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Dresden, Alemanha. 11 a 13 de Fevereiro de 2008.

Ter residência estabelecida na Europa Central tem destas coisas: as portas duma mão cheia de países encontram-se abertas. É só escolher e cair inebriado com a variedade, contrastante com toda uma vida encravado em Portugal, onde visitar o estrangeiro é praticamente sinónimo de voar. Para quem está em Praga, passar uns dias em Viena, Budapeste ou Berlim tem a mesma naturalidade com que o algarvio apanha o comboio para ir passar o fim-de-semana a Lisboa. E hoje é a véspera do meu primeiro aproveitamento efectivo da centralidade geográfica. A cidade de Dresden foi a escolhida, por uma série de factores: a proximidade física, a facilidade de alojamento, a beleza natural e o estatuto de mártir da II Guerra Mundial.

A preparação foi escassa e mal cuidada. Umas quantas horas ao computador no serão da véspera e nada mais. O comboio é um meio de transporte caro nesta parte da Europa. São uns meros 180 Km que separam Praga da capital da Baixa Saxónia, mas mesmo assim o bilhete custa-nos 40 Eur (ida e volta). Até ao final de 2007 ainda havia um bizarro desconto para grupos: mais de duas pessoas recebiam uma benesse significativa. Agora, desconto de grupo, só mesmo para grupos… seis pessoas ou mais. A viagem foi dos melhores momentos de toda a expedição: com um compartimento quase por nossa conta, pudemos arregalar livremente os olhos com campos, serranias, aldeias, castelos e fortalezas, cerros, pontes, gentes e mosteiros. E notar a tão evidente diferença entre a República Checa e a Alemanha, mesmo que a sua parte Oriental, tão mais pobre que os parentes ricos de ocidente.

A chegada à cidade. Paramos numa primeira estação, a central. Mas temos instruções do nosso anfitrião para sair em Neustadt. Está instalada a angústia. Será que dali a composição só se deterá em Berlim? Não vimos ninguém a quem perguntar. Um alemão deixa o comboio. Como bom alemão, ou não sabe ou finge que não sabe inglês. Felizmente que se vai estar ali parado uns bons 10 minutos. Acabo por descobrir um jovem casal de namorados que se despede num beijo sem fim. Aguardo alguns momentos. Os segundos passam. Não aguento mais e interrompo mesmo o que se anuncia como um mergulho na eternidade. Sorrimos todos. Eles, embaraçados, e eu, feliz: sim, o comboio pára ainda em Neustadt antes de ganhar balanço até às portas de Bradenburgo.

Portanto, saímos no local adequado, apanhamos o eléctrico devido e encontramos a casa certa em menos de nada. Tudo tal como tinha sido descrito pelo anfitrião. Apresentações feitas, bagagens e tarecos a um canto e vamo-nos à cidade, aproveitar o que resta do dia, que o tempo não será muito.

Um cinzento desagradável domina a cidade. Afinal, estamos em Fevereiro, e aquilo é a Saxónia. O frio aqui é diferente: entranha-se, tal como em Portugal. Está por todo o lado, é uma tormenta. Passaremos os próximos três dias a tentar esquecê-lo.

Visitamos o centro histórico de Dresden. Os seus monumentos são impressionantes, mesmo tendo em conta que tudo o que vimos terá sido quase totalmente reconstruído depois da destruição que americanos e ingleses trouxeram até este local. As imagens valerão as mil palavras deixadas de fora. Depois, regressamos. A nossa anfitriã, que na realidade ainda não tínhamos conhecido, espera-nos. Hoje jantaremos juntos, num serão agradável, pela noite dentro, acariciados pelo calor natural de uma pequena caldeira a lenha.

 


O dia seguinte acorda ainda mais tristonho. Está um frio que penetra nos mais recônditos cantos, enregela uma pessoa até aos ossos. Não há sinal do sol. Um manto tristonho de nuvens homogéneas abateu-se sobre a região. Saimos por ali a pé. Exploramos um pouco da extensa floresta que abraça o bairro onde nos encontramos. Ali, os tons dourados do Outono ainda se encontram presentes, apesar do Inverno ir longo. A natureza é extremamente bela. Um riacho cruza um manto de folhas avermelhadas que ainda não entraram em decomposição. Após esta expedição bem sucedida, caminhamos para a margem do rio. Ali vamos encontrar monumentais moradias, testemunhas de outros tempos, habitadas por fantasmas movidos pela memória distante de quem ouviu falar num estilo de vida que já morreu há muito. Alguns desses espaços estão aproveitados, foram renovados e albergam algo de útil: exposições, restaurantes, departamentos de estudos. A vista sobre o Elba é magnífica. Uma enorme planície estende-se de um e de outro lado do rio. Certamente submersa à menor das cheias, esta “lezíria” é nua, pontilhada aqui e ali por uma árvore excepcional. Por fim decidimos apanhar o eléctrico e descer à cidade. Já não é cedo, e não nos demoramos. Há um certo desencanto. Sentimos que daquilo que temos ao nosso alcance, como turistas efémeros numa terra sem guia, já tudo foi visto, e ainda só passou um dia e meio. Juizo injusto concerteza, mas com a contribuição negativa dos dias cinzentões sentimos que estamos falados, nós e Dresden.

 

Entretanto uma gripe alemã começa a fazer das suas. O cansaço, a fraqueza, a inércia tomam conta do corpo. Ao serão encontramos o nosso simpático Marcus para um jantar conjunto. Estamos naquela que será a zona mais cosmopolita da cidade, mas poucas almas por ali andam. Alguns dos estabelecimentos estão encerrados, outros, vazios. Apenas uns poucos apresentam uma audiência aceitável. Encontramos o nosso amigo no local combinado. Tomamos em conjunto uma agradável refeição num restaurante vietnamita. Excelente companhia, grande conversa. Já pagámos e caminhamos para casa quando nos lembramos de tomar um gelado. Coisa irónica com o tempo que se tem feito sentir e com a gripe que se instala. Mas lá vamos. O local, recomendado pelo Marcus pela qualidade dos seus gelados, está completamente vazio. Uma simpática colaboradora atende-nos. A excepção que reina sobre o tom desagradável dos alemães de Dresden. Um sorriso bonito para trazer na memória, e ainda por cima um sorriso que se exprime em inglês desenvolto. O sentimento deve ser mútuo, porque quando perguntamos se estamos a ser inconvenientes e se ela quer fechar a loja, responde-nos que não, para estarmos completamente à vontade; mas quando finalmente saímos, vimos que barra a entrada a um pequeno grupo de espanholas. Well done!!

O terceiro dia foi considerado sem efeito por unanimidade. O tempo desagradável mantém-se e a gripe agrava-se. Apanhamos um comboio a meio da manhã. Durmo durante boa parte da viagem.

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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