Budapeste me aguarda, já bem entrada a manhã. É aliás nesse interlúdio que estas linhas estão a ser escritas, na companhia de uma garrafa de água e de uma moçoila duas mesas atrás, com ares trigueiros de brasileira em trânsito, cuja perspectiva se aproxima do grau de deleitoso.

O primeiro troço da cavalgada até ao outro lado da Europa correu sem precalços, se não contarmos com a indolência colectiva da tripulação TAP que supostamente deveria assistir os passageiros, mas que se encerrou no seu espaço privado em agitada tagarelice durante todos os minutos em que a viagem decorreu. Lá para o fim, até deu para saber, pela conversa alto e em bom som para todos os passageiros das últimas linhas de bancos escutarem, que o espólio estava a ser dividido: “gostas deste, picante? Então levo eu.” Que lhe faça bom proveito, e que o picante possa espicaçar uma vontade bem escondida de cumprir com as tarefas para que está a ser paga.

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 Segunda banheira do dia. Pelos entremeios, uma demonstração do que nos espera nos próximos nove dias: um grupo de magiares palra entusiasticamente na sala de embarque. Jesus Mary! Aquilo não é língua humana! Não soa a nada verbalizado pelo mundo civilizado afora, e, na realidade, parece mais adequado a espécies alienigenas saídas de um qualquer episódio de Star Wars do que a homo sapiens sapiens. Embarque. Arranque, ou, como se diz quando se começa a viagem num veículo com asas, descolagem. A viagem é chata, morosa. A janela está colocada precisamente sobre a asa do Airbus A320. Resultado: não há vistas para ninguém. O que de resto não faria falta, pois basicamente a mirada seria para um infinito universo a cinzento. À aproximação, turbulência e viragens apertadas. Logo tinha que me sair na lotaria um Fangio do ar. Enjôo. Finalmente tocamos o solo. O aeroporto de Budapeste é mínimo. Coisa pequena mesma. Em toda a área de serviço vêem-se três aeronaves. Talvez por isso o funcionamento é modelar. Entre a aterragem e o encontro com o nosso anfitrião vão quinze minutos. Já esperei mais, na Portela, pelo autocarro para o terminal.

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Martin é um inglês de datação complicada. Arriscaria uns 55 anos de idade. E é o máximo. Londrino com a afabilidade de um irlandês de gema. Vê-se que adora receber, fala pelos cotovelos. Ao fim de alguns minutos já estamos convidados para uma bebida na cidadela, no topo da colina Géllert. É um local inacessível ao turista, diz ele, longe de imaginar que dentro de duas horas lhe conquistaremos o cume e gozaremos das suas soberbas vistas sobre a capital da Hungria. Mas adiante. Mostra-nos o apartamento com orgulho. Por esta altura já sabemos quase tudo sobre ele e a sua presença por estas paragens. Trocamos impressões sobre tudo e mais alguma coisa. Por fim, parte. Corremos ao supermercado, nas arcadas do bloco de apartamentos. Os preços são escandalosos, mesmo acima dos padrões portugueses. Compramos o mínimo, tomamos um lanche rápido e saimos.

Ao dar os primeiros passos, não sabemos para onde nos dirigimos, mas algo nos leva para a colina Géllert. Mesmo no seu sopé não sabemos ainda que a vamos “trepar” até às últimas instâncias. Mas é o que sucede, através de encantadores trilhos acimentados que serpenteiam, com um carácter algo labirintico. São ladedos de vastos arbustos em flor e árvores no auge do seu verdume. Algumas pessoas, poucas, cruzam-se conosco, não deixando claro qual dos caminhos escolher a cada cruzamento que abordamos. Por fim, vindo do nada, está ali, o animado espaço da cidadela, onde actualmente funciona uma discoteca, esplanadas, restaurante e outras atracções. No interior da velha fortaleza existem exposições históricas, que não visitamos devido ao adiantado da hora, mas às quais prometemos um regresso ainda durante esta estadia. Depois de darmos a volta completa à área, apreciando as vistas sobre os diversos quadradantes da enorme metrópole e os vestígios dos combates que ali tiveram lugar entre 1944 e 1945, quando os russos avançaram sobre a cidade ocupada pelos alemães que precisamente neste local concentraram os seus esforços defensivos. Deixamo-nos estar até às últimas, enquanto o sol se põe. Sabemos que vamos ter que palmilhar aqueles troços de regresso, sem iluminação. Na descida, pensamos como vamos contar ao Martin que afinal já estivémos em Géllert.

