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Do Báltico ao Mar Negro, dia 33 – Tirgu Mures

1 de Junho

[peço desculpa à audiência mas este foi um dia sem fotografias]

O despertador foi afinado para tocar a uma hora indecente. Às seis da manhã levanto-me. O resto do povo dorme, e mexo-me em silêncio, vestindo-me apressadamente, enrolando o saco-cama, acabando de fechar a mochila. Lá fora o dia acorda, céu azul pálido, pessoas que cruzam já as ruas, prontas para mais uma jornada de trabalho. Resta-me caminhar para a estação de autocarros, o tempo disponível está mais ou menos à conta, incluindo uma pequena margem de conforto.

Pouco depois de sair de casa, junto ao canal que diz ser um rio, um cão vadio ladra-me, sem se levantar, para marcar a rotina. Tenho um pequeno sobressalto, porque vejo mais animais em redor e sei que se as coisas descambam posso ter problemas. Mas aquele ladrar isolado descansa-me. Falsa ilusão. Dou mais quatro ou cinco passos e uma besta de quatro patas corre para mim ladrando e a um só tempo morde-me na perna. Felizmente os buracos foram só nas calças e mesmo com a pele dorida não há perfuração. Há dois cães de volta de mim, um mais agressivo do que o outro, tentando cercar-me, como lhes ordenam os instintos, mas ao mesmo tempo contradizendo-se porque o que na realidade querem não é devorar-me, objectivo para o qual os seus instintos lhes comandam a manobra, mas sim ver-me fora dali. Portanto há que recuar, mão à frente, na sua direcção, como se fosse um pau que lhes marca o limite, andar sem lhes dar as costas, e passado uns metros de tensão, abandonam o ataque.

O autocarro está onde seria esperado, embarco e tomo um lugar. E à hora devida inicia-se a longa viagem para Targu Mures. Apesar de ser um transporte de longa-distância, a esmagadora maioria dos passageiros usa-o para pequenas deslocações. Durante todo o caminho entram e saem, saem e entram. Pessoas que vão da aldeia à pequena cidade, do lugarejo para a aldeia. Vão visitar familia, comprar algo. Ou à igreja.

O trajecto é pictoresco. Não só a bonita paisagem de montanha que em determinada parte do percurso domina a envolvência, mas sobretudo os instântaneos da vida rural. Aglomerados de casas cheias de cor e tão diferentes do que me é usual. E os camponeses que trabalham as terras, o gado, as capelas de comunidade. Em suma, uma viagem que aconselho ser feita, e de olhos bem abertos. A frustração: os vidros da viatura são esverdeados e estão sujos. Fotografia está fora de questão.

Aproximo-me de Targu Mures. Troquei uns SMS com o meu próximo anfitrião. Tenho a morada e indicações para sair junto ao hospital. Mas para quê pedir ao condutor algo se dou comigo a 20 metros da casa (maravilhas do GPS) e com o furgão a parar para mais pessoas sairem… não podia ter corrido melhor. Quase como um táxi privado.

Logo estou em casa, a ser acolhido pelo Levente, um veterano do projecto Couchsurfing, que tem uma abordagem como eu gosto: formalidade de lado, o trato é de quem revê um velho conhecido. De momento há um americano que está a ficar por lá, também, há uns meses e durante uns meses mais. Eles saem para jogar futebol, e eu fico a descansar. O céu torna-se pesado, começa a chover. Em menos de nada os meus novos amigos estão de volta. Com isto estamos no meio da tarde, e depois de um par de horas de galhofa e descontração saimos para as festas da cidade que têm lugar nestes dias, lá em cima na cidadela.

O percurso para a festança sofre um desvio. Eles querem-me proporcionar uma pequena visita guiada pelo centro da cidade. Ouço as explicações atentamente. Sobre a dicotomia romeno-hungara de Targu Mures, sobre as casas onde viveu gente famosa, como os pais da moderna geometria descritiva.

Lá em cima há feira, e comida e bebida, e música ao vivo, com muitas bandas. Começamos com um bom “bagaço” para abrir o apetite e depois sentamo-nos com carne e cerveja à frente. Vão chegando mais amigos do Levente. Estou cansado mas o ambiente é excelente. Acabamos o serão a asssistir à actuação de um par de bandas, mesmo em frente ao palco, copo na mão. Targu Mures será isto mesmo no tempo que aqui vou passar: um daqueles locais em que  a visita vale muito mais pela vivência e pelas pessoas que cruzam a minha vida… muito pouco pela cidade em si.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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