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Etiópia. Dia 11. Adis Abeba.

Agora já mais tranquilos, depois da febre inicial de tudo ver na capital da Etiópia, dedicámos este segundo dia na cidade a revisitar o que mais tínhamos na véspera e a entrar em mais alguns museus.

Era um Domingo e a cidade estava muito mais tranquila. Caminhámos. Simplesmente, porque não… se estava uma manhã tão agradável. Fomos andando e notei que havia muito movimento de pessoas. Não sei o que se estava a passar mas era como se todos se dirigissem para um evento que para mim se manteve na obscuridade.

O primeiro objectivo do dia era o monumento comunista que o Derg ergueu. Adoro estes vestígios do socialismo defunto. Cuba, Albânia, República Checa… onde quer que vá procuro sempre estes locais que me fascinam, nem sei porquê, mas suspeito que pode ter crescido na época final da Guerra Fria e por essa altura tudo isto estava envolto numa aura de mistério e de impossibilidade de alcançar.

O monumento surpreendeu. Não tinha a ideia de ser tão espectacular. Para entrar no recinto tive que mostrar o conteúdo do saco, claro. Receei que não deixassem entrar porque levava a câmara e havia sinais de que era proibido fotografar, mas passou. No interior estavam a filmar um video clip. Uma banda pirosa quanto baste cantava para as câmaras, perante uma pequena multidão de mirones. Os guardas rondavam e eu pensava que morreria se não captasse imagens. E saquei umas quantas, quando tinha a certeza que não podia ser observado. Depois as filmagens acabaram, os artistas começaram a preparar-se para partir e a multidão dispersou. E nisto começo a ver que todos os locais que queriam estavam a tirar fotografias, e juntei-me ao espírito da coisa e a partir daí foi click a torto e a direito.

 

Estava-se bem e o passeio continuou a pé. Sem um destino propriamente fixo. A ideia geral era visitar a área de Adis Abeba que pode ser considerada o centro, sei lá, a zona onde há mais hostéis para viajantes, a chamada Piazza. Um senhor de ar digno mete conversa. Inglês perfeito. Andámos um bocado enquanto falávamos, mas o senhor tinha dificuldade na locomoção e passado um bocado pedi desculpa, despedi-me, e arranquei no passo normal, deixando-o para trás. Mais um testemunho da simpatia etíope que encontrei várias vezes em situações semelhantes.

Parámos para um refresco num café local. Andámos por ali, passando por algumas ruas muito locais, que nos deram uma ideia de uma outra face da cidade. Bairros mais pobres, mas aparentemente seguros e sem hostilidade. Na Etiópia, por norma, as pessoas não reagem exageradamente à presença de estrangeiros, de “brancos”. Podem olhar, mas não ficam pasmados. Olham com uma curiosidade natural, de forma breve. Pelo menos é a minha experiência.

Dali apanhámos uma carrinha para Arat Kilo, onde tínhamos estado no dia anterior. Hoje a ideia era visitar um par de museus. Foi um trajecto interessante. E uma espera também. A carrinha só segue quando está cheia e ali demorou um bocado. Sentado lá dentro foi possível observar de forma discreta o que se passava. As pessoas que iam e vinham. A zona tem muito comércio. Há um café, instalado num edifício de estilo colonial, algo degradado.

E depois lá fomos, para Arat Kilo. Bebemos um batido de abacate, algo que na Etiópia é sempre uma refeição completa, muito substancial, sem qualquer água adicionada, é mesmo só a polpa da fruta.

O primeiro museu é o Museu Nacional da Etiópia, que não me encantou. É um museu velho e antiquado, com uma exposição medíocre e pobre. Nota-se que não gostei muito? Bem, mas o bilhete é quase gratuito, por isso se uma pessoa está na área não há nenhuma razão para não dar uma vista de olhos.

Encontrar o Museu de Etnologia foi um bocado complicado. Fica no meio do campus universitário, que está vedado, e encontrar o acesso correcto não foi fácil. Depois de muito caminhar e de uma certa incerteza lá encontrámos a entrada – uma das possíveis entradas – e passou-se pelas rotinas usuais… verificação do conteúdo das mochilas e, desta vez, registo dos dados do passaporte. Do portão até ao museu ainda foi uma boa caminhada, mas valeu a pena. O ambiente ali é curioso. Afinal, é uma área universitária. E isso é evidente. Os jovens estudantes andam por ali, não muitos, porque é Domingo.

O museu está instalado num palacete, antiga propriedade imperial. Nos degraus da frente estão sentados estudantes. Afinal, para além do museu o edifício alberga também uma biblioteca e, creio, mais alguns órgãos da universidade. Este sim, é um museu a visitar em Adis Abeba. Uma exposição diversa, que passa pela presença do imperador no palacete e parte depois para uma ampla série de espaços com temática diferentes. Achei fascinante, mas também, fico sempre maluco com a diversidade em espaços museológicos.

Demorei a concluir a visita. É um museu com muito para ver e deverá contar com mais de uma hora para apreciar o espaço, talvez mesmo duas. E quando terminámos, saímos da área de outra maneira, mais adequada, pela zona nobre do campus, entre fontes e árvores frondosas que fazem parte dos jardins, cruzando por fim os portões principais e chegando a uma rotunda movimentada de Arat Kilo.

Por esta altura a fome tinha chegado. Fomos a um restaurante um pouco mais abaixo, que já tinha marcado visualmente. Mais uma pizza de má qualidade, mas valeu pelo ambiente (e, claro, pelo estômago cheio). Um local frequentado pela classe média alta, um ataque ao estereótipo de uma África miserável. De repente, peles de outra tonalidade, e aquele restaurante-café poderia ser em qualquer grande cidade europeia.

E com este lanche-almoço se fechou basicamente o dia. Dali para a frente foi regressar. Primeiro numa carrinha, num percurso longo e ainda não percorrido, desde Arat Kilo até Mexiko, ou seja, duas estações de metro antes da nossa. A ideia era saltar dali para o metro, mas à hora de ponta a confusão era tanta que já estava mesmo a ver que aquilo não ia correr bem. Fomos a pé. Um passeio com cadência rápida, entre carros, multidão e muito bulício.

Chegados ao hotel combinámos o transporte para a estação ferroviária de onde dentro de dois dias, bem pela manhã, seguiremos para o sul. O sempre disponível gerente desencantou um condutor que logo apareceu para combinarmos tudo com ele. E assim acabou o dia.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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Em trânsito, com um dia relaxado em Gondar e uma viagem ao fim da tarde para Adis Abeba, com a chegada ao quarto de hotel já à noite.

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