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Médio Oriente ’11 – Dia 17 – Amman, Londres

27 de Novembro

A estranha sensação de se acordar pela última vez num sítio. Ainda há três semanas estava a passar por isto, em Belgrado, e agora aqui estou, no chão de um apartamento de Amman, a abrir os olhos, sabendo que não mais verei aquelas paredes que nas duas últimas semanas me habituei a chamar de “casa”.  No final da tarde estaremos de saída, desta vez para não regressar. No aeroporto, se tudo correr bem, estará o Easyjet que nos levará a Londres, onde o  piso duro do terminal será a nossa cama para a noite, e no dia seguinte, bem pela manhã, estaremos em Portugal.

Este foi um dia para descontrair. Amman já era uma nossa velha conhecida, que tratávamos por tu, e cujos momentos de paixão inicial tinham evoluído para uma relação de serenidade. Limitámo-nos a cirandar, despedindo-nos dos pontos mais marcantes. Fizémos pela última vez a caminhada de casa até ao centro. Fomos ao mercado. Comprámos bolos na padaria que visitámos no nosso primeiro dia. Estavam condições climatérica perfeitas. Um céu azulão, com um sol morno que aquecia um dia quase de Inverno. Acabámos por passar um bom bocado no concorrente directo do nosso bem-amado café Limana. Peço desculpa, é que a esplanada estava ao sol. Dali ficámos a observar o palpitar da vida normal de Amman. E a bebericar um chá, enquanto os computadores se ligavam à rede wi-fi. Em baixo, uma cena surreal (ver foto a seguir): uma polícia de trânsito ajuda um condutor a arrumar o seu carro… imediatamente a seguir a um sinal de proibição de estacionar ou parar. Vida doce a de Amman, onde agentes da autoridade ajudam gentilmente os cidadãos a prevaricar.

Não passámos muito tempo com o Nael neste último dia. Ele continua em mosto de histeria devido aos exames. Encontramo-nos brevemente para aquele abraço de despedida e ficamos mais um bocado pelo apartamento, arrumando os últimos tarecos. Está na hora. Fechamos a porta e colocamos a chave por debaixo da fresta.

Na rua não está tão fácil de apanhar táxi como é costume. Por causa da hora de ponta. Por fim um carro deixa um cliente um pouco abaixo e pára ao nosso sinal. “Para onde vão”, quer ele saber. Para esta estação de autocarros… e mostro-lhe o papel com o escrito em árabe. Ele lê e reflecte. Obviamente estamos numa margem obscura. Deve ser-lhe inconveniente por alguma razão, mas após a hesitação decide-se positivamente. E que bom que assim foi !! O homem, novo, deu um exemplo de profissionalismo. Não deixa de ser irónico que o último táxi que usámos foi um dos dois, num universo de cerca de vinte, em que o serviço foi inteiramente honesto. Mas sobretudo, de mestre. Passo a explicar: o trânsito estava infernal, mas o tipo cruzou meia Amman por estradas e estradinhas, ruas e ruelas, por bairros residenciais e travessas que não lembra ao Diabo. Isto para evitar, com eficiência notável, o efeito da concentração de tráfego. Rápido e seguro. Ele não sabia, mas imaginou que tinhamos o tempo contado, e fez tudo para nos deixar na estação a tempo e horas. Um bocado antes de lá chegarmos perguntou que autocarro iamos apanhar, e quando soube que era para o aeroporto, tornou-se mais energético na condução. À chegada percebi porquê. Ao contrário dos outros condutores que nos levaram a terminais rodoviários, inclusive a este mesmo. o homem não nos deixou à entrada mas entrou por ali adentro para se deter em frente a um autocarro (de forma que o bloqueava) e disse-nos: este é o vosso autocarro. Têm um minuto para o apanhar. Vai sair agora. Paguei apressadamente enquanto me auto-penitenciava por ter chegado a pensar que as voltas e volteios por Amman se tinham destinado a acrescentar quilometragem à corrida e dali foi parar só no aeroporto. Que precisão suiça! Correu tudo bem. O autocarro do aeroporto, supostamente um expresso, levou todo o tipo de gente menos utilizadores do aeroporto. Deu mais não sei quantas voltas, perdi a orientação enquanto a noite caia, cheguei a ficar nervoso, mas devido ao profissionalismo daquele condutor de táxi tínhamos tempo de sobra. E eventualmente chegámos ao destino. Foi o fim da aventura árabe.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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2 comentários

  1. Foi sem dúvida uma grande aventura. Gostamos das crónicas desta tua viagem árabe. A Jordania também a nós nos deixou saudades e a certeza de que temos de regressar.
    Abraço

  2. A avaliar pelo que (des)conheço sobre o país deve ser espectacular no verdadeiro sentido da palavra. As imagens e os relatos dizem isso mesmo.

    Saudações!

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