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África 2017 – Dia 2 – Bissau

A noite foi complicada, dormi mal, por várias razões: o meu anfitrião, com quem partilhei a cama, porque simplesmente ele vive num quarto onde cabe uma um colchão, ressonou, deu pontapés e teve uma relação estranha com os lençóis, por vezes abanando-os até à loucura, e isto, durante o sono. Além disso, ali perto houve festa pela noite dentro. Acordei por diversas vezes com o som incessante dos batuques. Por fim, alguma bicharada andou pelo quarto, chamemos-lhes baratas, chamemos-lhe ratos. Faziam barulho e pensei que se estavam a banquetear com os meus queridos mantimentos, mas afinal de manhã estava tudo intacto.

E quando acordei de forma final, a pontos de abrir os olhos e despertar para o dia, o Minervino já ali andava, de boxers, a aprontar-se para um banho na casa de banho comunal, ao fim da rua.

As pessoas passam na rua de terra batida. Os bácoros também. E mais pessoas. Aparece a filha do meu amigo, que vai para a escola.  Na véspera tinha passado por tudo isto, mas era uma comunidade que dormia, apesar de não ser especialmente tarde. Agora as gentes vivem, despertam para mais um dia. O Minervino vai para o trabalho, e vou com ele. Espero que acabe o seu banho, que se vista, enquanto eu junto as minhas poucas coisas.

Vamos para a estrada, esperamos pelo Toca-Toca, a carrinha que faz de transporte público em Bissau. A passagem custa 100 CFA, o que são 0,15 Euros. Chega uma, há um atroplelo para entrar, tudo ao molho e fé em deus, como se dizia quanto era puto. Entro, e o Minervino também. O ajudante dá-me o lugar dele. Vou sentado ao lado de uma mulher volumosa, que claramente me toca lascivamente  com as pernas, sem necessidade nenhuma… assédio mesmo.  Aconteceu-me uma vez em Marrocos. E agora.

O caminho é longo, fazemos talvez uns 7 ou 8 km até chegar à área onde ele trabalha. Vamos lá, apresenta-me a toda a gente, inclusive ao gerente, que é do Senegal.  Como, suspeito, quase toda a gente que ali trabalha. No som da empresa estão a passar segmentos do Corão. O gerente faz câmbio, até a uma boa taxa, quase ao nível do XE.com. Maravilha. Estou despachado de uma das coisas a fazer. Agora a seguir é arranjar um cartão para o telemóvel.

O Minervino chama um moço de recados que está ali fora, dá-lhe as instruções: é para me meter num táxi para a MTN, a operadora de telecomunicações estatal, e não pagar mais de 200 Francos. Afinal até podia ter ido a pé, são umas poucas centenas de metros. Mas sou bem mandado e fico ali à espera que chegue o Minervino na sua mota de distribuição, com a qual bate supermercados e lojas de Bissau distribuindo os pacotes de leite Mimosa que os senegaleses importam para Bissau.

Espero e espero. Felizmente a sombra está boa. Já penso que se ele não aparecer em breve vou tratar do assunto sozinho. Mas ele aparece e com todo o vagar do mundo, aquilo a que em São Tomé se chama de “leve leve” tratamos de comprar o meu cartão e de lhe adicionar dados móveis. Tudo junto, com um generoso gigabyte de dados, fica a brincadeira por 6 Euros.

Ele vai para o trabalho e eu vou explorar a cidade. Ando, vejo um cortejo VIP, que aqui em Bissau significa diversos camiões abertos com militares e polícias de choque, armados até aos dentes. E mais jipes, e motas com batedores, não sei quantos carros com as altas individualidades, e quando acaba nem sei se os consegui contar todos, mas foram para cima das dez viaturas.

Chego a uma praça onde está um monumento encimado por uma estrela e o palácio presidencial que como vim a saber mais tarde é o mesmo que foi devastado por um dos golpes de Estado que aqui aconteceram mas que já foi restaurado. E eu que esperava poder meter o nariz nas salas bombardeadas e afinal…

E é quando ali chego que me apercebo que afinal a minha Internet não está a funcionar, e toca de andar para trás oitocentos. Os moços da MTN são cinco estrelas, logo um toma conta da situação, vai trabalhando no meu telefone, parece ser um parto  difícil, pela cara dele, que ora sorri, ora carrega no semblante, mas passados uns cinco minutos devolve-me o telefone a funcionar como deve ser.

