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Balcãs ’11 – Dia 38 – Belgrado, o final.

5 de Novembro

Depois de aquela sensação de me deitar pela última vez nos Balcãs, veio a de acordar por estas terras e saber que no dia seguinte estarei em casa. É Sábado e o Dragan convidou-me para passarmos a manhã juntos. Tem coisas para me mostrar. Acho óptimo. Gosto da companhia deste homem tranquilo, e sem dúvida que, apesar de não ter crescido em Belgrado, já ali viveu anos mais que suficientes para ganhar credibilidade como cicerone. Acordámos, com o vagar preguiçoso que um manhã de fim-de-semana inspira. Pequeno-almoço nas calmas. Conversa. E o tic-tac do relógio que não parava. Por fim sugeri que estaria talvez numa boa hora para sairmos, isto se a ideia era aproveitar bem o dia. E lá fomos.


Dragan conduz o seu carro, vamos atravessar a ponte e explorar a outra margem do Danúbio. Está um belo dia, e muitos locais procuram abandonar a cidade para um fim-de-semana prometedor. Há trânsito intenso, mas os carros vão fluindo. Fazemos uma pequena paragem para observar a cidadela a partir do outro lado do rio. Há uma longa fila de barcos-restaurante mas estão todos encerrados e não se vê vivalma. Diz-me o Dragan que no Verão é uma loucura, mas nesta época é o que se vê.  Depois seguimos para o próximo destino. Ele quer comprar uns cremes naturais que só podem ser adquiridos junto de um feirante, no grande mercado de Nova Belgrado. Este, fervilha de vida, cativa-me bastante mais que o que visitei na véspera, na parte antiga da cidade. Lá encontramos o contacto do Dragan, que o abastece de produtos naturais, e, já na saída, compro bolos e pão para o dia. Por tuta e meia. Fico satisfeito com o negócio, numa fase em que faço a gestão do dinheiro sérvio para me manter até à hora da partida.

O tempo passou depressa de mais. Ainda temos umas quantas horas, mas começo a desconfiar que não vai ser possível seguir o plano que o meu amigo me apresentou na véspera. Ele quer-me mostrar o passeio do Sava, um local que lhe é querido desde que, nos seus tempos de universitário, ali viveu. O Sava é um rio que conflui com o Danúbio às portas de Belgrado, e que influencia a Nova Belgrado, os subúrbios que surgiram depois da Segunda Guerra Mundial, numa área que outrora foi um enorme pântado, enxuto para receber a vaga de migrantes que afluiram à grande cidade por essa altura. Esta parte da cidade é constituída por construção de influência socialista, uma selva urbana que contudo tem as suas vantagens: foi cuidadosamente planeada, e isso reflecte uma certa qualidade de vida, com abundantes espaços verdes, uma rede de transportes públicos adequada, vias amplas.

Mas o passeio do Sava é de facto algo fabuloso. Um dos melhores momentos desta viagem. Não tem nada de turístico, os estrangeiros que visitam a cidade raramente aqui chegam. É uma coisa para locais, uma zona muito apreciada para o passeio de fim-de-semana. E se nos meses quentes a coisa ganha proporções de enchente, num dia como hoje está bem composto. Ao longo do rio sucedem-se os barcos-restaurante. São dezenas, e é como que um parque temático. Cada um propõe uma atmosfera diferente. Há o restaurante italiano, com decoração a condizer. Um que parece uma selva tropical. Outro, é todo brasileiro, com samba e bebidas de lá. Alguns são mais comuns, mas todos são convidativos. Defronte existe uma ilha, à qual só se acede de barco. Existe uma ligação frequente, mas muitas pessoas têm a sua própria embarcação. E se deste lado os barcos são restaurantes, do outro são habitações e refúgios de fim-de-semana.


Depois de estendermos as pernas por um bom bocado, acabamos por nos instalar para uma bebida no favorito do Dragan, um estabelecimento de temática sul-americana. Conseguimos uma mesa junto à água, e instalados em confortáveis poltronas vamos bebericando os nossos sumos com o vagar que a manhã inspira. Está-se mesmo bem, e por mim aquele momento não acabava nunca. O sol acaricia-me, relaxando-me. Uma bela maneira de passar o tempo deste último dia. Conversamos sobre tudo, apreciando em conjunto aquele bocadinho. Tivémos por fim que partir. Havia ainda um local a visitar, mas a coisa não correu bem. Já havia pouco tempo e o trânsito aquela hora era muito. O Dragan conduzia que nem um louco, decidido a mostrar-me Zemun. Antigamente era uma aldeia autónoma, mas com o estabelecimento de Nova Belgrado e com o alastramento da mancha urbana da capital, a localidade foi engolida por Belgrado, fazendo agora parte da grande cidade. É um local muito apreciado pelos locais, que ali acorrem aos fins-de-semana. Quando finalmente conseguimos chegar e estacionar o carro… estava na hora de regressar. Foi frustrante, talvez mais para o Dragan, que obviamente tinha gosto em me mostrar Zemun. Mas tinha um encontro com a Sonja do outro lado, e simplesmente não havia tempo.

O regresso fez-se com uma condução alucinante, porque tinhamos dez minutos para atingir o centro. Consegui chegar apenas com um pequeno atraso e foi então que conheci a interessante Sonja. Esqueci-me de dizer: ela é uma couchsurfer a quem pedi “asilo”; não mo podia dar, mas disponibilizou-se para me mostrar um pouco da cidade, e como Portugal está para ela como a República Checa está para mim, a coisa prometia. O seu objectivo de vida é encontrar um emprego e mudar-se para o nosso país. Por esta ordem ou pela inversa. Eram duas horas da tarde e passámos as três horas seguintes juntos. Primeiro caminhámos. Ela mostrou-me a única coisa da minha lista que me faltava ver: uma zona cosmopolita da cidade, cheia de cafés e de vida cultural, que atravessámos, comigo dividido entre a boa conversa que fluia e a observação dos detalhes que se revelavam interessantes. Acabámos por nos instalar numa esplanada com vista para o rio, a beber cerveja e a falar de Portugal e da Sérvia. Sobretudo das semelhanças entre os dois países. Pouco depois juntaram-se-nos dois amigos dela, rapaziada impecável. Ficámos juntos até à hora que tinha definido como apropriada para preparar o regresso, já o sol se punha.

Caminhei até à casa do Dragan. Tinha ainda uma hora antes de me pôr em marcha para o aeroporto. Foi tempo para as últimas conversas e para comprar mais alguns abastecimentos no supermercado local, com destaque para o delicioso queijo fetta, várias vezes mais barato do que em Portugal. Decididamente não ia passar fome durante a noite no aeroporto de Roma. Hora da partida. Despedida e caminhada até à praça Slavjia, onde o expresso para o aeroporto recolhe os passageiros. Alguma incerteza, porque o hotel que marca a paragem é grande e não faço ideia de onde esperar, mas depois de uns vinte minutos de ansiedade lá vejo o mini-autocarro chegar. Saímos de Belgrado, já noite feita. A viagem decorre sem incidentes e chego ao aeroporto adiantado. Relaxo. Está acabada a viagem.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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