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Balcãs ’11 – Dia 12 – Lushnje e Berat

10 de Outubro

No fundo da minha mente, encontro o som perturbante do despertador. Ignoro-o, continuo a dormir, mas num nível mais superficial. Pouco tempo depois acordo de novo, desta vez com um toc-toc na porta do quarto. O DeVaughn chama-me. Está na hora. Em cinco minutos estou pronto. O Kib abre os olhos, murmura qualquer coisa, e vira-se para o outro lado. Depois dos excessos da noite anterior doi-me ligeiramente a cabeça e a boca sabe mal. Saimos para a rua, e abro a romã que na véspera encontrei no chão. Vai-me entreter durante os 10 ou 15 minutos que caminhamos até ao mini-bus para Berat. Algumas pessoas acenam-nos, mesmo de dentro de carros. O DeVaughn diz-me que, sendo negro, tem sido alvo de muita atenção, dado o exoticismo que lhe é atribuido e a evidência da sua origem estrangeira.


Felizmente o condutor do furgão não nos faz esperar até o carro estar cheio, como é usual. Com meia casa preenchida arranca em direcção a Berat. Vamos conversando, o que desperta a curiosidade dos outros passageiros. A estrada é tremendamente má. Enquanto observo o mundo que me rodeia penso para com os meus botões que nem a Geórgia ou a Arménia são tão pobres. A Albânia é decididamente um outro mundo, apenas fisicamente na Europa.


Chegamos e caminho com o DeVaughn por um bocado, até à paragem de autocarro local. E então fico a sós com Berat. Na véspera este amigo fez-me o favor de assinalar no GPS os pontos de interesse na cidade, e, claro, de mos explicar. Portanto, estou orientado. Páro num pequeno largo. Espreito a casa antiga que lá encontro e um homem sai de uma das portas. Cumprimentamo-nos e ele pergunta se já vi o edíficio em frente. Digo que não e dirigo-me para lá. Passado alguns segundos ele junta-se-me e trás a chave. Abre-me a porta e explica-me. Tratava-se de um templo de um grupo muçulmano que era popular na Albânia, próximo dos Dervish. Conta-me a história, satisfaz a minha curiosidade nisto e naquillo. Recomenda-me a visitar a mesquita, que entre e veja à vontade, desde que não me esqueça de tirar as botas. À entrada duas senhores de aspecto pobre, de cabeça coberta, à moda islâmica, comem qualquer coisa. Quando o meu olhar passa por elas, sou convidado para o repasto, que, claro declino com um sorriso e um gesto de agradecimento. Pouco depois, quando passo perto, uma delas pergunta-me se sou inglês, e fica satisfeita com a minha resposta. Tudo isto é espectacular, e em Berat, ao contrário do que sucede tantas vezes, senti-me bem desde o primeiro momento. A cidade é maravilhosa, sou tentado a dizer que se se tiver que escolher apenas um sítio na Albânia, será mesmo este. Páro brevemente para comprar um bolo que servirá de reforço ao pequeno-almoço e tomo nota mental para regressar ao local ao fim do dia e comer ali.


O dia está perfeito, fresco mas não frio, e o céu está de novo azul, contrariando a previsão que falava em muita nebulosidade. As cores estão excelentes para a fotografia, e estou encantado com a generosidade deste povo. Depois, Berat é muito visitado por turistas, e não tenho aquela sensação desagradável quando as pessoas me olham como se fosse um extra-terrestre, especialmente quando uso a Nikon.

Explorei longamente o castelo, mas para lá chegar suei as estopinhas, que o dia fazia-se quente e a subida era ingreme; pelo caminho cruzei-me com alguns locais, nas suas andanças diárias… os gaiatos para a escola, os mais velhos para o trabalho… a avozinha, sabe-se lá para onde. Entrada: 200 Lek. Bem empregues. No interior deste castelo chegaram a existir 13 igrejas, e algumas ainda lá estão, impecáveis. Depois, há as ruinas… a prisão, as casernas. Tudo em redor é um regalo de se ver, com uma vista até ao infinito. Aquilo é um pouco como a nossa Monsaraz… no interior das muralhas há uma aldeia viva. Ruazinhas castiças, casas de arquitectura exótica, portões e janelas de cores garridas. Lojinhas e lojetas. Algumas, para turistas. A maioria, para os locais. Muitos detalhes a observar. Existem alguns museus, mas sabem os que me conhecem que não sou dado a museus, e de resto, quase todos estão encerrados por ser 2ª Feira. Numa das extremidades do castelo, há um ponto de observação ideal, que entretanto ganhou uns banquinhos simpáticos, e ali vi os únicos estrangeiros que andavam pelo castelo. Um asiático pintava, com olhar perdido. Um casal de parte incerta apreciava a paisagem.