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Ainda antes de nos recolhermos para o merecido repouso experimentamos a mítica rua Váci utca, uma espécia de rua Augusta, calcetada, repleta de esplanadas e comércio de todo o tipo. Um tipo chega e saca de um saxofone, do qual extrai uma melodia hiponotizador. Temos vontade de ficar ali para sempre, neste início de noite ameno, impróprio de uma Budapeste de finais de Abril. Os preços dos restaurantes são escandalosos. Mesmo tendo em conta que pisamos solo turístico em todo o seu esplendor. Em Praga, há uma diferença notável entre as áreas onde os estrangeiros são o cliente habitual, e as zonas mais recuadas, com um público local. Mas é uma diferença razoável, e tirando um ou outro estabelecimento mais luxuoso e consagrado, é sempre barato, pode é ser mais ou menos barato. Já em Budapeste, o que vimos hoje é mesmo um abuso. Vamos ter que encontrar uma solução para isto. Já não sei se estou em Oslo ou numa cidade da Europa de Leste.

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Primeiras impressões: Budapeste é como aquela louraça que faz estragos quando anda, salto alto, saia travada, passo bamboleante, mas que quando olha para trás faz desaparecer instantaneamente a multidão masculina que reuniu. A cidade é linda vista ao longe. Estando-se no seu interior é deprimente, com os edíficios degradados, as obras omnipresentes, o trânsito muito intenso… e os húngaros. À primeira vista, e esta é a única que temos hoje, é uma gente desinteressante. O nosso anfitrião partilha desta opinião. E ele sabe do que fala.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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6 comentários

  1. Csongor Juhos

    Queira lhe dar os meus parabéns pelas imagens. No que diz respeito ao texto, o meu entusiasmo já não é tão cavalgante. Sou húngaro e nunca senti que a minha língua não fosse uma língua humana. Por outro lado, basta olhar para uma mapa para perceber que Hungria não é um país de Leste já que fica no centro da Europa. Quer espreitar? (http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Europe_countries_map.png) Seja como for, espero que tenha gostado.

  2. Antes de mais fiquei surpreso e agradado ao recber um comentário destes. Pensava que os meus escritos eram apenas lidos por familiares e amigos, e afinal… não.

    A expressão que desvíncula o húngaro do grupo de línguas humanas não tem nada de ofensivo, e pretende transmitir a ideia da extrema peculariedade linguistica magyar. A independência da língua relativamente aos grandes grupos linguísticos que ocupam o top de línguas mais faladas do mundo contribui para esta sensação de unicidade do húngaro. Sendo um curioso destas coisas, sou geralmente capaz de identificar qualquer língua europeia, e muitas outras em redor do mundo, só de ouvir falar um pouco. O húngaro é uma excepção. Bom, agora que já o conheço de ouvido, talvez as coisas mudem.

    Sobre o quadrante geográfico do país, o comentário é injusto. Se quiser subdividir a Europa até à exaustão, esteja à vontade. Entretanto, mantenho-me fiel à divisão mais simples, aprendida na escola em Portugal, país para o qual escrevo: Europa Ocidental e Europa de Leste. Divisão essa inspirada num panorama geoestratégico que poderá ser modificado com o tempo, mas o qual ainda se compreende perfeitamente à luz da existência da divisão imposta pela NATO e Pacto de Varsóvia. Nessa divisão não há espaço para uma terceira área denominada Europa Central. E, assim, a Hungria será Europa do Leste. Da mesma forma que o México poderá ser considerado parte da América Central, mas para outros será englobado na América do Norte.

  3. Csongor Juhos

    Penso que as mudanças dos últimos, aproximadamente, vinte anos em Europa (a queda do Muro de Berlim, a entrada da Hungria para o Nato e para a UE) serão uma boa base de partida para por em questão a sua argumentação. Por outro lado, certamente compreende o estigmatismo subjacente à etiqueta ‘pais de Leste’. Penso que o que é realmente injusto é por Hungria no mesmo saco com a países como, por exemplo, Roménia ou Ucránia. No entanto, está longe de mim iniciar uma discussão pseudoacadémica sobre um tópico completamente marginal ao seu testemunho. Penso que a verdadeira razão do meu comentário foi que no seu texto não revi o Budapesete, a Hungria, ou o povo húngaro que conheço. Enquanto as suas fotos encantavam-me e trouxeram-me recordações agradáveis o texto, perdoa-me, irritáva-me. Apesar disso, foi interessante ler as suas impressões e dou-lhe os meus parabéns pelo investimento e pelo rigor que se encontra neste blog.

  4. Csongor Juhos

    Não se trata deste ‘dia’ em particular, a impressão é geral. Foi por mero acaso que o comentário ficou inserido aqui.

  5. Cléa (Nina)

    Visitei esta página na curiosidade de conhecer um pouco desta cidade onde meus filhos irão passar parte de suas férias.
    Um abraço e obrigada pela oportunidade,
    Cléa.

  6. Graça Moreira

    Parabéns pelo texto onde fala sobre Budapeste . Fiqei curiosa em conhecer pois vc me fez curiosa em conhecer este belo lugar

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