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Do Báltico ao Mar Negro, dia 17 – Kiev

16 de Maio

São 6:24 da manhã e estou a bordo de um comboio, ainda na estação de Lviv. Relaxo um pouco depois da marcha forçada de mais de 3 km a que fui obrigado, digamos, a meio da noite. O despertador foi preparado para tocar às 5:15. Não sei se sonhei ou se foi real, mas tenho a ideia de ter despertar às 5:11 e de pensar no potencial por revelar que se encontra encerrado na mente humana. Como é que isto sucede? Como é que em dias importantes dou comigo a acordar uns minutos apenas antes do despertador, com uma precisão desconcertante?

 No meio de tão profundas cogitações, decidi que ainda era boa altura de voltar a dormir. E nesses quatro minutos que faltavam para o despertar final enterrei-me no sono de tal forma que quando o beep-beep disparou, senti-me tão surpreendido como se tivesse ferrado desde que me deitei.

Dez minutos para me pôr na rua. Enfiar as calças. Enrolar o saco-cama. Desligar o computador. Embalar as últimas coisas.  O Oleg já está acordado. O que é uma forma de expressão algo optimista. Balbucia algumas frases em inglês sem sentido, de entre as quais capto a mais significativa: está a chover! Mas que porra esta! Depois de mais uma semana sem sentir uma gota de chuva, tinha mesmo que acontecer quando me apresto a ter que estar na rua durante mais de meia-hora? Ouço o tamborilar da água lá fora. Não é um pesadelo. Estou mesmo a lavar os dentes ao som da chuva.

Despeço-me brevemente do pobre Oleg que continua a dormir em pé, já preparado para a chuva, saco de plástico envolvendo o saco-cama que viaja no topo da mochila, impermeável colocado. Vou imaginando as botas húmidas durante os primeiros dias de Kiev. Não sei bem como vai estar lá fora.

A esta hora o dia começa a raiar. Felizmente a chuva é ligeira e não há grandes poças. Talvez consiga manter os pés secos. Seria excelente. Inicio a marcha. Passo certo, pelas ruas desertas. Nesta fase há mais noite do que dia, a escuridão predomina. Mas clareia rapidamente. Acabo por percorrer os mais de 3 km em trinta minutos apenas. A determinado ponto a chuva pára de todo. Atrás de mim, a Levante, uma bola de fogo ergue-se no horizonte, a sua luz misturando-se em tons fantasmagóricos com as muitas núvens que ainda dominam o céu. Penso como gostaria de ter tempo para fotografar o ambiente incrível das ruas de Lviv nestes últimos instantes da madrugada. As calçadas desertas, a luz parda, o ambiente místico que a chuva ligeira traz à cidade.

Já a chegar à estação reparo num velho militar, camuflado sobre a tradicional blusa riscada de azul e branco, características dos fuzileiros navais soviéticos (e nos países influenciados pela cultura castrense russa). Caminha sem boina, com passo certo e rápido, em grande forma. Interrogo-me se sentirá alguma nostalgia pela época em que aquele uniforme representava a a defesa do proletariado contra o capitalismo ocidental e demónios associados, e pareceu-me ler no seu discreto sorriso interior que sim, que ainda vivia sonhando com os tempos gloriosos de uma juventude que lhe vai escapando.

A estação de Lviv é tão agradável como um terminal ferroviário de uma cidade pode ser. Não tive quaisquer problemas em encontrar o meu comboio. A cultura de caminhos-de-ferro é aqui tão distante… cada carruagem tem uma funcionária, que se alinha à entrada, verificando os bilhetes e dando as informações necessárias. Todas elas, pendendo como fantasmas dos seus casulos sobre rodas, são matronas em idade e estilo, envergando a farda de influência soviética herdada de outros tempos. Bivaque largo na cabeça, simbologia antiquada na lapela.

Sento-me no lugar atribuido, com o espaço adjacente já ocupado por um jovem de aspecto exótico e instruido. A carruagem vai enchendo e quando saimos todas as cadeiras que avisto estão ocupadas.

A viagem decorre agradável e, entre escrita a leitura, as seis horas passam num instante. E então, chego ao Inferno.

Kiev desagradou-me desde o primeiro instante. O enxame de taxistas gananciosos é enorme e persistente. Já na rua, olho em redor, atónito com a fealdade do local. Toda a escumalha do Universo parece ter vindo aqui parar. Se os velhos Lada davam um toque romântico a Lviv, aqui os carros a cair aos bocados acentuam a atmosfera degradante que se estende a perder de vista. Alcóolicos e toxicodependentes, gente suspeita de toda a gama de baixas prácticas encontra-se por ali, e enquanto me afasto da escadaria da estação a situação não melhora especialmente.