Sentei-me na esplanada do café que se encontro no páteo interior, comprei duas águas que a sede era muita, e deliciei-me com a frescura do liquido e com o sossego. Deixei-me estar a repousar. Ao sair, lá tive o assédio do guia acidental, que me falou sumariamente do recinto numa mistura de italiano e inglês, mostrando-me o poço da cisterna (de facto reconheço que era capaz de ter perdido este pormenor interessante sem a sua ajuda) antes de estender a mão. Dei-lhe 50 Lek. Achou pouco, mas paciência… é o que se arranja.


Visto que foi o castelo, pus de lado a ideia de no mesmo dia visitar Elbasani. Os meus amigos afirmaram a pés juntos que se fazia bem, e quando sai de casa estava dividido. Por um lado, a autora do meu guia da Albânia recomenda essa outra cidade, e, claro, já que ando por estas paragens, gostaria de enriquecer a experiência. Mas pelo que me disseram a coordenação de transportes seria à tangente. Seja como for, Berat determinou o afastamento da ideia. Só para o castelo demorei três horas, a totalidade do tempo que, segundo o plano que me traçaram, poderia demorar na cidade.

Na descida do castelo fui espreitar o Museu Etnográfico; não que tencionasse visitar, até porque é mais um que está fechado à 2ª Feira, mas porque a casa é em si interessante.


Depois fui bisbilhotar os bairros antigos. Em Berat há três zonas incluidas no conceito de cidade-museu: o castelo, o bairro que está na sua base, e aquele que se encontra imediatamente defronte, na margem oposta do rio. As casas tradicionais são muito características, estando na origem da designação “cidade das mil janelas” pela qual Berat é conhecida. Infelizmente as ruas são tão estreitas que dão a ideia que cada uma delas só dá acesso a uma casa, e é muito complicado explorar aquilo. E depois, quando vistas de perto estas casas perdem a sua beleza, tornam-se numa parede branca encimada pela estrutura das janelas.

Atravessei a ponta pedestre, e apreciei a colina onde se ergue o castelo, com todo aquele espantoso casebre. Mais à frente, vi a ponte antiga, construida no século XIX. E pelo caminho, os ofícios, nas suas lojinhas: mecânicos de bicicletas, alfaiates, barbeiros e tudo o mais. Entre as últimas casas e o castelo vejo uma igreja que parece suspensa nos penedos, até que distingo um trilho que leva até ela. O DeVaughn referenciou-me um memorial aos “partizans” no extremo da cidade, e não posso resistir, mesmo que seja mais um…. na Albânia todas as cidades parecem ter o seu.

Regressando ao centro descobri uma seta que apontava uma igreja, na direcção do emaranhado de ruelas e casas da cidade antiga. Talvez seja aquela que tinha mirado anteriormente. Comecei a subir e dei com uma senhora, loura (raridade na Albânia) que me apontou a igreja e depois se derreteu na excitação de ter ali alguém a quem pudesse vender as suas coisitas. Deu-me pena não poder comprar nada, coitadita, estava tão entusiasmada, a mostrar-me tudo o que produzia na sua casa de campo…. e era muita coisa… mel, azeitonas, raki, compotas e sei lá que mais… partiu-me o coração ter que ser rígido no meu “não” e afastei-me em direcção à igreja. Fechada. Quer dizer… o próprio recinto estava encerrado. Sentei-me um bocado no chão a descansar à sombra antes de regressar de vez ao centro. Parei na lojinha dos bolos e desta vez encomendei uma pita-shoarma, dois bolos e uma garrafa de água. Por tuta e meia, sei lá, uns 2,50 Eur. Depois de comer avidamente, sentado num lancil de passeio, fui para onde era suposto encontrar autocarros para Lushnje mas nem vê-los. Quem me viu foi o DeVaughne que por coincidência vinha a passar. Apanhei uma grande seca até conseguir transporte e paguei dinheiro a mais pelo bilhete. Mas cheguei a Lushnje. Nova seca. O senhor Kip não estava em casa e tive que cirandar um pouco, enfim, integrar-me no ritual do “giro” que também nesta cidade de província é levado a preceito. Jantámos na tasca do primeiro dia, basicamente o mesmo menu.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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2 comentários

  1. Maria helena Sousa

    Permita-me que lhe agradeça fazer-me sonhar ao vivo e a cores … ao ser o guia de tão belas viagens ! A descrição é tão natural e simples, que chego a julgar que faço parte da expedição !!! Até o sabor da gastronomia … Bem haja pela generosa partilha!

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