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Malta, 10 de Fevereiro de 2011

 

O segundo dia desta segunda viagem a Malta foi daqueles em que, chegando ao fim, se olha para trás e fica a interrogação: como é possível ter um dia tão preenchido? O Jeff não estava a contar com isso, mas quando começámos a falar em Gozo (a segunda ilha do arquipélago) e onde deveriamos ir, e como poderiamos lá chegar… rendeu-se. Acho que não resistiu à inveja de tudo o que iamos ver e decidiu vir conosco e tornar possível uma visita total. No fim, foi assim como que uma antítese à anterior expedição a Gozo, em 2009, quando fui mordido por uma vespa no primeiro sítio onde fomos, e desenvolvi uma rara reacção à picada, tendo visto as coisas muito mal paradas. Desta feita,  foi exactamente o contrário: podemos ir aos quatro cantos da pequena ilha, com excepção do famoso “Azure Window”, cujo acesso se encontrava encerrado para obras.


A jornada começou da melhor forma, quando o Jeff nos conduziu a um dos seus recantos favoritos, que imediatamente se tornou o mesmo para nós. Uma pequena baía, uma ou duas casas e uns quantos abrigos de pescadores. Nas águas translúcidas, um punhado de coloridos barcos flutuava, sombras projectadas no fundo arenoso. No local, um par de pessoas. E o paraíso foi descoberto. Chama-se Dahlet Qorrot. O local merecia longas linhas neste artigo, para que não restassem dúvidas sobre a impressão que causou. Mas por outro lado, é daqueles sítios que faz as palavras parecerem vãs. É preciso ver. Nem as fotografias conseguem fazer jus à beleza, ao momento. Dahlet Qorrot desarma a um só tempo o poeta e o fotógrafo.

 

A paragem seguinte deu-se numa torre adjacente. Daquelas que se vêem em redor das ilhas maltesas, erigidas como um sistema planeado de pré-aviso contra os ataques, dos piratas e de quem aprouvesse aproximar-se das ilhas com más intenções. O Jeff é um estudioso profundo destas fortificações, conhece-as todas, e sabe-lhes as histórias e manhas. Esta, tem sido utilizada para pequenos concertos de música clássica, destinados a uma elite capaz de pagar umas centenas de Euros para aceder ao evento. São coisas que se passam nos cálidos serões de Verão, e podemos imaginar o cenário… os casais, bem ataviados, chegando ao local sob uma lua cheia, a brisa fazendo oscilar tecidos e madeixas, enquanto os músicos do quarteto ultimam a afinação dos seus instrumentos. Devem ser momentos mágicos. Invejo os que os podem viver, mas só um bocadinho, porque de falta de vivências na vida não me posso queixar. Ficamos ali uns momentos, à conversa, a descansar e a apreciar a vista envolvente, que é dominada pelo omnipresente azul. O mar, a perder de vista, com Dahlet Qorrot à nossa direita, lá em baixo. E o céu, que dá uma segunda de mão naquela “parede” pintada em tons azulados.

 

 

A caverna de Calypso, perto de Marsalforn, foi visitada de seguida. Os malteses gostam de pensar que foi neste local que Homero foi mantido prisioneiro durante sete anos, como escravo sexual da pérfida Calypso. Os turistas afluem este  extracto de A Odisseia é repetido até à exaustão. Quando chegamos, um grande grupo anda pelo local, mas temos sorte e pouco depois vão-se no autocarro que os leva de um lado para o outro da ilha. A gruta não tem nada de especial… são duas breves câmeras e mal se necessita de luz artificial para se chegar ao fim. O melhor do local é mesmo a vista, podendo-se observar lá em baixo a praia de Ramla, com a sua areia cor de mel, onde o Jeff nos levou mesmo antes de subirmos até cá acima. Parece ser muito apreciada pelos locais, que num belo dia como este faziam piqueniques e relaxavam nas areias da praia.

 

 

Parámos na aldeia, encontrámos um supermercado e comprámos bens para uma merenda. Mais à frente havia as salinas de Marsalforn (apesar de Zebbug ser bem mais próxima) e quando sei da existência de salinas não posso perder a oportunidade de dar uma vista de olhos. Mas estas superaram todas as expectativas, bateram tudo o que até então observei. Os “terraços” são escavados em rocha, onde a água se deposita até evaporar. E são quilómetros e quilómetros delas. Algumas estão ainda activas, e por todo o lado há cartazes que deixam bem claro que as pessoas não devem caminhar sobre as salinas. É um cenário surreal, e é ali mesmo que decidimos parar para almoçar. De um lado o mar, muito escuro; do outro, estes alvéolos bizarros. E à minha frente, as loucuras do George, o cão do Jeff, cheio de energia, ainda quase um cachorro. Está-se ali tão bem que ficamos muito para além do tempo necessário para o piquenique. Definitivamente, um dos meus locais favoritos em Malta e imperdível para qualquer visitante.

