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Balcãs 2010. Dia 15. Veliko Turnovo e Arbanasi.

Segundo dia em Veliko Turnovo. Um dia cheio de sol, a pedir para ser aproveitado. Os meus parceiros de Couchsurfing partiram hoje para Bucareste… vão-me uns dias adiantados. Saimos juntos, eles, apanharam um táxi para a estação, eu, fiz os mil e tal degraus… para chegar lá abaixo e me aperceber que me tinha esquecido do dinheiro e passaporte em casa. Soube-me tão mal! Andei para trás e para a frente na rua a matutar sobre o que fazer. Estava-me a apetecer tão pouco refazer o caminho para cima e para baixo que cheguei a ponderar simplesmente dar ali uma volta e regressar a casa. Mas lá me enchi de coragem e tratei do que havia a fazer. Só que a má onda não tinha ainda acabado. Era suposto ir à aldeia de Arbanasi, segundo o Rough Guide uma das mais pictorescas do país, e blah blah, cheia de atributos e maravilhas. Ora bem… não encontrei o mini-bus que suspostamente faz a ligação, calcorreei aquilo tudo, voltei para trás, fui ao posto de turismo pedir uma ajudinha, mas encontrei lá uma bruxa antipática e incapaz de dar qualquer ajuda, sai de lá, meti-me num táxi e fui. Bem, a parte da corrida, foi bem… simplesmente entrei, disse o nome da aldeia, cheguei lá, paguei 2 Eur e pronto.

 

Parece-me que o tipo que escreveu o Rough Guide deve ter visto uma outra aldeia qualquer. Achei Arbanasi um sítio onde não ir. As casas são todas de luxo, dá a ideia que é o bairro de elite de Veliko Turnovo. Há restaurantes e hoteis por todo o lado e a única coisa com potencial interesse seria a vista sobre a cidade, ao longe, mas que hoje, com pouca visibilidade, era uma coisa miserável. E assim, encontrei as três caches disponíveis lá e vi-me entalado: já estava mais que aborrecido de ali estar, eram duas da tarde e o próximo autocarro de regresso seria pelas cinco e meia. A estrada para Veliko Turnovo é de apenas 3 km, mas sem bermas e com muito trânsito. Fora de questão.

Foi então que se deu um pequeno milagre que salvou o dia: pelo canto do olho, com esta vista experimentada de caminhante, apercebi-me de um sinal de trilho de caminhada. E… hum… na direcção certa. Ora então vamos lá arriscar… uma loucura… arriscava-me a andar 4 km até verificar que não iria para onde queria, e lá teria que voltar para trás. Mas correu bem. Mais à frente existia um pequeno telheiro, para abrigo dos caminhantes. Estava lá um tipo. Tão parado que por um segundo pensei que estava morto. Estava absorto em papelada que tinha espalhada em cima da mesa. Acho que vi um telemóvel e mais instrumentos do mesmo género. Tinha aspecto de intelectual louco, mas acabou por olhar para mim, e eu apontei timidamente com o dedo para a frente e e perguntei: “Turnovo”. Ao que ele respondeu abanando negativa a cabeça, mas de uma forma, estranha, entusiasmada… e por uns segundos não percebi… repeti a questão… novo menear da cabeça, ainda mais entusiasmado… foi então que me lembrei… na Bulgária está tudo trocado: dizem que sim com a cabeça quando querem dizer que não… e vice-versa. Foi-me dito que os turcos, quando invadiram, punham uma lança sob o queixo dos homens, que só tinha duas escolhas: se abdicavam da sua fé e se convertiam ao islamismo rodavam a cabeça para um lado e para outro como sinal; se não, teriam que enterrar a lança sob o queixo… ou seja, o movimento de não para “sim”, e o movimento de sim para “não”.

Seja como for, agradeci e segui. E internei-me na bela floresta. Que sossego! Só se ouvia água a correr e a passarada a chilrear. Não admira que o tipo tenha escolhido aquele local como pouso de inspiração ou trabalho. E lá me fui aproximando do destino almejado, apesar de na fase final ter dado umas voltas inesperadas que mesmo tendo adicionado tempo e distância ao percurso projectado, me mostraram umas quantas surpresas. Uma fábrica abandonada, uma bucólica ponte pedestre sobre o rio, uma casa com aspecto fantasmagórico… uma bela igreja… e estava já às portas de Veliko Turnovo. Foi só atravessar aquele bairro no vale, que então me apercebi ser bastante pobre, com alguma fauna de aspecto duvidoso mas até prova em contrário perfeitamente inofensiva. Depois, foi subir até à entrada da fortaleza, fazer uma incursão na cidade antiga… entrar por ruelas que mais pareciam de uma pequena aldeia, e depois voltar para trás… seguir o caminho percorrido na véspera. A determinado momento vejo uma velhota sentada do outro lado da rua… pensei em tentar obter uma fotografia… mas não deu, porque ela olha para mim… e quando estou mesmo em frente a ela, diz… “Portugal”. Demorou um décimo de segundo a fazer-se luz. Era a senhora que ontem tinha estado à conversa comigo na ponte! Estava ali sentadinha a escrever. E atravessei a rua, e falámos mais um pouco. Criatura curiosa.

Finalmente, já bem no centro, sentei-me numa esplanada com vista total sobre a cidade, saquei do meu computador, pedi uma Coca-Cola, e usufrui do momento. Só me levantei quando o frio que vem com o pôr-do-sol começou a chegar… e foi bom ter arrefecido, porque subi aquilo tudo sem suar.

Tabela de Despesas

02,00 Eur Táxi
01,00 Eur Cerveja

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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