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Balcãs 2010. Dia 24. Sighisoara.

A noite foi mais longa que o desejado. Assim, quando acordei, uns minutos antes do despertador chamar, tinha dormido apenas quatro horas. Comi qualquer coisa, acabei de preparar a mochila tentando ser o mais silencioso possível em honra dos meus três companheiros de quarto, e pus-me na alheta. O sol ainda não tinha nascido e estava frio. Caminhei até à paragem de autocarro onde cheguei exactamente à hora certa. Na estação tudo correu bem, e em virtude deste encadeado de sucessos, acabei por esperar um bom bocado pela hora de partida.

 

 

O comboio saiu à tabela. O meu lugar apontava para um compartimento atulhado, mas como a carruagem estava completamente vazia, não reconheci razão para respeitar a ordem, e instalei-me na minha “salinha” privada. Sozinho parti e sozinho cheguei, sem ser importunado por ninguém excepto pelo revisor. Os comboios vazios parecem ser uma constante. Hoje, uma paragem que causou um atraso de cerca de uma hora deu-me uma ideia das razões pelas quais as pessoas me recomendam sem cessar que use autocarros em vez de comboios. Mas os eventuais atrasos compensam bem o conforto destas viagens, de pernas esticadas e tralha espalhada, tal caracol, viajando devagar mas de casa às costas.

 

 

Assim que cheguei a Sighisoara entrei num terreno emocional negativo, por uma série de razões: as expectativas para Sighisoara eram muito elevadas, e quando tal sucede, é fácil cair-se no terreno movediço da decepção e da frustração… ora sucede que excluindo a cidadela, essa gema do turismo romeno, a localidade em si tem um aspecto decadente, novo para mim na Roménia, e isso foi o suficiente para acender o rastilho do descontentamento; depois, soprava um vento frio, muito desagradável, que não ajudava nada a manter a moral elevada; a constatação de que o Geocaching em Sighoara é do piorio, foi o impacto mais violento no ânimo elevado que trazia de Brasov. Depois disso, já nada havia a fazer… pelo menos por algumas horas teria que estar na mó de baixo.

 

 

A cidadela está estragada pela exploração massiva do turismo. As pessoas são subtilmente hostis, ou pelo menos assim o senti eu. As casas, muito coloridas, dão um toque de alegria ao local. Entretanto, recolhidas as primeiras impressões no processo de chegada, refugiei-me um pouco no quarto de hostel. Era a única pessoa a ocupar o dormitório de seis camas e esse sentimento de rei da paróquia deu-me um gosto especial. Tinha um salão enorme por minha conta, uma casa de banho limpa e um duche de água bem quentinha e pressão óptima. Para terminar, internet à disposição. Este cenário depressa começou a levantar-me a moral. Foi um prazer incrível tomar um duche e poder vestir roupa lavada. Recuperado o corpo e a alma, sai para dar uma volta… e acabei por limpar completamente o espírito, internando-me nas florestas que rodeiam Sighisoara, caminhando cerca de 12 km no mais belo dos cenários. Ao regressar, estava completamente recuperado da onda negativa que me conquistou temporariamente. Ainda caminhei mais um pouco pelas ruas da cidadela antes de regressar ao hostel. Visitei o cemitério ao lusco fusco , assim como algumas ruas ao acaso. Vinha esfomeado e decidido e oferecer a mim mesmo um pequeno mimo. Sentei-me no restaurante e encomendei o que me pareceu bem, e que, por sinal, estava óptimo. Em redor, homens locais assistiam com intenso entusiasmo ao jogo de futebol entre o Utrecht e o Steua de Bucareste, que acabou com um empate a um golo.

 

 

Antes de me recolher sai para espreitar a cidadela à noite. Tinha lido que era bastante bonita e não fiquei desapontado. Quase todos os edíficios da praça central estão generosamente iluminados, conferindo um ambiente mágico ao cenário. Não me afastei muito. Dei umas voltinha curta, só para sentir a atmosfera, e fui para cima. O hostel Burg é um edíficio antigo, muito antigo. Está localizado a uns poucos metros do centro da cidadela. Paguei menos de 10 Eur por esta noite, e continuo a ser o rei do salão. Sinto-me no paraíso, com estas condições perfeitas, incluindo cama com lençois lavados, silêncio quase total, entrecortado apenas pelas românticas badaladas dos sinos das igrejas… durmo que nem um anjo.

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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