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Cáucaso, Berlim – Riga – Tibilissi, 18 de Maio de 2010

 

Com as indicações precisas do Caspar, sair de casa dele ainda de noite e chegar ao aeroporto foi mais simples do que esperaria. Sucesso. Nesta fase da viagem, como já tinha sucedido na deslocação de Praga para Berlim, estou sozinho. A Air Baltic opera a ligação entre Berlim e Riga duas vezes por dia. Eu, quando marquei o meu vôo, optei pela viagem matutina, que me deixa tempo para explorar Riga durante todo o dia, e assumi que o Clabbe teria feito o mesmo. Ele, escolheu o horário da tarde, que liga de forma quase perfeita com o vôo que nos levará a Tibilissi, e assumiu que eu iria também nesse avião.

Para evitar preocupar-me com processos de câmbio, tinha pedido à minha amiga Maija, letã vivendo em Praga, para me trocar uns quantos lats por umas coroas checas. Assim, levava no bolso uma quantia à justa para me aguentar ao longo do dia, comer qualquer coisa, comprar os dois bilhetes de autocarro e pouco mais.

 

 

Apeei-me numa paragem central, e comecei a vaguear. Cheguei ao mercado. Entrei e perdi-me, no mar de cor, embalado pelos sons de uma nova língua, tão diferente das que tinha ouvido até então, apesar de aqui e acolá o russo ser ainda utilizado. Num lote adjacente aos terrenos da feira, um enorme edíficio de influência tipicamente soviética ergue-se, imponente, visível de onde quer que se esteja. No topo do mastro mais alto falta a característica estrela comunista, que certamente adornaria o prédio há um par de décadas atrás.

 


 

Quanto a fotografia, a passeata pela feira foi azedada pela ameaça directa e clara de uma idosa vendedora, que em algazarra se acercou de punho fechado, fazendo passar a mensagem pela boa mímica: “se fotografas o pessoal aqui ou as suas mercadorias, dou-te uma pêra…. se queres fotografar porta-te como bom turista e vai fotografar aquele prédio tão lindo”.  E como não sentia a menor das inclinações para fazer inimizades logo à chegada a este novo país, acatei, mas ficou pouca vontade para continuar a explorar o mercado.

 

Caminhei sem destino por ruas ao acaso. O parque imobiliário é incrivelmente decrépito, a uma distância supreendentemente reduzida do centro. Devem existir bairros em piores condições, mas mesmo ali, depois de andar uns minutos, as fachadas apresentam-se em má condição, com alguns elementos à beira da derrocada. Já quando o visitante regressar ao restrito centro, tudo muda, e entra-se num mundo de fadas, onde cada fachada é vista imaculadamente pintada, e todos os detalhes dos edíficios são mantidos em impecável condição. As ruas transportam-nos a outras épocas, a um esplendor renascentista que já foi, num mundo que de tão artificial perde o atractivo. Pelo menos para mim. É maquilhagem a mais, e o resultado não é Riga, mas sim um parque de diversões montado no mundo real.

 


 

Comprada a bandeirinha da Letónia para a coleccão que mantenho, afastei-me do centro, passando pelo grande monumento que comemora a liberdade do país. A zona em que entro encontra-se num meio-termo, sem a falsidade da baixa, mas, mesmo assim, sem a decadência que se vê ali ao lado. É a área de serviços, onde se encontram os escritórios, os bancos, o comércio moderno. E muita gente. A multidão enche as ruas de Riga de uma forma que me impressiona. É um banho de gente, na qual se destacam as mulheres, muito belas, muito bem arranjadas.

 

 

Com isto, a tarde já ia avançada. Ainda tinha um par de horas antes de regressar ao aeroporto, onde iria encontrar o Clabbe, e, já cansado do bulício do centro, fui andando para uma das ilhas do rio. Apanharia o autocarro mais à frente. Gostei bastante daquele bocadinho, de ver a cidade ao longe, de dar uma vista de olhos a uma urbanização claramente destinada às gentes mais endinheiradas, tão bem localizada, ao mesmo tempo central e sossegada. Apesar do dia agora agradável, depois de umas gotas de água que se desprenderam do céu cinzento há algum tempo atrás, não se via muita gente por ali. Um casal de namorados. Uma rapariga que esperava por alguém. Fiz questão de caminhar até ao fim da ilha, marcando na memória uma esplanada agradável, quase vazia, por que passei.  Lá na ponta, um casal, já idoso, conversava, sabe-se lá sobre o quê, sentados lado a lado. Voltei para trás e sentei-me numa mesa. Havia sinal wi-fi, não deles, mas de algures, conforme me explicou a menina que me atendeu. Tinha os bolsos cheios de moedas. Retirei a quantia que precisava para o autocarro, e perguntei o que podia comprar com o resto. Não era muito. Uma pepsi e uma sopa. Que seja. Estava-se bem, e depois de tratar do expediente on-line, na mais profunda das descontrações, despedi-me e fui andando. Tinha ainda muito tempo e nem precisava, mas não resisti a correr para o autocarro que passou à minha frente, a abrandar para se deter na paragem, uns 100 metros adiante.

