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Balcãs ’11 – Dia 31 – Travnik e Jajce

29 de Outubro

O despertador tocou, e eu mandei-o lixar-se. Depois de uma noite intensa, não aceitei seis horas de sono. Só às nove horas arranjei forma de me levantar da cama, já relativamente atrasado, na realidade para coisa nenhuma, porque a única obrigação era mesmo estar em Jajce para pernoitar. Tudo o resto era opcional, adaptável. Olhei pela janela e praguejei. Com que então céu pouco nebulado. O que via era outra coisa, bem diferente: cinzento a perder de vista. Fui acordar o Oliver como combinado, para entregar as chaves do palácio e para que ele me chamasse um táxi, Tomámos um rápido pequeno-almoço juntos, trocámos as palavras e abraços de despedida, e logo o Paja estava à porta.

Durante o breve caminho até à estação matutei na possibilidade de passar Travnik, onde tinha planeado passar o dia. Até à última da hora estive indeciso, e só no momento em que a senhora da bilheteira levantou os olhos para mim ficou acertado: Travnik. Bestial, o autocarro saia dali a 15 minutos. Um mini-autocarro, cheio. Só tinha lugar na coxia, mas com a cabeça a latejar não tinha inspiração para vistas. Vim o caminho todo a ler, meio atravessado no corredor, a suar. Malditos autocarros. Tenho disposição para desancar a próxima alma que me tentar evangelizar sobre a porcaria que os comboios são e como os devo evitar. O tanas! Estou farto daqueles espaços minúsculos, onde nem se pode ler sem invadir o espaço vizinho, onde a sulfagem no máximo transforma o habitáculo numa insuportável sauna. Ainda bem que não fui direito a Jajce. Por pior que esteja o tempo, por mais desinteressante que Travnik seja, pelo menos vou poder esticar-me e respirar ar fresco. Só isso já justificaria.

À chegada o céu começou a abrir. Sempre aquela estrelinha que me acompanha. Tinha visto o castelo quando entrámos na cidade, e sabia portanto a direcção a tomar, ajustada aqui e ali por consulta aos locais. Os últimos, três gaiatos em idade escolar, fizeram melhor… escoltaram-me. E como um deles, puto de uns onze anos, falava um inglês razoável, até deu para conversar. A meio da rampa, apareceu um bando de putos, diferentes. Os meus novos amigos eram os meninos atinados, e estes os estroinas. Por estes dias, o facto de ser português traz um tempero adicional, porque para a semana Portugal jogará contra a Bósnia e Herzegovina, disputando um lugar na fase final do próximo Campeonato da Europa de futebol. Portanto, ouço as mesmas bocas vezes sem conta. E os putos não me pouparam. Os mais atrevidos, algo hostis, fizeram-me mesmo acautelar, enquanto o que falava inglês me dizia que aqueles eram “malucos”.

Chegámos à fortaleza, despedi-me, depois dos putos me proporem uma visita guiada de três horas por uma quantia que não consegui perceber e que, se não fosse elevada, teria aceitado se fosse apenas para o buxa simpático. Mas não era, por isso despedi-me e entrei. 1 Eur de bilhete, mais do que justificado. O velho castelo é interessante, mas esperava-me uma supresa boa: na torre de menagem existe um pequeno museu, com uma exposição bem organizada, e que me deu grande gosto de visitar. Das muralhas avista-se a pequena cidade, com os seus edíficios, maioritariamente antigo e degradados, e os montes envolventes, com fabulosas cores de Outono nesta altura do ano. Explorei os diferentes recintos, aliviado da carga de mula que ficou à guarda da menina que vende bilhetes, e por fim iniciei o retorno ao centro de Travnik, não sem antes ser presenteado por mais uns prognósticos pouco sorridentes para a Selecção Nacional pelos putos que jogavam à bola na rua.


