Está a chegar ao fim a aventura. Foi só um dia completo. Duas noites. Mas parece que passou uma eternidade de tempo. Hoje direi adeus ao grupo e cruzarei a fronteira com o Chile. Dormirei em San Pedro de Atacama. Mas para já existem ainda algumas horas para usufruir na Bolívia.

Acordamos muito cedo, ainda de noite. Vai ser um dia longo, especialmente para os meus companheiros, que terão que regressar a Uyuni ainda hoje. Fazer num só dia o caminho que levou dois dias a percorrer para cá. Não lhes invejo a sorte. Já eu, serei deixado na fronteira com um transfer assegurado pela empresa. Há sempre esta opção nos tours de Uyuni e é algo que aconselho se for de alguma forma compatível com os planos do viajante. É simplesmente perfeito e a melhor forma de sair da Bolívia.

Tomamos o pequeno-almoço em silêncio. É demasiado cedo para grandes conversas. O Paco começa a acomodar as mochilas no tejadilho da viatura. E a chuva aparece, fazendo o trabalho mais difícil. Vou dar uma mãozinha para lhe poupar algum tempo extra à chuva.

Vamos a caminho. O meu corpo está perto do limite razoável no que toca à exposição à rarefacção de oxigénio em altitude. Felizmente hoje dormirei muito mais baixo. San Pedro de Atacama encontra-se a 2,400 m de altitude, o que para mim neste momento é quase equivalente ao nível do mal.

O Paco tem várias coisas para mostrar esta manhã mas tal como eu a dinâmica do grupo não está no seu melhor e sinto que as pessoas querem é seguir viagem, regressar.

Há uns geysers, onde chegamos ainda muito cedo: 6:15 da manhã. O sol acabou de nascer. Está um frio cortante. De volta das núvens de vapor vêem-se os vultos de outros viajantes. Nós dispensamos. Alguém do grupo vai lá num instante e regressa. Outros, como eu, nem saem do carro. Já vi geysers mais impressionantes noutros lados, não preciso deste desconforto adicional.  Estamos neste momento no pico de altitude. Deste dia, desta tour e da minha viagem na América do Sul: acima dos 5.000 metros.

Continuamos a avançar rumo à fronteira. As paisagens aqui são magníficas, talvez mais espectaculares do que as que vimos na véspera. Infelizmente o Paco tem o tempo para gerir e vai a abrir. O principal problema sou eu: tenho que passar a fronteira a determinada hora, caso contrário o transfer chileno arranca sem mim e fico apeado. A empresa é responsável pelo serviço, mas creio que não teria problema em encontrar uma solução no local.

O que vejo é tão bonito que peço mesmo ao Paco para parar uns segundos que seja. Foi uma excelente ideia, e o resto do pessoal agradece-me a iniciativa. De facto estamos num dos pontos mais bonitos desta viagem. Há uma lago, o sol está baixo, inundando tudo com uma luz alaranjada parcialmente filtrada pelas nuvens. Vêem-se flamingos e, por detrás, mais uma cordilheira.

Daqui para a frente acabaram-se as paragens improvisadas, para grande pena minha. Apenas vamos a uma lagoa, mais uma, que dispensaria. Esta manhã foi diferente: na véspera e sobretudo no primeiro dia havia pessoas à vista. Por vezes muitas. Mas hoje há um verdadeiro sentir de deserto. Não se vê vivalma. Só nós e a natureza.

Passamos junto a outra lagoa. Ali existe um casario com vários abrigos para pernoitar e no local há uma das atracções desta região, os banhos quentes em águas termais junto ao lago.

Supostamente a experiência faz parte do tour, paga à parte. Mas hoje é diferente porque temos que chegar à fronteira a tempo. O Paco promete ao grupo que no regresso terão oportunidade de parar e descontrair na água quentinha. Não acredito que tenha acontecido. Não vi ninguém verdadeiramente excitado com a ideia e o tempo será muito apertado para eles.

Chegamos à fronteira perto das oito. A tempo, mas convém que não haja demoras. Vejo uma fila no controle de passaportes para sair da Bolívia. O Paco também a vê. Pede-me o passaporte e entra. Sai passado dois minutos com o devido carimbo. Quem tem conhecimentos…..

