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Newcastle – Amesterdão – Dia 4

Sábado. Mais um dia cheio de sol. As ruas estão repletas de gente que anseia por aproveitar os primeiros ares da Primavera. Quanto a mim, estou fascinado pelo milagre metereológico que se tem vindo a operar desde que deixei Portugal e que, de resto, se estenderá até ao último dia desta viagem. A atmosfera relaxada de um fim-de-semana solarengo é a mesma em qualquer cidade do mundo. E eu gosto.

Atravessei o parque Vondel, que se inicia junto ao bairro dos museus, estendendo-se na direcção oposta, primeiro através de um estreito corredor, depois alargando, convertendo-se num parque a sério. No início da manhã já muita gente aflui à entrada mais central deste espaço, e o seu interior está bem concorrido. Depois de andar um pouco junto aos espaços relvados, aos lagos e às pontezinhas românticas, saio um pouco, e dou por mim numa longa avenida. Pela primeira vez vejo uma outra Amesterdão, sem turistas, mais real. Caminho com gosto por essa via, a Overtoom. Mesmo afastada do mundo de fantasia dos canais, esta estrada tem o seu charme. As casas são fotogénicas e as pessoas que por ali andam conferem uma dimensão humana ao cenário, com as suas lides rotineiras de fim-de-semana.




Mais à frente entro de novo no Vondel e vou até ao fim. Ali vive-se bem. Junto a manchas de água que na altura penso ser canais e mais tarde descubro serem lagos estendidos, casas opolentas, com frondosas árvores cujos ramos caem placidamente sobre a liquida superficie verde. Um pai lê o jornal, combinando as notícias com o prazer de um banho de sol e com a atenção sobre a sua cria que brinca junto à água.

Quando regresso, desta vez sempre por terrenos do parque, noto que já existe muito mais gente a usufruir do espaço. E quando chego à entrada principal, a corrente de gentes é avassaladora. Quanto a mim, dali de onde estou, resta-me atravessar todo o centro da cidade para chegar à estação central.

A ideia era apanhar um autocarro para Zaanse-Schans, uma área-museu ao ar livre, composta por uma série de moinhos e casas tradicionais. Hesitei. Já eram duas horas e levava muitos quilómetros nas pernas. Seria razoável meter-me num autocarro e iniciar uma nova exploração quando tudo o que me apetecia era regressar a casa e estender-me um pouco depois de várias horas a caminhar? Por fim venceu a opção mais aventurosa e decidi-me a entrar para o autocarro. Mas para isso teria primeiro que o encontrar. Ora o Marco tinha-me dito, enquanto me passava o seu cartão de créditos dos transportes públicos, que teria que atravessar a gare e que do outro lado encontraria a estação de autocarros. Só que do lado de lá da gare só havia obras e depois o rio Amstel. Depois de cirandar, olhar e mirar, acabei por encontrar um cartaz que dizia: “Autocarros: siga as pegadas”. Assim fiz, e depois de contornar toda a área dei comigo perdido. De facto havia ali autocarros, mas não o 91 que me levaria direito a  Zaanse-Schans. Perguntei a alguém que me enviou na direcção correcta, uns 200 metros para trás. E de repente estava instalado a bordo. O bilhete foi 3 Euros.

O percurso até ao destino fi-lo de olhos bem abertos. Queria ver como era a Amesterdão real, os seus subúrbios, onde os holandeses viviam, longe do olhar omnipresentese dos turistas. E vi, pequenos aglomerados urbanos, com blocos residenciais baixos. Canais com casas -barco. Muita modernidade, sem vestígios do passado. Tentei imaginar como seria tudo aquilo há 30 ou 40 anos e não consegui. As coisas não encaixavam. É como se a “Grande” Amesterdão só tivesse começado a existir ontem.

Zaanse-Schans. Assim que passei os portões, a desilusão foi avassaladora: o local prometia, mas a multidão de turistas era sufocante. O autocarro vinha totalmente vazio. Aqueles visitantes eram de uma outra estirpe, a mais perigosa: excursões! O parque de estacionamento de Zaanse-Schans estava repleto de autocarros de turismo. Ponderei por alguns instantes dar meia volta e regressar imediatamente a Amesterdão, agora distante em 15 Km para Sudoeste. Mas pensei que mesmo naquelas condições desfavoráveis talvez conseguisse algumas fotografias dignas, até porque depois de ultrapassar a zona de entrada, a concentração de gente abrandou, deixando-me algum espaço para respirar. Ainda bem que assim o fiz. Acabei por passar uma bela tarde, apenas a tempos abanada por um grupo de visitantes mais desagradável.

Zaanse-Schans é de certa forma parte da cidadezinha de Zaandijk, só por si simpática o suficiente para justificar uma visita. Mas entre uma e outra corre um curso de água, cortado por uma ponte que permite a travessia. Imagino que noutros tempos Zaanse-Schans seria apenas mais uma parte de uma Holanda campestre, com os seus múltiplos moinhos em labor permanente, e todas as actividades naturais de uma população rural. Actualmente o espaço foi convertido, dedicado ao turismo. Uma nota agradável é que não se pagam bilhetes para entrar. Os portões estão lá apenas formalmente. Os visitantes entram e saiem sem qualquer controle. No interior, uma série de casas representam as actividades tradicionais, vendendo os seus produtos e financiando o espaço. Há ali uma padaria, uma mercearia, um restaurante… uma loja de flores, uma quinta de queijo onde os turistas podem assistir a demonstrações de fabrico antes de adquirirem os produtos. E os moinhos. Alguns abertos ao público, com explicações e visitas guiadas. E que grandes que são, os moinhos holandeses, quase castelos, imponentes, cortando o céu, num raio espantosamente amplo.

Mas em Zaanse-Schans existe gente comum. Que vida desgraçada devem levar, constantemente observadas pelas hordas de turistas de Nikon em punho, feitos animais em parque zoológico, mas mesmo assim ficando, lidando com a pressão. As suas casas são belas, coloridas, fotogénicas, fascinantes nos detalhes e nas cores.

A tarde já vai avançada e quero dar uma vista de olhos por Zaandijk. Atravesso a ponte e sinto o pulsar da comunidade. Logo ali, à beira do rio, uma esplanada assente sobre areia dá ares de estância balnear, e as pessoas alinham na mistificação, algumas em tronco nu, e todas vestida de forma muito informal, ocupando todas as mesas disponíveis, bebericando cerveja, aproveitando as últimas horas de uma preciosa tarde de sol.

Gostei de caminhar pela pequena cidade, atravessar um parque onde uma senhora de mais idade me diz qualquer coisa em holandês. Uso a linguagem gestual para dizer que não percebo o seu idioma e ela passa para inglês: “Did you take beautiful pictures today?”. Sorrio, certamente um grande sorriso, porque foi isso que aquele momento me inspirou. Digo que sim, que espero que sim, que estou convencido que sim. E ela diz “Good, have a nice stay in Holland”. E separamo-nos, ela, quem sabe para onde. Eu, para mais um moinho, tão imponente como os de Zaanse-Schans mas sem turistas.

No regresso passo junto ao parque-museu. Um casamento muçulmano tem ali lugar. Os convidados, vestidos a rigor, vão conversando, enquanto um grupo de raparigas toca instrumentos e canta temas tradiciomais, com muita ululação pelo meio. Resta-me esperar pelo autocarro que me levará de volta à cidade.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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