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São Tomé e Principe – Dia 10 – 21/10/2012

Para este Domingo tudo estava em aberto. O KB tinha planeado uma expedição a Lagoa Amélia, um cone vulcânico hoje feito um mar de lama pantanosa esverdeada, de onde saem os principais cursos de água da ilha. Mas isso seria um passeio fisicamente exigente, com um par de horas de caminhada para cada lado, sabe-se lá sob que condições climatéricas. E eu, com uma gripe a avolumar-se. Com grande frustraçõa tive que decretar a minha indisponibilidade para o projecto, que ficou em nada.

Ao fim da manhã, depois de recuperada alguma energia, muita água bebida e a mesma urinada e suada, comecei a sentir-me melhor. Já entediados pelo ritmo das coisas, deixámos o KB em casa nas suas prácticas musicais e caminhámos até à cidade. Sem rumo definido andámos pelas ruas habituais. O céu ganhava contornos ameaçadores. Advinhava-se tempestade. Os navios ancorados ao largo já não eram visiveis, tornados subtis silhuetas, esguias, num pano azul acinzentado a perder de vista.

Acorremos à nossa esplanada de sempre, para mal o café mais caro da cidade, apesar do seu aspecto rasca. Mas a verdade é que, fazendo jus da sua localização na marginal e da preferência que aos poucos conquistou junto da comunidade de europeus, os preços eram até mais elevados do que em Portugal.

Ficámos por ali, muito bem, a ler, a espreitar a tempestade de chuva que andava pelo mar e que apenas vagamente nos tocou, através de um tímido aguaceiro. Mais tarde o KB ligou-me. Que tinha falado com o Alberto e que estavam a pensar ir encontrar uma queda de água que ainda não conheciam. Claro que eramos bem-vindos e que de qualquer modo se iriam encontrar no Passante dentro de alguns minutos. Ora bem, isso é mesmo onde nós estávamos. De forma que, tal como prometido, não demorou muito até ao nosso amigo chinês estar sentado à mesa conosco. Mais tarde, o Alberto. Ficou-se por ali, nas calmas, à conversa, sobre tudo e sobre nada. Até que o meu estômago começou a rugir e vi-me na necessidade de lançar um ultimato: se era mesmo para ir, então estava na hora porque ainda gostaria de passar na padaria para comer qiualquer coisa.

E fomos. Lá se fez a paragem para comprar uma enorme caixa de bolos e pão, que comi gulosamente a caminho, elogiando as excelentes bolas de berlim que me deixaram estupefacto: melhor mesmo só aquelas da padaria da Praça do Chile, que as fabrica, noite após noite, anos a fio, desde que me lembro de ter começado a sair para a noite lisboeta.

A expedição foi um fracasso. Entrámos pela roça Agostinho Neto – a maior e mais conhecida de todos – que foi uma decepção. Saímos dos seus terrenos por um portão das traseiras, mas às tantas, quando pensávamos estar já próximo, vimos o caminho barrado por uma árvore caida sobre a estrada. Tivemos que inverter a marcha, contornar a plantação, encontrar um caminho alternativo… para tornar a parar perante a mesma árvore. E afinal, o acesso correcto para a queda de água era justamente ali, onde, por coincidência, o colosso de madeira se tinha abatido sobre o estradão. A chuva caia miudinha. Fiz da caixa de bolos abrigo e segui os meus amigos pelo discreto trilho. Já se ouvia o ribombar da cascata, mas também se sentia o intensificar da precipitação. Fartei-me e anunciei a minha desistência. Enquanto caminhava pela lama, de volta ao carro, só pensava na água que me cobria e na malandra da gripe que bem podia aproveitar aquilo para se reafirmar.

Cheguei ao Vitara e encontrei uma t-shirt seca do KB. Boa! Mesmo o que precisava. Ali fiquei, à espera dos meus companheiros, suando um pouco, o corpo inspirado por aquela humidade que se erguia do chão, o carro transformado num banho turco improvisado.

Pouco depois eles chegavam, e não vinham especialmente animados. Decididamente a expedição tinha sido um fracasso. Regressámos à cidade, no meio de sorrisos amarelos. O KB fez um pequeno desvio para nos mostrar o seu local de trabalho, e fomos sair do outro lado do aeroporto. Passávamos em frente à praia Lagarto quando eles viram uma amiga, que caminhava junto à praia. Um pouco de conversa e as coisas ficaram assim decididas: o Alberto e a Mia iria ao Omali Lodge, o mais luxuoso resort da ilha, frente à praia, enquanto nós iamos a casa tomar um duche e mudar de roupa.

E assim foi. Mais um par de horas nas calmas, ao ritmo quente e doce de São Tomé, com a praia em frente, bebidas frescas, conversa. No fim, empilhámo-nos no carro e o KB fez a distribuição dos amigos. A primeira a ser entregue na sua residência foi a Mia, uma jovem sueca de ascendência exótica; depois o Alberto ficou em casa, na cidade, não muito longe do nosso Mirante. E regressámos. Planeámos encontrarmo-nos todos mais tarde, no Kakau, para a sessão de jazz daquele serão. Mas nunca sucedeu: o local estava fechado, segundo informação recebida telefonicamente o Alberto. Mesmo assim descemos à cidade, fomos para a “roulotte” junto à baia, beber umas cervejas, reencontrar as caras conhecidas de sempre. Quando chegámos lá estava a guia Valerie e as dez enfermeiras espanholas que lhe estavam entregues, e mais um português que persiste em me aparecer em todos os lados onde vou… mais tarde chegou o Alberto. E ficámos por ali, garrafa de cerveja na mão, gracejando com alguns locais, que iam e vinham, quase todos pelo menos conhecidos do nosso anfitrião, com a baia Ana Chaves como pano de fundo e uma noite com uma temperatura de sonho a envolver-nos.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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