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Balcãs ’11 – Dia 6 – De Pristina até Tirana, por Prizren

4 de Outubro

Que dia longo, no melhor dos sentidos! Despertar bem cedo, na certeza de que o meu tempo em Pristina estava completo. Nada mais para ver, sem vontade para fazer mais nada por ali. Uma cidade que não deixa saudades. A visita foi positiva, gostei de conhecer, de saber o que é Pristina… mas a cidade esgota-se rapidamente e não há nada atraente o suficiente para se desejar uma repetição. Sabia que havia autocarros frequentes para Prizren, que decidi visitar a caminho de Tirana, e que as partidas se iniciavam logo as 6:45 da manhã. Por isso, foi sair de casa com passo decidido, sentindo-me em forma e capaz de enfrentar o mundo. O sol levantava-se, do outro lado do vale onde Pristina foi construida. O percurso até à estação de autocarros decorreu sem problemas, um caminho rápido, muito mais agradável de fazer para baixo e sabendo-se por onde se deve ir. Levava o GPS ligado mas não seria necessário. Lembrava-me bem de cada rua, cada cruzamento. Aquela hora viam-se grupos de homens, talvez esperando o transporte para o trabalho, e as suas faces não eram amigáveis. Os olhos pousavam prolongadamente em mim, com uma curiosidade agressiva, facilmente ignorada. Já passada a estátua do bom do Bill parei para umas compras numa pequena mercearia… apenas o suficiente para o pequeno-almoço e para me manter vivo ao longo das duas horas de viagem.

Como a rede wi-fi do Roberto não era “Ricardo friendly” aproveitei para para me ligar um pouco na sala de espera do terminal de autocarros, depois de mirar com alguma tentação a carne que grelhava nos vários quiosques de comida no exterior. Parecia verdadeiramente suculenta, mas pus a ideia de lado… achei algo doentio mandar-me aos prazeres da carne quando ainda pouco mais era do que madrugada.

Ainda estive quase uma hora online. Aparantemente havia mais coisas para pôr em dia do que estava à espera, mas quando desliguei o computador e me dirigi à bilheteira, a dois metros atrás do meu pouso, recebi boas notícias: um autocarro dali a poucos minutos… o bilhete, que comprasse ao pessoal da transportadora. E assim foi. Encontrei a plataforma certa sem problemas, esperei um pouco que aparecesse o autocarro, mochila arremessada para o porão, e lá vou, instalado. 4 Eur de bilhete. Hummm esta visita a Prizren permite-me logo poupar 6 Eur! É que o bilhete Pristina – Tirana são 20 Euros. Mas se até Prizren pago 4 e depois serão mais 10… total de 14 Eur. Já ganhei o dia, literalmente falando.

A estrada é má, atravessando áreas com muito relevo e bastante tráfego. Subitamente vejo o temido aviso na margem da floresta: minas! Zona de minas… o aurocarro vai devagar, mas como segue muito perto da orla do bosque, não é fácil ver as coisas, e mais complicado ainda fotografar. Vejo mais sinais e depois, um trilho que sobe e se perde na penumbra, marcado com fitas vermelhas de um lado e de outro; e depois, do lado oposto da estrada, vejo algumas viaturas das Nações Unidas… eventualmente estarão a trabalhar na ingrata tarefa de desminar aquele sector.

Vou sentadinho numa das últimas filas de cadeiras, com um casal jovem à minha frente e mais uns quantos kosovars espalhados pelo autocarro. Nisto, há uma paragem numa pequena cidade e um pequeno exército de mulheres e crianças ciganas dirige-se para o autocarro. O racismo ali revela-se sem pruridos… imediatamente, todos os ocupantes excepto eu levantam-se e concentram-se nos lugares da frente, enquanto a ciganada me rodeia. O revisor convida-me para um lugar à frente, mas declino o convite, o que o leva a olhar constantemente para onde me encontro, com ar desesperado inspirado pela vergonha que a súbita vizinhança causará neste visitante.

Entretanto divirto-me. As ciganas mais velhas – mulheres na casa dos 40 – estão extremamente preocupadas, curiosamente partilhando as mesmas razões do nosso amigo revisor: há que respeitar o estrangeiro a todo o custo. A criançada, que se imagina no aalvoroço constante próprio da idade, é mantida sob o controlo rígido da chapada rápida ao menor levantar de voz ou salto irrequieto. Mesmo elas, as adultas, falam baixo, quem sabe confusas ou mesmo lisonjeadas pela minha presença no seu sector do autocarro. Ninguém me mira de forma ostensiva. Pelo contrário, sou ignorado, mas sinto claramente que por respeito… curiosidade não faltaria. A pequenina que vai ao meu lado chama-se Denise e sempre vai vendo o que estou a fazer no computador… observa detalhadamente a minha câmara fotográfica… as adultas tentaram que ela se sentasse noutro sítio, que não havia, e me oferecesse todo o espaço, mas isso nem à força de ordens ríspidas conseguiram. Quando vi aquela gente toda entrar, pensei que iria sofrer um pouco com odores menos agradáveis, mas nada disso sucedeu. Para além da experiência única, os incómodos prácticos foram bem menores do que os que se sentem num McDonalds de Lisboa ao Domingo de manhã, quando estão pejados de criancinhas mal-educadas.