Está vento. O calor húmido aperta e há ameaça de chuva. O ar está replento de dentes-de-leão, que me irritam ainda mais, colando-se-me à pele suada. O trânsito é intenso, caótico, barulhento. Vem-me à ideia a cidade da Guerra das Estrelas onde rufias e bandidos de todo o Universo se encontram, vivendo numa comunidade sem lei aparente. É assim que vejo Kiev. Cheia de “wannabe” e crápulas provenientes de toda a Ucrânia. Não sei como vou sobreviver aos cinco dias planeados na capital do país. Tenho que sair dali para fora antes disso!

Chego ao hostel, que, claro, me desagrada. A frustração é crescente. Estou num daqueles meus momentos característicos: quando tudo corre mal, tenho que parar para respirar, numa pausa antes de abordar o problema e a sua resolução. Mas é complicado, porque no quarto do hostel a empregada ucraniana aspira o chão enquanto o pessoal brasileiro recolhe as roupas de cama usadas.

O que fazer? Para onde ir. Podendo, deixava já Kiev para trás, mas não tenho opções. A minha aura é tão negativas que escrevo ao meu anfitrião local, que me deveria receber no dia seguinte, a desmarcar a visita. Considero ficar no hostel nos próximos dias, a ler, sem fazer nada, esperando pelo passar do tempo.

Recupero um pouco o ânimo e saio para a rua. Vou caminhando para o centro, esperando esbater a má impressão inicial, mas isso não acontece. A envolvência continua desagradável e começa a chover. Uma chuva miudinha, que se intensifica por vezes, levando-me a procurar abrigo num qualquer telheiro.



Uma das ruas mais bonitas de Kiev está em obras. Largas centenas de homens trabalham ali, mas a área não é isolada. Caminho quase um quilómetro por entre os trabalhos, passando ao largo de uma bonita igreja, vedada devido às actividades daqueles trabalhadores. Já estou na baixa, na parte mais antiga de Kiev, mas nada melhora. Dou com o Museu de Chernobyl e entro. Pago 3 Eur. É uma pequena exposição, em três ou quatro salas, com parcas legendas em inglês, mas a visita é positiva. O ambiente está bem criado, dramático. O bilhete, mais caro, dá-me direito a fotografar e consigo algumas boas imagens. Não se encontra ninguém lá dentro para além de uma rapariga asiática que observa a exposição com interesse. Acabamos a visita ao mesmo tempo e quando saimos descobrimos que a chuva se intensificara. Impossível sair dali. Trocamos algumas palavras, conversa de cortesia, enquanto esperamos que acabe o dilúvio. Quero tirar algumas fotos aos veículos que se encontram no exterior, viaturas utilizadas nos trabalhos de salvamento de Chernobyl.

Caminho ao longo do rio. Com a chuva o tráfego torna-se ainda mais agressivo. Observo uma pequena igreja erigida numa ilhota, ligada à terra por uma precária ponte. Mais à frente um monumento socialista, defronte de um enorme McDonalds. Apanho o ascensor que custa 0,25 Eur, ignorando a irritação da funcionária com a minha confusão com o dinheiro ucraniano. Tentei pagar-lhe a quantia com duas notas equivalentes a 4 Eur.


Lá em cima tenho que fazer um compasso de espera por causa da chuva. Quando esta abranda parto à  descoberta e encontro um bonito mosteiro onde os estudantes passam, com as suas batinas negras, com destino certo, seja ele qual for.

Está na horas de me dirigir ao hotel. O dia está escuro, pouco convidativo a andanças, e ainda estou a 3 km do abrigo para a noite. Atravesso uma ampla praça com uma estátua no centro. Estou num bairro todo finório. Aqui as pessoas, os carros e os prédios são diferentes. Tudo bem arranjado, cheirando a dinheiro. Pelo caminho encontro um supermercado Bila. Abasteco-me.

Passo o breve serão a comer e a beber, metido na cama, fazendo aquelas coisas que sempre se fazem nestas ocasiões: e-mail, Facebook, processar fotografias, procurar informações. Chegam alguns colegas de quarto. Um russo e um ucraniano simpáticos mas com mau inglês. Um deles é de Kharkov, uma cidade que estava vagamente nos meus planos mas que depois deste primeiro dia em Kiev é uma série possibilidade já para amanhã. Recolho uma série de informações sobre os comboios, e pouco depois eles partem. E eu, cansado de um longo dia que se iniciou às 4 da manhã, adormeço.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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