Passei descontraidamente pela cidade, reparando na decoração atractiva da mesquita central, visitando brevemente o cemitério militar, dando uma vista de olhos ao exterior da casa onde oficialmente terá nascido Ivo Andric, prémio nobel de literatura, do qual li “Ponte sobre o rio Drina”, como parte da minha preparação intelectual para esta viagem. Acabei o périplo onde começou, na estação de autocarros, onde tinha quase duas horas de espera pela frente. Fica a nota mental: se voltar a Travnik, guardam-me a bagagem de borla na estação e escuso de andar carregado como um idiota o dia todo, para trás e para a frente, cima e baixo. Foi o que fizeram dois tipos mais expeditos que eu… nem queria acreditar quando os vi falarem com o guardião do espaço, e este abre a porta de uma casa de serviço, mochilas lá para dentro e até já, sem qualquer pagamento.

O troço até Jajce foi um pouco mais agradável. O mini-autocarro vinha igualmente cheio, mas arranjei um lugar no banco traseiro, sem ninguém à minha direita, e pelo menos não me senti esmagado. Infelizmente não tive de novo acesso à janela. E sobretudo neste caso foi dramático porque a paisagem é assombrosa. A floresta cobre tudo, e o mosaico de cores é de cortar a respiração: há arvores pintadas de vermelho, de amarelo, de todos os tons de castanho, de laranja… e depois há as que não perdem as folhas e mantém o orgulhoso verde no meio daquelas tonalidades quentes. Acho que foi entre Travnik e Jajce que vi pela primeira a face rural da Bósnia. As aldeias não são muitas, mas as que surgem oferecem um retrato bucólico da vida campestre, com casas pobres, rústicas, castiças. Também nesta região os traços da guerra são intensos. Há partes em que calculo que uma em cada quatro casas tenham sido destruidas naqueles anos trágicos do início da década de 90.

Chego a Jajce e é amor à primeira vista. Tinha lido que para chegar ao hostel era atravessar o túnel contíguo à estação de autocarros e seguir em frente. E assim fiz. Antes, observei um painel com os horários todos bem claros, daqueles que se usavam pelos anos 70, pretos, com calhas, onde se prendiam letras e números, formando a informação. Depois, andar. Logo a seguir ao túnel, um belo parque, que aproveitei para marcar o meu novo território, junto ao tronco de uma árvore, escondido por uma copa baixa e frondosa. Passei junto a uma ponte, fui-me afastando do centro, vi um edíficio do lado de lá do rio que me fez lembrar a foto que tinha visto do hostel, continuei a andar, saí de Jajce, e nada. O casario cada vez mais esparso mas a minha casinha para a noite nem vê-la. Acabei por chegar a umas bombas de gasolina e perguntei, para ver confirmado o que já suspeitava: aquele prédio do lado de lá do rio… não era só semelhança… era mesmo o hostel. Portanto, toca de desfazer a caminhada toda, para ai quilómetro e meio para trás, para refazer boa parte da distância já na margem oposta.


Ah! Cheguei. Cansado pelas andanças de carga completa às costas e por aquela marcha desnecessária. E então sucedeu aquilo que, nos momentos de ócio daqueles 3 Km para trás e para a frente me tinha passado pela cabeça: o que acontecerá no dia em que chegar a um hostel e o encontrar fechado? Pois hoje descobri: fica-se à rasca. Do café ao lado surge uma matrona. Dá para perceber a ideia com uma ou outra palavra de alemão à mistura. Que o hostel está fechado e não se espera ninguém. E eu… não pode ser. Ela saca do telefone e telefona à pessoa responsável. Passa-mo. Ah e tal, que me tinha enviado um e-mail a avisar que não podia aceitar a minha reserva porque o hostel estava cheio. Cheio? Deixa-me rir. O que ela devia querer dizer é que estava tão completamente vazio que foi de fim-de-semana e não se esteve para se chatear e eu que me lixasse (quando mais tarde vim o e-mail vi que tinha acertado em cheio; dizia lá que de momento estava cheio mas que eu podia vir na 2ª Feira). E agora? Agora vê se encontras um quarto numa casa particular no centro da cidade, diz-me ela. Obrigadinho por nada.