Há um certo sentido de urgência. Enquanto esperava pelo passaporte dei o equivalente a 10 Euros aos colombianos. A minha parte na gratificação para o Paco. Despeço-me agora deles. O Paco vem na nossa direcção com o meu passaporte, ando ao seu encontro, um abraço, digo-lhe que deixei uma pequena “propina” com os outros, ele agradece. É um adeus.

No parque de estacionamento está uma moderna carrinha. É a minha. Passa-se esta fronteira e parece se muda de mundo.

O condutor chileno está impecavelmente vestido, em conformidade com a sua viatura. Temos que esperar por outros passageiros. Afinal não era preciso tanta preocupação. Ao contrário do que o Paco – que claramente não morria de amores pelos chilenos – disse, eles esperam.

A carrinha vai cheia. A maioria dos passageiros são turistas chilenos de aspecto europeu que regressam de viagem. Um deles vai muito mau com o mal da altitude. Entrou como se estivesse para morrer. Até pensei que tinha um problema de saúde mais agudo. Suspirava, gemia e retorcia-se, talvez uma apendicite. Mas não. Fui ouvindo as conversas e era só a altitude. De tal forma que a meio da curta viagem até San Pedro já estava curado.

Arrancamos para parar no controle chileno. De novo, parece outro país. Sem juízo de valor, muda-se daquilo que geralmente associamos ao chamado Terceiro Mundo para o que consideramos um país desenvolvido. No equipamento, no aspecto dos funcionários, das instalações. A estrada passou a ser de um asfalto impecável e o trato dos guardas de fronteira é profissional e educado. Dou-lhes as maçãs que levava, que já sabia que não poderia entrar, e pedem-me muita desculpa e explicam a razão.

Estamos todos, podemos seguir. Até San Pedro de Atacama há um ambiente jovial na carrinha. De pessoas que regressam a casa. Sinto-me aliviado. A altitude ficou para trás e não voltará. Estou curioso com esta nova página da viagem e o dia está sorridente, com um bonito céu azul.

Tudo continua a correr de forma agradável: a carrinha deixa as pessoas onde precisam e a mim à porta do hostel marcado. Lá, sou recebido por uma brasileira simpática. O meu quarto ainda não está pronto. Aliás, a cama de dormitório. Mas ela vai pedir para se dar prioridade e em breve me poderei instalar.

O hostel foi bem escolhido. Muito agradável! Posada Atacameña. Altamente recomendado para quem gosta de hostéis e vai passar por San Pedro de Atacama. Uma decoração colorida, inspirada na tradição local, com espaços exteriores agradáveis, incluindo um par de redes e uma torre de observação de onde se vê toda a povoação e as belas montanhas envolventes.

Descansei. Descansei muito e bem. Este era mesmo o local que precisava depois da tour intensa. Fui conhecer a povoação. É uma cidade, ou aldeia, feia e interessante. Uma típica vila de deserto. Hoje em dia, San Pedro de Atacama é turismo e apenas isso. E no momento que escrevo este texto penso nos efeitos devastadores do COVID-19 em locais como este.

Passo na praça central, vejo uma bonita igreja. Há aqui tudo o que se possa precisar. Pequenos supermercados, cafés, restaurantes, câmbios. Uma maravilha. Troco dinheiro com uma bela taxa, vou à farmácia comprar gotas para aliviar a vermelhidão dos olhos e um baton para os lábios gretados do vento e sal a que fui exposto nos dias anteriores. E visito um supermercado onde me delicio a comprar queijo, salame, iogurtes, pão.

Como vou estar apenas um par de dias no Chile tenho que ser comedido na gestão do dinheiro. Especialmente porque tudo é caríssimo. San Pedro de Atacama, tal como Uyuni, no lado boliviano, tem preços verdadeiramente para turistas. E não há como escapar, simplesmente não existem opções. As pessoas locais ganham bem, pagam bem. Ou ganham mal e vivem muito mal.

Visitei o cemitério. Interessante. E vi o quartel de bombeiros, perto do meu hostel, com um bonito mural onde se vê um bombeiro com uma atitude de protecção em relação à comunidade que segue na sua vida quotidiana.

Comprei alguma fruta num mercado ali próximo, com preços mais dentro do normal. Sinto-me muito bem. Acabei de passar por uma das experiência mais marcantes da minha vida de viajante e agora descanso e carrego baterias num local que parece traçado para cumprir exactamente essa função.

 

 

 

 

 

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