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Grécia – 13 de Maio – Symi

Symi é uma pequena ilha, 20 ou 30 km a noroeste de Rhodes. Encontrei-a por acaso, quando há uns meses usava o Google Earth para procurar locais de interesse na ilha maior. Gostei do carácter intimista do que vi, das suas casas coloridas, das suas dimensões reduzidas. Depois, vi que o seu porto era mencionada no “Rough Guide to the Greek Islands” como uma das 10 coisas a não perder. O apetite aguçou-se. Apesar de tudo isto, a visita a Symi esteve na corda bamba até à última da hora. Primeiro porque para lá pernoitar havia que pagar acomodação. Depois, quando finalmente a despesa extra tinha ficado decidida, a marcação de quarto revelou-se uma verdadeira odisseia. Talvez fosse eu que não estivesse habituado aos sinuosos “caminhos” gregos.


Tinha sido na véspera, depois de regressar de Lindos, que comprámos os bilhetes para o ferry para Symi. Uma simpática grega com corpo de menina deu-nos todas as informações de que precisávamos e ainda se conversou um pouco sobre as diferenças entre a Grécia e Portugal. Estávamos algo apreensivos, porque o dia tinha estado ventoso, e previam-se ventos fortes para o 13 de Maio. Tinha lido que com frequência havia ligações de “ferries” canceladas devido às condições do mar. Mas ela deu-nos as garantias que podiam ser dadas de que não haveria problema, e que a viagem iria mesmo ser feita. Comprámos os bilhetes, e no dia seguinte estávamos lá à hora indicada.

Comparecemos no local da bilheteira – que é mais uma bancada de rua – no centro de Rhodes. Mas aquele era apenas o local de encontro. Fomos transportados de autocarro para o porto comercial, a uns dois quilómetros de distância onde embarcámos sem mais delongas num ferry bem mais antigo e pequeno do que os que tinhamos conhecido na nossa expedição a Santorini. Existem algumas opções no que toca a ligações entre Rhodes e Symi. Nós optámos por uma companhia local, baseada precisamente na pequena ilha, que opera dois navios. É uma ligação mais lenta e mais económica, e não me arrependo nada de o ter feito: a lentidão significou um agradável passeio prolongado, e os “catamaran” utilizados pela concorrência, segundo fui lendo, não oferecem a mesma estabilidade, podendo significar meio caminho para um enjôo incomodativo. Quanto a nós, os elementos pouparam-nos: da ventosga prevista, nem sinal, e apesar de por precaução ter tomado o comprimido para o enjôo, não teria sido de todo necessário.


Como um bónus surpresa, a viagem incorporava uma paragem turística na ponta mais remota da ilha, para que os viajantes pudessem visitar o mosteiro de Panormitis. Construído numa baia protegida do mar por barreiras naturais, o mosteiro parece ter ainda algum tipo de actividade. Mas os monges ter-se-ão rendido ao encanto dos Euros, abrindo todo o local à invasão quotidiana de turistas e vendendo pão e bolos – a preços astronómicos – produzidos na sua afamada padaria. É um local minimamente pictoresco, mas que não vale uma viagem expressa. Assim como foi, por acrescento, resultou bem. Durante cerca de uma hora os turistas podem cirandar pelo mosteiro e imediações, e é uma quantidade de tempo razoável, até porque no regresso a Rhodes tivémos uma segunda volta.

As águas são naturalmente cristalinas, apenas tornadas opacas pela areia levantada do fundo devido à acção violenta das hélices dos navios. Estavam dois “ferries” no pequeno pontão quando chegámos, criando-se assim uma espécie de hora de ponta turística. O pessoal das várias companhias conhece-se, claro, e vai trocando chalaças e entreajudando-se nas tarefas náuticas. Caminhando até uma das extremidades da baía tivémos uma perspectiva das límpidas águas do local… e das atrevidas cabras que por ali andam, sem problemas em se aproximarem dos turistas em busca de um pedaço de alimento que sirva de alternativa à sua alimentação rotineira.



Um pouco antes da hora da largada já estávamos a bordo. Uma coisa que não queremos é ser deixados para trás no mosteiro. Creio que são 15 km até ao porto de Symi e sabe-se lá como seriam vencidos, tivesse surgido a necessidade. Depois, foi contornar a ilha, sempre muito junto à costa, até atingir o destino final. Que pictoresco! O porto é tudo aquilo que tinha lido…. e mais. Foi dos últimos a sair do navio, empolgado que estava no convés a observar o local de vários ângulos à medida que o “ferry” ia girando, nas suas manobras de atracamento.

Calor, muito calor. E agora era necessário encontrar o hotel Fiona. Ao telefone, não consegui extrair do proprietário uma descrição coerente das direcções a tomar: “sim, sim, muito perto do porto… 10 minutos”. E pronto. Fossem lá para que lado fossem os 10 minutos. Valeram vagamente algumas pessoas que esperavam outros passageiros – um representante de um outro hotel e um polícia municipal – que indicaram de forma igualmente vaga a direcção a seguir. E essa direcção era dramaticamente a subir. E subir muito. Com carga completa e um calor dos diabos. Portanto, depois de muito sofrimento, litros de suor e quase exaustão muscular, chegámos ao hotel.

