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Do Báltico ao Mar Negro, dia 9 – Varsóvia

8 de Maio

Acordo cedo para o meu primeiro dia de Varsóvia. O Darek tem um trabalho de topo, e o seu horário é muito flexível. Quando saio para a rua por volta das dez horas ele ainda está em casa. Apesar de ter feito uma recolha de locais a visitar durante a longa viagem de comboio desde Kaunas, ele tratou de acrescentar mais uma mão cheia de recomendações, algumas das quais inúteis, porque, por assim dizer, tratam-se de coisas que não fazem o meu género.

O objectivo prioritário para hoje é chegar ao cemitério antigo, o de Powazki. Pelo caminho verei o que se me atravessar pela frente, sem procurar especialmente nada. Os 4 ou 5 km até ao cemitério amolgam-me o moral. Sinto uma forte incompatibilidade com a cidade, não gosto da atmosfera. Mais tarde, verei coisas que me agradam, mas nada mudará o tom negativo que envolveu esta visita. Afinal, um dia tinha que acontecer: depois de anos a entusiasmar-me com locais que a generalidade dos viajantes enterra em críticas, encontrei por fim a cidade em que não me importo absolutamente nada de subscrever a corrente comum de opinião, que não é nada positiva. Claro que há uns quantos que amam Varsóvia, encontram-lhe encantos que, apesar de me passarem ao lado, consigo admitir que possam existir.

Se me pedirem para definir as origens deste desagrado, tenho que pensar um bom bocado antes de apresentar a resposta: é uma modernidade que não o é, com vastas áreas reconstruidas após a devastação causada pela Segunda Guerra Mundial, de uma forma cinzentona, sob a batuta dos mestres da arquitectura socialista, que, como todos sabemos, não primavam pela imaginação e nem especialmente pelo sentido de estética tal como o entendemos de forma mais ou menos comum. Falta fantasia a esta cidade, e onde a influência soviética a permitiu, no centro histórico, sabemos que não passa de uma encenação, porque daquela parte nada restou depois dos bombardeamentos alemães. O que hoje o turista vê, muitos deles ignorando-o, é uma reconstituição histórica, levada a cabo com um rigor e competência notável, baseada em fotografias e planos que sobreviveram ao grande conflicto de 1939-1945. De resto, o mesmo que sucede em cidades alemãs, como Dresden, arrasada de forma ainda mais assassina pelos bombardeiros americanos e ingleses.


O povo também não se conjuga comigo. Mexe-me com os nervos a pieguice pelo que já passou e deve ser enterrado mas não o é. Por todo o lado, a cada esquina, há memoriais dedicados aos “heróis” da Guerra, aos Judeus exterminados, a isto e acoloutro, a este e áquele. É demais. Traz-me a memória do exagero da obsessão búlgara pelo passado domínio otomano. É como aquelas pessoas que não ultrapassam nunca a morte de um ente querido, que abdicam de uma vida que ainda o pode ser para criar um altar estéril ao que se foi. O passado foi, o presente é agora, e o futuro será melhor se se ultrapassarem estes fantasmas, transformados em feitos heróicos a enaltecer de forma omnipresente.


Depois, sinto uma certa amargura, de povo falhado, que, ao contrário do que sucede noutros cantos do mundo, se transforma em agressividade não só como resposta às agruras sócio-económicas, mas como revolta contra um passado humilhante. Talvez daqui provenha uma hostilidade para com o estrangeiro, que já vi, bem de perto, entre os checos, mas que aqui surge de forma mais perturbante, talvez porque faltem aos polacos os predicados positivos que nos checos ajuda a diluir esta atitude negativa. Sinto o povo polaco como uma massa amorfa, colectivamente amargurada. Falta-lhes uma alegria de viver que existe noutros povos vizinhos. Depois, surge a violência, o hooliganismo, o futebol transformado em cultura de confrontação, a agressão gratuita. Nunca em país algum vi a quantidade de jovens feitos rufiões, como na Polónia. Se bem que acredito que tivesse eu já visitado a Rússia, não poderia dizer o mesmo.

Mas voltemos às deambulações deste dia. Descobri sinagogas e igrejas, edíficios refinados, mas sobretudo avenidas largas e blocos cinzentos, construidos após a guerra. Encontrei um mercado onde a pobreza se revela, cruel, com aqueles idosos que ali ficam um dia inteiro na esperança de venderem um pouco do seu parco produto e ganharem uns cêntimos. Velhotas que se mantêm de pé com umas quantas peças de roupinha, que seria sua, de outros tempos, à venda. Outras, sentadas no muro, apresentam uns quantos alhos, umas cebolas, e aquilo é tudo o que possuem para negociar.