 


 

A paragem seguinte foi na magnífica basilica de Ta Pinu, um majestoso edíficio construído no início do século XX no local onde uma capela resistiu durante quinhentos anos, com uma história repleta de episódios rocambolescos. Ali, enquanto eu mirava o edíficio, o Jeff logo encontrou alguém conhecido e foi pondo a conversa em dia. Feita a visita, o Jeff quis ir a Xlendi. Não fiquei muito entusiasmado porque de todos os pontos da ilha, esse tinha sido o único que tinha podido conhecer aquando da minha expedição de 2009. Mas engoli o cepticismo, fiz um sorriso amarelo, e lá fomos… afinal, não seria nada bom da minha parte, se este amigo fazia questão…

 

 

E em boa hora aceitei a sugestão sem tugir nem mugir! Nem chegámos a entrar na aldeia, fomos à volta e dirigimo-nos directamente para a torre de vigia que se ergue no promontório. Ali perto um grande grupo de jovens malteses preparava-se para passar o fim de semana num “camping” improvisado. Era um gosto vê-los nas suas actividades. Uns transportavam ainda coisas a partir da estrada, lá longe; lenha, garrafas de água e mais bens necessários para a estadia. Outros, montavam as tendas. E de facto, ali, viveu-se mais um precioso momento. A perspectiva é completamente diferente da que tinha tido há dois anos. Valeu a pena, ver de novo aquele mar azul, as paredes rochosas que caem a pique em direcção à água, a enseada, que conduz directamente à aldeia, hoje um pólo turístico, ontem, certamente, uma pequena comunidade de pescadores.

 

 

O dia chegava ao fim, mas havia ainda algumas coisas a fazer. Assim como em Malta os rochedos de Dingli são famosos, também em Gozo existe uma área semelhante, que era o nosso próximo destino. O Jeff não conhecia, e então andámos à procura… até que encontrámos o acesso, discreto, com uma velha placa amarela a apontar a direcção. Entretanto, o mau asfalto deu lugar à terra batida, que por seu lado deu lugar a um caminho de cabras onde ele conduzia o carro, destemido. É espantoso as coisas que este homem faz com o seu carro. Nem eu, o terror das companhias de aluguer de carros, me atreveria a pôr ali uma viatura alugada, já sem falar num automóvel que fosse meu. Às tantas a coisa ficou tão preta que até ele se convenceu a aceder aos nossos constantes apelos de encostar e camingar o caminho restante. Mas neste momento, lá ao fundo, assoma-se uma silhueta que faz sinais para avançar! Afinal é transitável, por padrões malteses, e de qualquer modo estamos quase lá. Que vista, meus senhores! Outro momento único, com o sol já bem baixo e aquelas paredes de pedra, altissimas, a pique sobre o mar. Ao contrário de Dingli, onde existe uma plataforma a uma cota mais baixa, antes das águas, aqui seria sempre a descer até chegar ao azul.

Faltava o último destino da jornada, que o Jeff não hesita em classificar como o seu local favorito em todo o país. Apressamo-nos porque o dia está a acabar e o sol beijará as águas do Mediterrâneo a qualquer momento. Cruzamos aldeias, o que em Malta não tem o mesmo significado que por cá… quando pensamos em aldeias, vem-nos à ideia pequenos grupos de casas, mas por lá, as aldeias são quase pequenas cidades, com supermercados, lojas, e muito casario. Não as existem de pequenas dimensões. Mas o que queria mesmo dizer é que estas aldeias em Gozo são imperdíveis, cheias de detalhes preciosos e um toque de exoticismo que fará perder qualquer viajante. É com alguma frustração quevejo tudo isto passar a grande velocidade, mas compreendo que por ora é assim que terá que ser.

 

 

Finalmente atingimos o acesso que procuramos, que o Jeff descreve como uma “estrada sempre a descer, parece conduzir ao Inferno, só que lá em baixo encontraremos o paraíso”. E de facto assim é. Chegando ao destino, vimos uma enseada, à qual se acede por mar através de um braço que faz lembrar um fiorde em miniatura. São 500 metros até ao mar aberto, e segundo nos diz ele, mergulhar ali é tão gratificante quanto o fazer lá fora. O sol pôs-se e a luz vai faltando. É o lusco-fusco. No local está um grupo de mergulhadores que arruma os seus tarecos numa carrinha, e alguns locais que se sentam com garrafas de cerveja nas mãos. Do lado esquerdo, mais uma das torres medievais de vigilância, que é o nosso destino final. O Jeff hesita, porque segundo ele será já noite cerrada no regresso. Mas temos lanternas e seguimos caminho. O trilho é simpático e apesar da inclinação inicial revela-se simples de caminhar. Quando alcancamos a torre o céu está pintado de tons alaranjados, e algumas estrelas já brilham.

O regresso não ofereceu dificuldades. Esperámos algum tempo na fila para o ferry, porque era dia feriado e muitos dos de Malta tinham vindo a Gozo passar o dia. A nós parece-nos bizarro, que os da ilha maior vejam a menor como local de passeio e de férias. Para um visitante, as diferenças são mínimas, mas para quem é de lá, as coisas são diferentes.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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