Refaço o caminho, e dali sigo até ao centro histórico de Bissau. São ruas perpendiculares a paralelas, casas antigas, coloniais, sei lá, dos anos 50, 60, 70, algumas mais antigas, e como sempre, isto toca-me profundamente, imagino o mundo português de então, o mundo para o qual nasci e no qual passei os primeiros anos de vida.

 

Algumas destas casas albergam agora escritórios ou lojas, outros, estão completamente abandonados, parecem estar assim desde que o PAIGC ganhou a independência, provavelmente nunca mais ninguém neles entrou.

Ando por ali, perto do forte que até hoje é ocupado pelo exército, e passo junto a um pequeno mercado. É o porto, vejo um edifício que deveria ter sido a capitania e sinto saudade em nome de todos os meus compatriotas que sentem saudade daquilo, das memórias perdidas no tempo, dos momentos felizes passados por ali por tantos portugueses.

Um guineense, relativamente jovem, alto, impecavelmente vestido, mete conversa comigo, pergunta se sou fotógrafo profissional, impressionado  com a minha Nikon. Digo  que não, fotógrafo sim, mas amador. Se lhe posso fazer um postal. Posso pois. Dá-me o endereço de e-mail para que lhe envie a foto mais tarde. Já antes um moço adulto me tinha pedido para lhe  retirar o retrato. Há várias pessoas que me falam, só por falar. Isto está a correr bem.

Agora vou para um café-restaurante, delicio-me com uma Super Bock de meio litro, um fenómeno que nunca vi em Portugal. Vem uma tosta mista e outra cerveja grande. Aproveito para carregar os meus dispositivos, o que em Bissau vai ser complicado porque o meu anfitrião não tem electricidade. Estou ali um bom bocado. Está fresco ali. Na televisão a CNN fala de um golpe de Estado no Zimbabwe, mas depois já está a dar a RTP África com notícias de Portugal.

O Minervino vem ter comigo na sua hora de almoço, aparece ali mesmo, no Ta-Mar. Bebe um Sumol, conversamos um pouco e depois vamos ao cais recolher informações sobre os barcos para Bolama e para os Bijagós. Estão ali embarcações que devem ter sido deixadas para trás pela Marinha Portuguesa e regressa-me aquela saudade por procuração, ainda para mais estando agora a Marinha envolvida, uma instituição que fez parte da minha vida durante tanto tempo, e quantas pessoas que pisaram este cais eu conheci naquela fase…

Ele regressa ao trabalho e eu caminho mais um pouco. Não muito. Chego ao Largo Che Guevara, encontro uma esplanada e abanco-me com uma Coca-Cola. Fico ali a passar tempo. Sei lá, acho que já vi o que havia para ver em Bisssau. Não de uma forma literal, claro. Há sempre mais uma rua para percorrer, mas sinto que estou de contas feitas com a exploração da cidade. Parece-me maior que São Tomé mas tão limitada como esta.

Vou ter com o Minervino ao trabalho, estamos por ali um bocado, ele compra-me melancia, e alguns petiscos locais, o meu telefone fica um pouco à carga e depois apanhamos o toca-toca para casa. Uma viagem longa e excitante por causa das imediações pitorescas e da engarrafada hora de ponta.

Recebo uma visita guiada a esta parte da comunidade de São Paulo. O Minervino parece conhecer toda a gente, sou apresentada à extensa família, que vamos encontrando dispersa pelas ruas e depois mais concentrada junto à casa do pai dele.

Depois, tomo uma espécie de banho às escuras, apenas com uma lanterna pendurada, simples mas eficientes: duas conchas de água no pelo, ensaboar, duas conchas de água para enxaguar, secar e vestir. O meu amigo foi ter com a namorada ao serão e fiquei em casa a descansar.

Passado um bocado regressou, com ela, uma moça de 25 anos que estudou em Dakar e perdeu o contacto com a língua portuguesa, segundo me contou.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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