 


 

Encontrei o Clabbe instalado junto ao portão de embarque onde os passageiros do vôo Air Baltic para Tiblissi começavam a concentrar-se. A viagem decorreu sem precalços, mas ao sairmos para o exterior, já na capital da Geórgia, nem sinal do nosso anfitrião. Algum nervosismo, que durou até se fazer uma chamada telefónica. O Dan tinha trocado as datas, mas sem problemas… já ia a caminho para nos recolher. Ficariamos com ele durante uma semana inteira. Ao rolar pelas avenidas quase desertas de Tibilissi, aquela hora da noite – eram umas duas da manhã – foi procedendo às primeiras apresentações, dos locais, do país e do povo. O Dan é americano e trabalha para a embaixada. Não é o modelo de anfitrião que procuro, porque prefiro gentes locais, que respiram a cultura, de forma mais profunda do que qualquer interesse académico de um estrangeiro pode alcançar. A memória mais bizarra que ficou desses primeiros momentos na Geórgia foram os carros de polícia… tantos… se calhar, mais de metade das viaturas que vi. Andam para trás e para diante, e a toda a hora usam os altifalantes das viaturas para se dirigirem aos outros condutores… suponho que para os mandarem sair da frente, porque não os vi parar ninguém.

O apartamento do Dan é um pequeno palácio, nos últimos andares de um torre, com vistas soberbas para a cidade, que se adivinham mesmo de noite. Mostradas as instalações e depois de alguma conversa, fomos todos descansar.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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3 comentários

  1. Obrigado por este regresso a Riga. Vivi em Riiiiiiiiga (é assim que se diz, em letão) 8 meses em 2013 e acertou na mouche com as descrições da zona em volta do Central Tirgus (o mercado central) e do monumento oferecido por Estaline à Letónia (bem como a todas as cidades pertença da URSS) que é uma versão mais pequena do edifício em Varsóvia. Esse edifício é a Zinatnu Academy (Academia das Ciências).

    É claramente a pior zona de Riga, que quem por lá ande e não entre na verdadeira Riga pode ficar com uma ideia errada da cidade. Mas é aqui que estão quase todas as igrejas Ortodoxas.

    Quando cheguei a Riga vivi uns quilómetros para dentro desta zona, a típica área residencial soviética com prédios enegrecidos e ruas esburacadas mas que teve a sua piada pelo choque que foi (mas nunca tive qualquer problema de segurança). Depois tive a sorte de viver meio ano no centro de Riga, junto ao parque do hotel Raddisson (o maior edifício no centro Art Noveau).

    Riga merece uma visita de vários dias pois ao Jungen District (Districto Art Noveau do período Jungen) é onde está a Riga mais bela (onde as embaixadas estão e os cafés cools).

    Perto do Monumento da Liberdade (Brīvības piemineklis) a tal zona inundada por turistas e gentes locais era do que menos gostava (até optava por ruas adjacentes para não passar nesta zona moldada pelos pubs e discos, o que fugia ao tradicional letão)

    E descrição acertada da zona de ParDaugava (na tal ilha onde se localizam as residências endinheiradas junto ao Daugava). É talvez a zona mais interessante com as casas do início do Século XX de madeira bem conservadas, ruas calmíssimas e alguns dos melhores restaurantes da cidade. O ponto alto é um mercado (Kalnciema) todo hipster onde jovens locais vendem produtos de artesanato e de gastronomia como se em Berlim ou barcelona se estivesse.

    É por isso uma cidade de bons contrastes. Fiquei apaixonado!
    É sempre bom lá voltar, nem que seja em blogs 🙂

    Cumprimentos

    • Obrigado Miguel, pela longa mensagem que me deu bastante gosto de ler. Depois desta primeira passagem por Riga – e já lá vai tanto tempo, cinco anos e meio – fiz uma outra, igualmente fugaz, há um ano ou dois, de Tallinn para Vilnius.

  2. Obrigado Ricardo (só agora vi a notificação da sua resposta),

    É de facto uma cidade interessante, bem diferente deste sul europeu de Lisboa. Mas fiquei fascinado com tudo

    Eu ainda não voltei lá, talvez em 2016. Aproveitarei para ir a Helsinquia e Sao Petersburgo (tallinn é apaixonante) e Vilnius muito simpático com as igrejas todas

    Melhores cumprimentos
    MIguel Antunes

    E boas festas!

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