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Do Báltico ao Mar Negro, dia 19 – Kiev

18 de Maio

Este foi um dia de viragem, marcou o início da melhoria da minha relação com Kiev, que já na véspera se fazia adivinhar. Pela manhã deixei-me estar no hostel, tentando resolver algumas questões pendentes, sendo que a mais importante seria a continuidade da estadia ali, ou a passagem para a casa do meu prometido anfitrião. Já passava um pouco do meio-dia quando tudo ficou definido. Ia mudar de pouso. Encontro às 22 horas na estação de metro em frente ao estádio maior de Kiev, que irá albergar a final do Euro 2012. A gerente do hostel, a simpática brasileira Dori, de Curitiba, guardou-me a mochila, poupando-me um enorme incómodo. Passarei amanhã pelo hostel a recolhê-la.

Portanto, estava na rua, apontando para o parque Maryyinsky, sobranceiro ao rio e recheado de pontos de interesse. Passei pelo mosteiro onde na véspera me abriguei da chuva, e, eventualmente, abordei o parque, dando de caras com um museu infantil, cercado de belas esculturas alusivas a uma série de contos para crianças. Não muito longe encontra-se o museu da água, bem no coração do parque. De tempos a tempos encontro um ponto de observação, sempre com belas vistas sobre a cidade, lá em baixo.

Dirigo-me a monumento socialista construido para comemorar a “reunificação” da Rússia e da Ucrânia, que me supreendeu pela sua magnificiência. A ponte estilizada, o semi-circulo que podia passar por um arco-iris sem côr, é enorme, e está bem acompanhado por dois grupos distintos de esculturas: o primeiro, mais imponente, é todo ele comunista. O segundo, que suspeito ser posterior, e nada relacionado com a União Soviética, é feito de outro material, e suspeito vagamente ser algo muito nacional, talvez alusivo a figuras proeminentes da história da Ucrânia.

No mesmo recinto encontra-se um anfiteatro e algumas diversões e barraquinhas de comes e bebes. Há muita vida, muita gente por ali, descontraindo, apreciando o local. Um grupo de brasileiros passa por mim. Um velhote observa com expressão nostálgica a cidade distante.

De volta ao parque, passo a ponte dos amantes, uma arrepiante estrutura que passa sobre uma movimentada estrada, bem do alto dos seus 40 metros, com o pavimento feito de ripas de madeira. De um lado e de outro os cadeados que simbolizam a relação entre namorados, um costume habitual na Europa Central e de Leste. À minha frente um casal já na casa dos sessenta procura ansiosamente aquilo que creio ser o seu cadeado, colocado sabe-se lá há quanto tempo. Na outra extremidade vejo um par de namorados que se apresta para deixar o símbolo da sua união, tando os últimos retoques na sua criação antes de a fixarem na estrutura para a posteridade.


Também ali perto encontra-se o antigo estádio do Dinamo de Kiev, quase perdido entre as altas árvores. Ainda tenho muito tempo para matar, e depois de percorrer calmamente o parque, dirigo-me para o centro. Caminho sem pressas pela avenida principal de Kiev, apreciando o ambiente envolvente. Chego à grande praça que sempre fervilha de vida. Num enorme palco os animadores pôem uma multidão a dançar, sem razão aparente. Será assim todas as noites? É por ser fim-de-semana? A mancha formada por um enorme grupo de militares destaca-se. Saltam e levantam os braços sob a direcção do animador. No topo oposto existe um McDonals e planeio jantar lá enquanto passo algum tempo online. Quem diria que na Ucrânia vsitaria tantas vezes um local que habitualmente tanto desprezo. Mas que posso dizer… barato, saboroso e com Internet.

Terminada a refeição, já se faz escuro. Não tenho muito mais tempo para queimar, mas decido procurar o restaurante onde estive ontem com a minha amiga. Gostei do local, e quero relaxar com uma cerveja numa mão e o Kindle na outra. Encontro-o, mas como é Sexta-feira está transfigurado, cheio a abarrotar. Quando vou a descer as escadas cruzo-me com o empregado que nos atendeu ontem e que logo me reconheceu, cumprimentando-me afavelmente enquanto anunciava com as descorçoado que não havia nenhuma mesa livre lá em baixo. Mas mandou-me esperar, deu uma vista de olhos no piso térreo e mandou-me avançar. Que embarassante! Mandam-me sentar numa mesa enorme que estava reservada! Parece que sou um convidado de honra, mas há um problema… já jantei, mas, claro, está fora de questão abancar-me ali e pedir apenas uma bebida. Tenho que jantar de novo! Encomendo algo muito ligeiro, perante a expressão recriminadora da empregada daquele sector… mas ela saba que mesmo assim já estou a fazer um sacríficio.

Terminado o jantar forçado caminho até ao ponto de encontro. Ainda tenho tempo em excesso pela frente, e sento-me um bocado a ouvir uma bande de rua que actua, com um sistema de som potentissimo que faz reunir uma pequena multidão. Mais à frente um grupo diverte-se com danças de fogo.

Chego à estação de metro combinada um pouco adiantado e, após esperar alguns minutos, chega o Miroslava com a mulher. Caminhamos para o seu apartamento e… escapo por pouco a um terceiro jantar, mas não sem me forçar a petiscar qualquer coisa, perante a chuva de comida que vem para a mesa e o incitamento persistente.

Dois dedos de conversa e vamos dormir. Os meus anfitriões são pessoas muito ocupadas, daquelas que chegam dia após dia exaustas a casa, já de noite.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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