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Bratislava. 21 de Setembro. Dia 2.

 

Hoje, quase inesperadamente, mudarei de anfitrião. O Matus disse-me que teria que sair um dia mais cedo, porque a namorada vem passar o fim-de-semana com ele e…. pois… já se está a ver o filme…. quarto é só um, o ardor nas virilhas deve ser grande, e eu durmo no mesmo espaço. Portanto, Ricardinho, põe-te na alheta. Felizmente consegui apanhar o Saki ontem ao final da tarde no MSN, pedi-lhe para ficar lá mais um dia, a contar de hoje. E assim ficou combinado. Portanto, antes de sair, de manhã, preparei a mochila, para passar mais tarde a recolhê-la, quando for oportuno concretizar a mudança. Feito isto sai para a rua sem destino definido. Bratislava é uma cidade pequena. Os próprios eslovacos têm disso consciência. Chamam-lhe a “little big city”, e transportam essa mensagem para as campanhas oficiais de turismo. Dito isto, é fácil esgotarem-se as principais atracção, cabeças de cartaz de circuitos para os viajantes de cartilha. Depois disso, amigos, é sair pelas ruas, de costas viradas para o centro, a explorar. E assim encontram-se pequenas pérolas, cantinhos mágicos e uma outra cidade, a cidade dos eslovacos, que a guardam para si, abrigada da voracidade dos bus carregados de turistas, dos visitantes de circunstância que olham Bratislava de cima, para já condenada a ser a irmã menor de uma família a que se juntam a vizinha Áustria e a antiga capital, Praga.

Em Bratislava há lagos artificiais. São pelo menos três, os maiores, os que visitei, aqueles que me lembro. E na sua orla reuném-se famílias em tempos de lazer, estendem-se ao sol indíviduos e escondem-se namorados em busca do seu momento inesquecivel. O que mais espanta é que nadam, e mesmo agora, já acabado o Verão, entram pela água impecavelmente limpa, e atravessam aquilo com braçadas decididas, ar regalado, sem prenúncio de frio sentido ou admitido. E há arranha-céus, não muitos, mas resplandecentes, talvez porque pelo seu número reduzido brilham garbosos ao sol, recortando-se contra o céu azul. E velhos mongos, fantasmas arquitectónicos de um regime que depois de morto ainda persegue as pessoas com a fealdade da sua herança material.

Depois do almoço, o das pessoas normais, que eu não o tomo em viagem, fui conhecer o Saki. Frente ao Palácio Presidencial, bom augúrio, tendo sido das visitas favoritas até a momento nesta cidade. Fez-se de imediato amizade. Empatia, no que me diz respeito. Arranjámos logo um programa: mais umas voltinhas e depois toca a ir buscar a trouxinhas para o meu lar dos dias seguintes. Subimos ao castelo, atravessámos pontes sobre o Danúbio, conversando, partilhando vivências e perspectivas. O Saki resolve-me logo alguns problemas pendentes, vai-me comprar um bilhete semanal para os transportes públicos da cidade. Algo bem necessário, porque por uns tempos não quero ouvir falar em palmilhar quilómetros com uma casa de 24 quilos às costas. Agora posso fazer-me transportar de autocarro, e que bem que sabe. O apartamento dele está bem localizado. É do lado oposto do rio, em Petrzalsky, que está para Bratislava como Almada está para Lisboa, com umas quantas diferenças: há quatro ou cinco pontes que se atravessam a pé em meia dúzia de minutos, e tecnicamente faz parte da cidade-mãe. Ora a minha nova residência está bem perto das pontes, e ainda mais próximo do melhor centro comercial do país. Uma dádiva! Ajoelho-me perante a sacro figura da religião consumista! O apartamento em si é adorável: limpo, agradável… com ligação à Internet ao meu inteiro dispôr… e como sentia falta disso!

Instalado que estou e apresentado à sala que vai ser o meu quarto, tornamos a sair para mais umas voltas. Percorremos juntos os parques que se estendem pela margem este do Danúbio. Aqui está algo que não tinha ainda visto na cidade, estes parques vastos, semi-selvagens, onde as pessoas usufruem do espaço de todas as formas possíveis. Reentramos na grande cidade pela ponte velha, e visitamos a igreja azul, um notável edíficio, literamente azul, com uma arquitectura característica. E, por mim, depois de um longo dia, regressamos. Ele ainda vai sair, mas eu fico a gozar do acesso à Internet, perfeitamente deliciado.  

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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