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América Latina 2016 – Dia 5 – Da Cidade do Panamá até David

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Este foi um dia, digamos, meio morto. Estava destinado para trânsito, a ideia era fazer metade do caminho até San José, capital da Costa Rica, onde o meu amigo Edward me esperava para me dar um lar durante alguns dias. Não é um trajecto simples, pela sua extensão. Há quem simplesmente invista numa passagem aérea e, tendo-se sorte, a despesa não é assim tão grande. Talvez uns 120 Euros.

Mas para o comum dos mortais, para o viajante baratuxo, como é aqui o caso, o autocarro é a resposta natural,  mas uma resposta morosa e desconfortável. Já na área de escolhas rodoviárias existem algumas companhias a oferecer a ligação, sendo que a mais popular entre os viajantes ocidentais é a Tica Bus, uma empresa costa-riquenha que está presente em quase todos os países da América Central e que torna as coisas mais simples… por um preço… que nunca paguei nestes meses que andei pela região.

Além do valor que considero exagero, a ligação directa entre Cidade do Panamá e San José tem outro problema: a sua extensão. São para cima de dez horas no autocarro e preferi evitar isso. Decidi então fazer uma paragem sensivelmente a meio caminho, em David, uma pequena cidade panamiana com poucos motivos de interesse para além de… bem… de ser uma cidade comum, o que por si é algo interessante.

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Na realidade ponderei explorar um pouco a área. Não muito longe existem belos parques naturais e havia um couchsurfer a fazer trabalho de voluntariado com uma tribo índia. Mas para chegar até ele era preciso tomar uma série de transportes, cada vez mais precários à medida que se afundavam no Panamá profundo. E quando o último me deixasse já perto do destino, seguir-se-ia ainda uma caminhada que levaria metade de um dia. Tudo super interessante, mas o projecto pedia-me uma quantidade de tempo que eu não estava preparado para dispensar no contexto.

Mas vamos regressar ao principio. Ao acordar no hostel, no centro histórico da Cidade do Panamá. Despertámos bem cedo, decididos a passear naquelas ruas antes do início da confusão da manhã. As luzes da via pública ainda estavam acessas e havia uma neblina alta que banhava os quarteirões com uma luz difusa e triste.

Esta segunda pincelada não melhorou muito a impressão que tinha guardado dos dias anteriores. O centro histórico da Cidade do Panamá não é especialmente interessante. Para mim. Aquela mistura entre edifícios antigos e modernidade não me cai bem. Demasiados carros, por todo o lado. Mesmo de manhã cedo… apesar de parqueados estão lá. Há demasiado a acontecer por ali. Penso por uns instantes em Havana Velha. É mais ou menos isso, mas não tão pobre. É algo artificial, com um sabor a novo que não joga com o que se espera de um núcleo histórico de passado colonial.

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Andámos pelas ruas desertas até chegar a hora do pequeno-almoço lá no hostel. Não se vai desperdiçar uma refeição gratuita. Apesar de espartana, como viria a descobrir. Pão, compota, bananas e sumo artificial. A variedade não é muita mas dá para encher o depósito antes da viagem.

Caminhámos pela última vez pelo passeio marítimo, esse passeio que me marcou, que ficou na memória, que reencontrei mais tarde, no fim desta grande viagem e que anos mais tarde ainda me encheria de saudade. Não era a forma mais rápida de chegar ao terminal de autocarros, mas era o mais certinho, andando por zonas que já conhecemos. Foi um daqueles momentos em que o coração diz adeus a um sítio onde fomos felizes. Sabia que voltaria, mas mesmo assim tentei absorver cada pedaço daquele passeio marítimo, cada segundo daquela pequena caminhada.

 

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O metro levou-nos a Albrook e depois de umas compras de abastecimentos para a viagem, estamos a caminho. Serão horas sem grande história. Chegaremos a David já noite cerrada. Lá, no terminal, deverão estar os nossos anfitriões AirBnB. E estavam. Ainda houve tempo para um pequeno susto porque não os avistei logo, e de facto não gosto de chegar a uma terra desconhecida à noite e sem ter alojamento definido.

Mas afinal estavam lá. A bonita e simpática Jennifer e o namorado, um italiano que tinha conhecido quando ele viajava pela América Central e que por ali ficou. O quarto era excelente, foi bom ter escolhido esta opção para passar a noite. Mais do que a boa recepção e as condições, o que ficou na memória foi o jantar. Aquilo foi como fazer Couchsurfing, só que pagando. Perguntaram-nos se estávamos cansados ou se queríamos ir jantar fora com eles.

Não como dizer de outra forma: foi uma “ganda jantarada”. Uma tasca local, num bairro dos subúrbios, com um ambiente fantásticos e uma companhia ainda melhor… foram horas a comer, beber e conversar. A comida não foi o “highlight” do jantar. Aquilo era mais especializado em coisas do mar, de que não sou grande apreciador… comi o que havia, um prato com alguma carne e acompanhamentos. Mas quando o serão acabou, tinha-se formado ali outra das grandes memórias desta viagem. Se existisse uma caixinha com compartimentos onde se arrumassem os melhores momentos de determinada viagem, este jantar com a Jenny e o Roberto teriam direito a um desses espacinhos.

 

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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