Encontro, quase por acaso, a prisão de Pawiak, símbolo da repressão, primeiro czarista, depois nazi, cujos restos foram recuperados como museu, que hoje se encontra inexplicavelmente encerrado. Mais à frente,  mais um monumento, desta feita colocado no local onde durante a guerra os judeus eram carregados em vagões para serem transportados para o campo da morte de Treblinka, localizado a cerca de 30 km da capital polaca, também ele dinamitado pelos alemães em retirada, e do qual hoje nada resta excepto mais memoriais e monumentos.

Chego por fim ao cemitério. Não me encanta especialmente, mas creio que com o estado de espírito que  já trago, seria impossível ser conquistado. Percorro alguns dos caminhos entre campas, mas nem a fotografia me sai. Acabo por me aborrecer e saio pelo portão dos fundos. O Darek falou-me de um outro cemitério, mesmo ao lado, tártaro. Descubro-o, mas é muito pequeno, e as campas são desinteressantes. Fica a nota de absurdo… um cemitério muçulmano no coração de Varsóvia, e com uma comunidade viva, que se perpetua deste tempos ancestrais. Naquele dia havia uma reunião, e várias famílias de tártaros estavam por ali.

Já no caminho de regresso começo a ver coisas que me cativam um pouco mais. Excelentes murais junto a um pequeno estádio, e logo à frente um memorial bem conseguido, em honra aos que pereceram depois de serem transportados para Leste.

Depois, sem o esperar, entro na cidade antiga. As ruas são ladeadas de edíficios a fazerem lembrar os da Praga mágica, para turistas. Mas enquanto os checos são originais e ali estão há séculos, estes, como se disse, são meras reconstituições. Mesmo assim resultam numa mão cheia de boas fotografias. Não levo plano nem sei onde fica o quê, e quase que falho a passagem pela praça principal, apejada de esplanadas onde uma pequena multidão de turistas “mainstream” se senta. Ando para cima e para baixo, por vezes em círculos, e não faço ideia quantos recantos charmosos me escaparam. Chega a altura em que dou por mim a passar por pontos onde já tinha estado, e quando esses casos se multiplicam concluo que está na altura de colocar um ponto final nesta fase da minha aventura de Varsóvia. Olho para o relógio. Ainda falta um bom bocado para a hora combinada para me reencontrar com o Darek e a fome aperta. Já sabendo que a cozinha local é para esquecer, nada melhor que a fórmula neutra da pizza. Entro num Pizza Hut e delicio-me. De novo a refeição custa-me caro. Mais 10 Euros. Não consigo concluir se valeu a pena. Mas que me soube bem, lá isso soube. Nem me consigo recordar da última refeição quente e substancial que tive desde que sai de Portugal. Talvez tenha sido a primeira.

Regresso a casa passando pela principal artéria túristica, e por ali anda muita gente. Estrangeiros e polacos. Passo ao lado do palácio presidencial, e acabo por chegar ao destino. Segue-se um certo tempo de recuperação. Já levo 25 km nas pernas e preciso mesmo de relaxar. O que com o Darek por perto não é simples. Já está a falar de sairmos para uma volta nocturna.


O meu novo amigo mostra-me coisas de Varsóvia com discurso entendedor. Assume-se como um interessado pelas coisas desta cidade, e isso percebe-se. Conta-me histórias do antigamente, apresenta-me edíficios com um “antes e depois” do comunismo. Leva-me a cantos obscuros que já viram momentos de glória mas que agora pouco mais são do que farrapos. Fica-me na memória aquela galeria na penumbra, onde nos últimos anos de comunismo a juventude se reunia, dando vida à mais de uma dúzia de cafés e bares, dos quais actualmente apenas um abre as portas, practicamente vazio. Fala-me da cultura dos “bares de leite”, uma instituição nos tempos socialistas, onde as pessoas tinham acesso a refeições económicas, e dos quais alguns sobrevivem, com algumas remodelações mas com o mesmo espírito. No serão fazemos mais quase 10 km. Extenuante mas interessante. O Darek, percebe-se, é um “bon vivant” que gosta de sítios com um certo estilo. O oposto de mim. Apesar de haver uma boa ligação entre nós, a escolha de  locais é algo que não posso deixar nas suas mãos. Depois de me sugerir uma cerveja numa zona que simplesmente detesto, cheio de uma multidão de juventude muito “cool”, acaba por acertar em cheio. Entramos num bar que parece parado no passado. Duas senhoras de ar proletário vão servindo os poucos clientes. A decoração é rudimentar. É assim que gosto das coisas. Um cheirinho do passado com aroma genuíno; não é propriamente o tipo de estabelecimento que vamos encontrar num Lonely Planet, nem é terreno onde um turista vá acabar a noite. Bebo uma cerveja classificada pelo meu amigo de “extremely shitty”, mas que me cai que é uma maravilha.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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