E aqui a porca torceu o rabo, e de que forma. Se algum dia forem a Symi, nem vos passe pela ideia de ficar no Fiona. Por mais atractivo que o website pareça, por melhores referências que encontrem na Internet. O hotel é gerido por dois idosos. Com todo o respeito pelos idosos deste mundo, estes, não estão capazes para nada. O senhor, não o cheguei a ver, mas falei-lhe ao telefone na véspera, uma comunicação muito complicada. A senhora, de grandes trombas, arrastando-se pelos corredores como um cadáver andante, lá nos abriu a porta do quarto. Com cara de quem nos estava a fazer um favor em nos aliviar de 70 Eur. A localização do hotel, apesar da vista espectacular, é algo inconveniente. Lá no topo de tudo, onde só se chega depois de trepar até à beira do desfalecimento… ou então, tenta-se usar o autocarro que liga a zona ribeirinha com o alto da colina, que parte a horas incertas e tem um comportamento irregular. O pequeno-almoço, incluido no preço, é miserável, quase repugnante. A internet wireless anunciada não existe. Apesar da tasca estar virtualmente vazia, a bruxa não nos deixou manter o quarto durante mais umas horas para além do meio-dia, mas, vá lá, pelo menos, depois de grande hesitação e má cara, permitiu-nos deixar as bagagens na recepção até à hora da partida da ilha. De resto, um duche equivale à criação de um lago artificial na casa de banho que lá ficará até à partida, e dormir é complicado, considerando o vento que abana tudo o que está solto no prédio, e que é muita coisa, a começar pelos taipais da janela do quarto.


Felizmente, a energia vibrante de Symi, a sua atmosfera benémola e a sua beleza rapidamente anularam a infeliz situação do hotel Fiona. Depois de recuperarmos um pouco das mazelas da subida, duches tomados e roupa mudada, saimos. Tinhamos que sair. A estadia na ilha era de 24 horas e tinha que ser aproveitada. A hora de partida não estava por esta altura determinada: havia um barco mais rápido e mais caro ao final da tarde, ou então usariamos a mesma embarcação que nos trouxe, mais cedo, logo depois do almoço. Para mais tarde decidir.



Iniciámos as operações pelo topo, explorando uma rua que, passando junto a uma série de moinhos, desaparecia por detrás da colina. Não chegámos tão longe… encontrámos um trilho que se internava no cerro, e que, conforme mais tarde descobrimos, seguia até à aldeia mais próxima, numa localização remota da ilha, mas junto ao mar. Mas não chegámos tão longe. Limitámo-nos por apreciar a vista priviligiada sobre o porto de Symi e voltámos para trás, explorando as ruelas, monte abaixo. A manhã já ia avançada, o calor começava a apertar de novo, e não se via quase ninguém. Demos com um conjunto de igrejas num outro ponto alto, mais um local magnífico, por si e pela vista. Depois, descemos, e descemos e só parámos lá em baixo, na zona do porto. Aquela hora ainda havia uma pequena multidão a palmilhar a marginal. Mas quando pouco mais tarde o último ferry zarpou, levou consigo a horda de turistas diários, que vêm para conhecer Symi mas não pernoitam. E tudo mudou.

Como de noite para o dia, a atmosfera assumiu de repente um carácter familiar. Nas agradáveis esplanadas de Symi, apenas os habitantes e uns quantos lobos do mar, os navegantes dos vários iates encostados no porto. Um velhote trabalha no seu artesanato, à beira da rua. Conversa à distância com o amigo que coze redes de pesca na sua embarcação, defronte. O sol vai baixo, mas o lusco-fusco estende-se por uma eternidade. Do lado oposto do porto há ainda um cache de pessoas que esperam um último barco. Penso que é uma ligação que vem da Turquia, e acima de tudo as pessoas parecem esperar por alguns passageiros. Quando tornamos a passar pelo local, uma meia hora mais tarde, já não anda por ali ninguém. Vai sendo tempo de subir de novo para o hotel, mas pedimos um pouco mais das pernas e vamos até à outra extremidade do porto. Vimos a representação local da companhia de navegação que nos trouxe e decidimos na altura arrancar no barco das duas horas. Symi é encantador, mas fica a sensação que já temos quase a nossa dose e que o que falta ficará preenchido no dia seguinte de manhã. Poupamos alguns Euros e seguiremos para Rhodes um pouco mais cedo.

Ao serão, depois de uma breve merenda no hotel, saimos para procurar um local com acesso internet. Apesar de estarmos longe da época alta e de haver um ambiente reservado nas ruas, quase familiar, existem muitos bares e restaurantes abertos, mas quase todos vazios. Encontramos um que anuncia wi-fi gratuita. Também está vazio. Quer a sofisticada esplanada, com vista para o porto lá em baixo, quer o espaço interior, que acabamos por escolher. Ficamos mais de uma hora, com um copo de vinho e, finalmente, o tradicional yogurte com mel, que é uma sobremesa e peras, parecendo mais um gelado. O proprietário, um jovem de vinte e poucos anos, explica-nos que o mel vem das colmeias do seu pai. E desfaz-se em simpatia. Foi um fechar magnífico de um grande dia.



About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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