O grande circo foi-se desvanecendo à medida que nos aproximávamos de Prizren, porque apesar de terem entrado todos juntos, sairam aos  poucos, no meio de grandes cerimónias de despedida. Na estação de autocarros, a habitual recepção dos taxistas. Logo do outro lado da rua avisto a mesquita sem telhado, construida pelos turcos, deixada ao abandono, e recentemente renovada, de novo, pelos turcos. Tal como aconteceu em Pristina, não sei bem para onde me dirigir. Assim sendo, olha, vou andando, e enquanto o faço sinto a onda de decepção. Com o consenso estabelecido da superioridade turística de Prizren sobre a capital, esperava ser logo banhado por uma míriade de maravilhas, e como não sucedeu, comecei a praguejar. Isto até chegar à beira do rio, e ver a primeira grande mesquita. Por detrás, a colina no topo da qual se ergue a fortaleza, com casas a pontilhar a vegetação que cobre a encosta. A partir dali fui encontrado painéis de informação turística, preciosos auxiliares nesta visita sem guia. O dia está perfeito, com céu quase totalmente limpo e temperatura amena, a convidar à exploração. Subi e desci, encontrei casas otomanas, mais mesquitas e igrejas. Prizren tem uma influência turca que não se vê em Pristina. Aliás, aqui, o turco é língua oficial, e surge em todo o lado, O Estado turco investe, apoia, suporta a sua comunidade no Kosovo. Vê-se a bandeira daquele país com uma frequência surpreendente.

Para esta viagem, excepionalmente, decidi trazer um símbolo de Portugal na mochila, para esclarecer dúvidas que pudessem surgir ao atravessar áreas onde existem tensões étnicas e dissolver animosidades que pelos Balcâs são frequentes contra os italianos. E em Prizren a coisa começou a resultar. Ouço um grupo de fedelhos identificar a minha nacionalidade em voz alta, e mais tarde, o guarda de um cemitério ancestral mete-se comigo, com boa disposição, soletrando o nome do meu país.

Prizren tem de facto muito para explorar. Passeei ao sabor do vento, recolhendo indicações pontuais nos paineis informativos que fui encontrando, vi muita coisa interessante, mas no fim do dia fiquei com a sensação que mesmo assim ficou bastante para descobrir. As ruas do centro fervilham de vida. Turistas não há, mas a juventude local chega e sobra para preencher todas aquelas esplanadas e cafés.


Desde que me aproximei do rio que tento encontrar o caminho lá para cima, para a fortaleza. A recolha de informações não foi frutuosa, resultando numa indicação vaga sobre a direcção a seguir. Sem problemas. Acabei por dar com aquilo depois de explorar áreas que teriam ficado por visitar, soubesse eu ao certo como subir ao castelo. A meia encosta começo a encontrar as casas devastadas do bairro sérvio, pilhadas e postas a fogo na sequência do recente conflicto. Entro por um trilho entregue às silvas, com ruinas de um lado e de outro, mas atrás de mim um polícia chama-me. Rua fechada. Paciência. Não sei de onde o homem se materializou mas fico com a impressão de que se tivesse sido mais lesto, teria outra sorte. Mesmo assim obtenho algumas imagens, antes e depois da abordagem falhada. Pode ser uma impressão, mas senti que as pessoas se sentiam incomodadas com o fotografar da destruição causada no património da comunidade que ali viveu. Em redor da igreja local, rolos de arame farpados procuram barrar a passagem. De perto, nada mais noto de anormal, mas uma vez lá em cima, vejo que o templo ortodoxo foi destelhado e semi-destruido. Talvez por isso, outras igrejas ortodoxas na baixa da cidade se encontrem vedadas e com um guarda dentro de uma casinhota, que as mantém debaixo de olho. Assim, como assim, não creio que tenham sobrado sérvios em Prizren para contar a história, portanto as igrejas não são necessárias.


A fortaleza promete, de cá de baixo, mas uma vez chegado vejo que apenas tem a muralha exterior. Nada lá dentro para além da campo baldio. O que se usufriu é de uma grande vista sobre a cidade. Não havia muita gente por lá. Para trás devem existir casas, porque uma ou outra pessoa ultrapassava o espaço com ar de quem vai lá a baixo tratar de algo concreto. Fora isso, um casal de namorados e uns turistas, a quem peço para me tirarem uma fotografia. Ficámos à conversa um bom bocado. O senhor, norueguês, rotula-se como viajante profissional. Deve andar pelos setenta anos. Trocamos informações e experiências. Fico a saber que o poeta favorito dele é Luís de Camões, e ouço as suas impressões de uma vida a calcorrear (também) o extinto império colonial português.

