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Ásia 2017 – Dia 55 – Bali (Kuta e Padang Bai)

O dia começou com uma premência dupla: não só queria sair rapidamente de Kuta como precisava de o fazer, porque não tinha a certeza de como alcançar Padang Bai, apesar da pesquisa feita indicar que não seria demasiado complicado. Mas para o conseguir teria primeiro que descobrir os escritórios da Perama, uma empresa de transportes vocacionada para turistas.

Preciso de explicar: os transportes públicos na Indonésia são um problema. As pessoas simplesmente não os usam e não precisam deles. Toda a gente tem uma motinha, é quase como um telemóvel. Isto sucedeu com a melhoria das condições de vida material e de repente deixou de haver razão de ser para autocarros. Para quem visita, tornou-se complicado. E é aqui que entra a Perama, uma empresa sobre a qual só tenho coisas boas a dizer e que está presente nas principais ilhas indonésias, assegurando as ligações que tanta falta fazem a quem anda pela estrada de mochila às costas.

Portanto, logo pela manhã cedo, pegar na tralha e  começar a procura. Tinha tirado as coordenadas para o GPS mas sem certeza alguma e se o escritório não estivesse lá, estaria em maus lençóis, subitamente sem saber como chegar a Padang Bai. Ainda foi uma boa caminhada. Saído do bairro relativamente pacato onde dormi, logo encontrei as estradas ladeadas de bares e restaurantes para ocidentais. E era assim por todo o lado. Quilómetros daquilo.

A coisa boa desta primeira hora da minha vida em Bali foi que encontrei mesmo a Perama no ponto esperado e que comprei com facilidade um bilhete para Padang Bai. Havia várias partidas, creio que 3, todas antes do almoço. Como ainda era cedo, comprei para o final da manhã, mas não para a última saída. Assim teria tempo de dar uma volta e ver se havia salvação para Kuta e no caso de algo correr mal ainda teria uma possibilidade de apanhar o último transporte.

Não, Kuta não tem salvação. É um lugar horrível, cheio de estrangeiros, bares, restaurantes, pensões, hostéis e hotéis, agências de turismo e tudo o mais que exista para satisfazer as necessidades de quem quer praia mas faz questão de se sentir em casa. Andei por ali, sentei-me um bocado na areia da praia, que foi afinal o único bocadinho minimamente interessante, e fui andando para a Perama, ainda com algum tempo para gastar. Sentar-me numa loja de conveniência a beber uma Cola-Cola até chegar um grupo de ingleses daqueles que enxameiam Albufeira em Agosto.

A Perama era umas portas a seguir e lá estava o meu transporte para Padang Bai. Pessoal simpático e eficiente, tudo claro e bem orientado. A carrinha ia quase vazia. Eu e outro passageiro. Uma viagem com pouca história, sem grandes vistas para seguir pela janela. Em determinada povoação chegámos a uma base Perama, o outro tipo saiu e fiquei sozinho uns quinze minutos. Depois seguimos e recolhemos mais duas passageiros. Uma alemã já com uns sessenta anos que vinha à Indonésia uma quantidade indecente de vezes por ano e uma jovem francesa que vinha em busca de si própria. Hey! Isto não sou eu a inventar, foram elas que contaram. Aliás, quando chegámos ao destino, já tinha ouvido muito e já tinha dado conselhos e dicas. Às duas.

A carrinha da Perama teve a boa ideia de parar a 200 metros do hostel. Tinha descoberto o Bamboo Paradise há uns meses, logo nos primeiros tempos da preparação desta viagem e foi uma das razões que me fez escolher Padang Bai como o local da minha curta estadia em Bali. Na realidade chegava com tudo em aberto. Nesta altura da viagem estava muita coisa por decidir, especialmente se ia ficar uns dias às Gilis Islands ou não.

Pendia entre uma certa aversão a gastar tempo num ambiente de praia e o interesse nuns dias sem fazer mais nada a não ser trabalhar, que me faziam falta. E tinha dúvidas sobre como correria… estaria demasiada gente? De qualquer forma, de Bali só se atinge as Gilis com lanchas rápidas que custam algum dinheiro. Não, a ir para as Gilis iria na ligação regular, de “carrreira”, digamos assim, que partia da ilha vizinha de Lombok. Por isso, para já não precisava ainda de tomar uma decisão. A única coisa que era preciso definir seria se ficava mais uma noite por Padang Bai ou não.

Tinha lido que o trilho para a praia “da areia branca” começava mesmo ao lado do hostel, confirmei com o pessoal e lá fui.

De facto assim era.  A entrada não podia ser mais insuspeita. Um caminhozito que estava barrado por uma cancela com aspecto de já ter visto muita coisa, enferrujada e retorcida. Fiquei ali a olhar para aquilo. Não podia ser, mas por outro lado só podia ser. Em frente, uma loja, e alguém que me confirma com um aceno de cabeça. Adiante, é por ali sim senhora!

