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Islândia 2015 – Dia 9

Olhei lá para fora e vi uma luminosidade negativa. O tempo não melhorou desde ontem. Bem pelo contrário, a chuva está agora mais pesada. Ainda bem que há um carro lá fora, que não é uma daquelas viagens de mochila às costas e muitos quilómetros a andar pela frente. Não ia apetecer nada sair de casa.

Os nossos anfitriões acordaram muito cedo, mesmo muito cedo… têm este hobby louco que é distribuirem os jornais pelas casas do bairro… dizem que é um bom exercício. Quando nos levantámos eles tinham vindo da sua ronda e preparavam-se para sair de novo, para os seus empregos. Despedimo-nos e partimos. Levava uma carga de ideias de sugestões oferecidos por esta gente que tão bem conhece a Islândia, mas as condições climatéricas não concordavam com nada disto.

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Contudo, logo a moral desceu. O tempo-cão, algum sono e muito cansaço acumulado. Quaquer local onde parássemos, logo a chuva e o vento desencorajavam uma vistoria adequada. Ao fim de um bocado simplesmente encostámos o carro e dormimos. Enrolei-me no banco de trás, dentro do saco cama, e tirei uma bela soneca. Ferrei no sono durante duas horas mas quando acordei o tempo estava um pouco melhor. E sentia-me mais bem-disposto.

De novo na estrada. Percorremos uma infinidade de quilómetros sem nada de notável para assinalar. Esta parte da Islândia é muito plana, campos de lava, deserto. Gostei de uma pequena igreja (imagem de topo). Havia uma quinta por perto, aparentemente sem ninguém. As cores estavam espectaculares.

Mais campos de lava. Chegámos a um ponto importante. Tinhamos diante de nós, geologicamente falando, o ponto em que a Europa se separa da América. É uma sensação, ter ao alcance da mão, ao mesmo tempo, dois continentes. Ainda melhor que em Istanbul.

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Mais à frente passámos Grindavik, que vinha referenciada pelo Gunnar como sendo um local interessante, mas se calhar tivémos azar… não nos tocou minimamente. Foi mesmo passar, nem parámos.

Não tardou muito para chegar à famosa Lagoa Azul. Não é decididamente o tipo de local que me atrairia – talvez se me pagassem os 30 Eur em vez de mos pedirem – mas já que era mesmo ali ao lado fomos dar uma vista de olhos. Pode-se ver bastante sem entrar como cliente, mas o Gunnar disse-nos que estavam a pensar passar a cobrar para aceder aqueles passadiços de onde se vêem as águas azuis-leitosas da lagoa.

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Toda a Islândia é, por assim dizer, uma panela de pressão. Mas há zonas com mais actividade sismica do que outras. Aqui existe imensa actividade geotermal. Não muito longe da Lagoa Azul, existe uma outra lagoa, igualmente azul, rodeada por fontes de água fervente. Existem fábricas por perto, mas não o suficiente para estragarem a paisagem.

Já a afastar da península mais a sudoeste da ilha, uma surpresa, daquelas que adoro. Uma seta a indicar um ponto de interesse. Uns quantos quilómetros de terra batida. Um circulo de gravilha para deixar o carro. Depois, caminhar. O cenário é quase dantesco. O vento é inclemente e lá em cima a negritude das núvens persiste, transforma o dia numa sombra escura. Para acentuar o ambiente, o local é verdadeiramente remoto. O mar, ali muito perto, ruge. Ironicamente é no norte, austero e invernoso, que as águas são dóceis, enquanto que a sul as vagas são enormes, raivosas.

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O trilho – se é que existe um – leva-nos por uma espécie de praia, feita de seixos escuros, suja pela poluição que vem do oceano, restos de coisas à deriva desde sabe-se lá de onde. E então vejo o destino… uma estação de pesca abandonada. Nada mais que uns muros de pedra destruidos. Mas impressiona, pensar que viveram pessoas neste local, tão inóspito, e que pegavam em barquitos de madeira e se metiam mar adentro. Olhando para a água parece impossível penetrar naquela imensidão de espuma branca, filha de uma revolta sem fim. Homens corajosos, desesperados. E no Inverno, numa terra sem madeira para queimar, o frio, o vento, a noite que nunca cessa. Impressionante.

Esta costa tem mesmo assim alguns pontos interessantes. Promontórios, faróis e praias onde quase podemos tocar o oceano. Num dia assim ganha uma personalidade diferente, sombria, assustadora. Mais à frente, uma igreja perdida, junto à orla, a que se chega através um estradão em linha recta, protegido dos humores do mar por uma barreira que me fez pensar nos expedientes holandeses para manter o Atlântico longe das suas terras baixas.

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Este foi um dia, ao contrário dos anteriores, para ver coisas novas, mas não foi especialmente positivo. Acho que foi por esta altura que o moral bateu mesmo em baixo. Manteve-se cheio de curvas durante a estadia na Islândia, primeiro para baixo, com a irritação com o frio muito intenso… depois subtilmente para cima, na viagem para norte, com novas paisagens. Um pico fortissimo para baixo com o susto na condução e na chegada a Akureyri, um pico enorme para cima no dia seguinte… depois uma curva suave para baixo com dois dias basicamente usados a regressar à capital, uma depressão que prosseguiu neste dia que agora descrevo, com uma paisagem que não agradou especialmente acompanhada de mau tempo. Daqui para a frente foi sempre a subir até à partida.

Na realidade apesar do dia ainda ir a meio – pelo menos em termos físicos, de luz – não se passou muito mais. Usámos as estradas secundárias para chegar a Hveragerði onde iriamos pernoitar, e a paisagem monótona não encorajou a paragens. Recomeçou a chover. Muito cansado. Chegámos. Apesar do estado de espírito negativo, gostei logo de Hveragerði. Se fosse condenado a viver na Islândia talvez fosse ali que escolhesse ficar.

Gostei das estufas, algumas delas iluminadas para encorajar a produtividade dos tomates. Isso mesmo, tomates. Vêem-se à distância, até da estrada número 1. Criam uma auréola estranha, e decidi ir ver de perto.

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Logo depois, quase uma crise: a nossa anfitriã enganou-se nos dias, pensava que só chegariamos no dia seguinte. Felizmente que estava em casa. Seria um belo problema se não estivesse. Passada a surpresa logo se tornou numa amiga. Desde o primeiro momento, quando a contactei, que tinha excelente impressão sobre ela. Tinha-se oferecido para emprestar sacos-cama caso decidissemos acampar ou dormir no carro. Foi sempre muito gentil e neste dia não o foi menos. Passámos o serão a conversar e a beber chá. Tinha acabado de regressar do Japão, com muitas histórias para contar. E como era guia-turística, as suas informações para a Islândia eram preciosas.

Uma fotografia que ficou esquecida – calor a valer, só na água que emerge do solo:

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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