Quando desco a colina sinto o cansaço a chegar. Ainda tenho bastante tempo. Segundo as informações que recolhi, o autocarro para Tirana é às 16:30, mas pelo sim pelo não quero-me despachar mais cedo, digamos, pelas 15:00, para ter um plano B. Já me dirigia para a estação quando vejo um painel turístico e descubro que não estou longe de um último ponto de interesse: um cemitério muçulmano ancestral. Apesar da exaustão, arranjo energia para este esforço adicional. Mas enquanto vou caminhando e as centenas de metros se acumulam começo a duvidar que venha a encontrar o que procuro. Entro num parque, de novo cheio de juventude. Descanso por uns minutos. E, dali de onde estou, vejo algo ao longe que poderá ser o tal cemitério. E é mesmo! De novo uma renovação financiada por instituições turcas. O cemitério mais não é do que um campo com pedras espetadas no solo, que se erguem nos mais diversos ângulos. Não é propriamente pictoresco, mas emana um misticismo especial.

Agora sim, dirigo-me com passo certo para a estação de autocarros. Logo na esquina, uma agência de turismo tem uma imagem de um autocarro junto a uma lista de destinos, onde se inclui Tirana. Entro e pergunto. As quatro senhoras que lá se encontram tratam-me com simpatia e saio de lá com a confirmação da hora… o localé que é mais vago, mas é perto dos táxis. Ainda faltam quase duas horas. Sento-me numa esplanada e encomendo três pedaços de carne grelhada com pão. As três saladas que aparecem em cima da mesa são um extra bem vindo. E para ajudar, uma cerveja geladinha, bem gostosa. Uma refeição que me sabe mesmo bem, tomada à sombrinha, depois de um dia mais ou menos quente a caminhar. Na mesa ao lado, dois homens encomendam o mesmo que eu… só que entre os dois devoram TRINTA pedaços iguais aos meus três.


Já cansado de ali estar, pago e vou até ao recinto da mesquita. Sento-me num banco, tiro as botas e descanso na horizontal, aquecendo-me ao sol, recuperando da perda de calor provocado pela sombra do almoço. São 16:00 e se calhar está na hora de saber mais sobre o meu transporte para Tirana. Entro na estação, vagueio de olhos bem abertos, mas não vejo nada que me interesse… até que encontro o revisor da camioneta da manhã, com quem fico à conversa. De novo, a preocupação com o que o estrangeiro pensa… pergunta-me o que achei do Kosovo, das pessoas…. e com a ajuda inesperada deste tradutor potencial passo a saber que decididamente o autocarro não se apanha no interior da estação mas lá fora. Despeço-me com uma troca de contactos de Facebook. E ali sim, vejo um quiosque que diz Bus Tirana. Entro, e é ali. Compro o bilhete e ganho logo na funcionária da agência uma aliada feroz. Diz-me para me sentar ali ao pé dela e não me preocupar com nada. A partir dali, telefona ao motorista para saber como estão as coisas… parece que o autocarro vem à hora… que pára mesmo ali em frente, para me deixar estar sentado e não me preocupar com nada. Chega a hora e nada de autocarro. Ela levanta-se de cada vez que uma viatura faz a curva lá ao fundo, olhar atento, precustrante…. mas ainda nada, até que chega mesmo. Estou entregue.

São cerca de três horas até Tirana. Isso agora, que a nova auto-estrada que cobre boa parte da distância foi inaugurada. Antes, eram oito horas. A paisagem é espectacular, mas acaba por cansar e descontraio.

A noite está a instalar-se quando chegamos a Tirana. A iluminação pública não é inexistente, mas é tão discreta que se fica com a ideia de se estar numa cidade às escuras. Apenas as luzes privadas trazem um pouco de brilho aqui e acolá. Fora do centro, à falta de hábito, só se consegue andar de lanterna em punho, e mesmo na parte central sente-se uma penumbra permanente. No caos da hora de ponta atravesso avenidas repletas de trânsito enfurecido e multidões de tiraneses. Por fim chego ao hostel. Esquecendo o barulho incensante da rua, o local é maravilhoso. Já me esquecia… chama-se Tirana’s Backpacker Hostel, e paguei 12 Eur por noite, com pequeno-almoço incluido. Também tem wi-fi e toalha. O ambiente é encantador, o jardim exterior promete momentos de deleite e o barzinho que vende apenas vinho, raki e cerveja practica preços de arrasar: um copo de raki, cerca de 0,75 Eur e uma caneca de meio litro de cerveja super geladinha é mais ou menos o mesmo preço. Com todas estas maravilhas a rodearem-me, saio apenas para comprar qualquer coisa para sobreviver à noite, num supermercado defronte. Depois, é pelo serão dentro… com boa bebida e igualmente interessante companhia… um eslovaco que vive em Praga, um irlandês que gosta de falar, e outro mais sossegado, e, mais tarde, um albanês que trabalha em Florença. Isto, para além da Malvina, que trabalha no hostel e serve as bebidas.


About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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