Delicioso trilho, a fazer-me lembrar as idas à praia da minha infância, na área de Ribamar, Ericeira. Passo em frente a duas vacas, depois interno-me na floresta verde, sempre a descer agora e já se sente o mar. Passa por mim uma moça local com uma scooter, um feito a assinalar considerando que estou a caminhar num trilho de cabras com pouco mais de um metro de largura e pedras soltas de todos os tamanhos a servir de piso.

E por fim a tal praia. Alguns turistas um par de restaurantes de praia, tudo muito paradisíaco. Mas não para mim, tenho esta incapacidade de me fascinar por praias. Quer dizer, incapacidade não, que me fascino pelas de São Tomé e Princípe, mas tenho uma fasquia muito alta. Gostei do passeio até ali, e de ver a praia, mas é algo que só me interessa por breves instantes. E naquele momento percebo que não vou às Gilis. Simplesmente não é para mim. Não neste momento, não em Bali.

Volto pelo mesmo caminho, tão agradável como à vinda. Faço uso de um mapa fotocopiado e vou em busca de templos. Como a menina do hostel disse, “templos é o que não falta por aí”.  O primeiro é logo ali ao fundo da rua. É aquilo, o templo indonésio que morava no meu imaginário. Quase. Preferia algo assim perdido no meio da selva e também gostaria que não chovesse nesse templo dos meus sonhos. Mas para já é o que se pode arranjar. Um templo que parece estar mais ou menos em obras de restauro, mas não naquele dia. À beira de uma rua onde passam scooters e pessoas a pé. E com alguma chuva para perturbar a minha fotografia. Ah! E também gostava que as estatuária no “meu” templo fosse de pedra talhada e não feita de cimento com formas obtidas por um molde. Mas é o que se pode arranjar e terá que servir.

Padang Bai cresceu a acompanhar uma baía, e não sei se o nome “Bai” será coincidência. Neste primeiro dia acho que percorri todas as ruas da aldeia. Não é uma aldeia em termos tradicionais. É uma pequena localidade com ares de cidade. O porto tem uma grande influência, é daqui que de hora a hora sai um ferry para Lombok, que tomarei quando chegar a hora da partida.


 
 

Existem muitos restaurantes, pequenas agências turísticas, negócios de mergulho. Mas nesta época está tudo a meio gás e o turismo não é agressivo. Não se está mal em Padang Bai. Ao longo da baía corre uma rua, uma simples rua, não uma avenida que é o que vem à ideia quando se pensa numa baía e numa marginal. Esta é pacata, as pessoas vão caminhando pelo asfalto invadido pela areia.

De um lado, pescadores, barracas de apoio aos barcos estendidos na praia, “restaurantes” improvisados onde se vai colocando na grelha o peixe para o almoço. Crianças nuas brincam na água, um homem transporta com o esforço um motor. Numas plataformas instaladas no areal, usadas pelas escolas de mergulho para briefings, há pessoas que aproveitam o esvaziamento circunstancial. Um par de namorados, um grupo de meninos com uma adulta.

Do outro lado da estrada é o turismo. Hostel, hotel, escola de mergulho, restaurante, restaurante, bar, escola de mergulho, restaurante. E caminho até ao fim da baía, que é o fim de Padang Bai. No dia seguinte verei o que há para além. Está decidido, ficarei mais uma noite por aqui.

Encontro o discreto cemitério que estava marcado no mapa. É um espaço ao abandono, com as campas semi-cobertas pela vegetação que não para de crescer. A um canto, um pequeno templo… ou será um mausoléu? Não sei, na realidade, não sinto necessidade de saber, acho que não é preciso compreender tudo. Fico satisfeito de poder ver.

Agora tenho fome, sento-me num dos tais restaurantes. É dia de um pequeno luxo, uma cerveja. É uma bebida cara na Indonésia, mas peço uma Bitang. Não se está nada mal.

O dia já vai relativamente longo, e como tenho noção de que estou num local pequeno, com opções reduzidas, não sinto necessidade de o estender muito mais. Tento apenas regressar por um caminho diferente, passo por um “canal” entre casas, com a largura suficiente para a passagem de uma scooter, e vou ter a uma rua movimentada.

Encontro mais um templo. Não há ninguém no espaço, tenho-o só para mim. Estes templos são mesmo fotogénicos! Disparo mais umas dezenas de fotos e vou caminhando de regresso ao hostel, uma agradável base, com um espaço comum apetecível, onde passarei um belo serão, com sumo de tamarindo e o computador ao colo, a escrever e a tentar colocar o trabalho em dia. Será por lá que janto, uma deliciosa panqueca de banana.

 

 

 

 

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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