Portanto, ali estou eu, numa cidade desconhecida, e, já agora, remota, com a noite a cair, e a ver em que canto abrigado dos bosques me vou enrolar para passar a noite se tiver que ser. Vou andando devagar para a cidade, passa do outro lado da estrada um jovem de ar evoluido, a quem pergunto se fala inglês. Fala. Mas de pouco serve, porque é de Sarajevo, está em Jajce a estudar e só conhece aquele hotel com cara de custar mais do que quero pagar. Ainda vou lá meter o nariz. Entretanto só tenho o equivalente a 10 Eur no bolso, mais 20 Eur. Não aceita cartões American Express, ou pelo menos não tem esse auto-colante na porta, e assim afasto-me, referenciando-o como última hipótese. Entro na cidadela através de um acesso pedonal que atravessa a muralha por um arco, e a primeira coisa que vejo é um cartaz discreto numa casa a dizer “quartos, zimmer”. Ora é isto mesmo que preciso. Agora é ver se o dono do estamíné não terá morrido há 10 anos tendo ficado ali o anúncio esquecido. No andar térreo um salão de cabeleireira de porta entreaberta. Bato e entro, a medo. Uma jovem simpática diz que sim, que há ali quartos e diz-me para a seguir. Pergunto a medo quanto será um quarto, pensando que não há melhor para aguçar a ganância do que a visão de um turista em dificuldades e sem opções. 10 Eur!? Fico já com isto, penso para com os meus botões. Genial. O mesmo que o hostel, e um quartinho só para mim. Em tudo isto só perdi uma coisa: acesso à Internet na caminha. Fora isso, foi só ganhos! Nas noites que já vão frias, com as temperaturas a chegar quase aos zero graus, tenho direito a um luxo: aquecimento central! E fora isso, gosto. A localização é de sonho: o acesso ao castelo é literalmente do outro lado da rua e tudo o que há de mais importante para ver fica aqui num raio de cem ou duzentos metros. O quarto, simples, claro, está impecável, soalho de madeira luzidia, duas camas, e até uma TV. A casa de banho, comum, um mimo. Espaçosa, com todas as comodidades e até shampôo! Outro luxo que muito jeito me dá. E é assim que de entusiasmo se passa a desespero para se regressar a um estado de euforia positiva, tudo num espaço de uma hora.

Logo a seguir resolvo mais dois problemas: encontro um café simpático com preços igualmente catitas onde bebo uma boa cerveja Sarajevsko por um Euro e onde trato do que tenho a tratar na Internet, e, do outro lado da rua, abasteço-me de dinheiro. Espero que pela última vez na Bósnia. Está tudo perfeito. De tal forma perfeito que cosnidero ficar uma noite extra em Jajce. Mas estou esfomeado. A pizzaria ali ao lado está fechada. Dou um giro em procura de um restaurante simpático. Sim, estou tão bem disposto que me proponho brindar com uma refeição a sério! Mas não encontro. De forma que vou antes ao supermercado, também ali ao virar da esquina. E que encontro eu? Oh meu Deus, cada vez gosto mais de Jajce! Dou de caras com o primeiro supermercado decente desde… desde… quase que me esqueci… mas pronto, desde a Macedónia, e isso foi quase há um mês atrás! Nem é um supermercado, é um verdadeiro hipermercado, cheio de coisas boas, daquelas que eu gosto, e com uma variedade assombrosa a preços adoráveis! Vamos lá ver se me lembro de tudo… 3 maçâs, 2 laranjas, 2 bananas, 2 sobremesas lácteas, 1 pão, 1 chocolate, 1 frasco de compota, 1 pacote de leite, 1 yogurte líquido… por 5 Euros! Saiu-me barato, este jantar, mesmo sem considerar que o pequeno-almoço do dia seguinte e mais qualquer coisa até vêm incluidos.

Recolho-me ao quarto, e, apesar da dor de cabeça (cortesia da rakia da véspera, da curta noite de sono e das longas horas sem comer) sinto-me nas nuvens. Todos os problemas resolvidos. Alojamento que é uma maravilha, dinheiro fresco na carteira, acesso Internet descoberto, cidade girisssima. E como bónus arranjei um anfitrião em Brcko e muito possivelmente outro em Banja Luka. Instalo-me na cama, como com avidez e gula, trato-me bem, com todos estes regalos. Ligo o aquecimento e deixo-me embalar.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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