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Ásia 2017 – Dia 58 – Lombok (Sengigi)

 

Tinha ouvido dizer que o pequeno-almoço podia ser tomado a partir das sete e meia, mas já passava dessa hora quando saltei o portão do hostel. Queria sair e não se via ninguém. De estômago vazio, saltei e pus-me a caminho.

As coisas foram fáceis. Vi um bemo passar, um segundo, cujo condutor olhou para mim e entretanto cheguei à paragem. Aqui em Lombok isso não interessa para nada. Os bemos páram onde se quiser, mas para começar quis tomar o pulso à coisa e observar um pouco antes.

Não demorou mais do que cinco minutos até se aproximar o terceiro bemo e pronto, depois de me entender com o condutor quanto ao destino, o “Pasar”, saltei para o compartimento dos passageiros e a caminho.

Demorámos uns quinze minutos a chegar e parámos mesmo em frente ao mercado. E que mercado! Do mais colorido e animado que já vi. Não são só ps produtos, variados, entre frutas exóticas e legumes desconhecidos, entre peixe fresco e carnes. É também e sobretudo a roupagem das mulheres, com os seus hijabs de tons vivos. A única coisa má é que é díficil tirar fotografias discretamente, e de caras está fora de questão.

Não sei se o mercado é grande, acho que não. É que depois de passar pelo recinto por onde entrei, cheguei a um ponto com um cheiro tão nauseabundo que tive que voltar para trás, com náuseas fortes. O lixo era mesmo pestilento! Não deu. Mas já estava satisfeito.

O próximo objectivo era visitar o cemitério chinês que tinha visto à beira da estrada, à chegada, vindo do porto. Caminhei durante cerca de um quilómetro junto à estrada, muito movimentada aquela hora. Estava-se bem.

Nunca tinha estado num cemitério chinês. Era tão colorido! Havia pessoas a cuidar da sua manutenção, a aparar as ervas, a concertar coisas. Andei pelas campas e o sol espreitou, potenciando as cores dos elementos decorativos das campas. Duas vacas pastavam, indiferentes à cerimónia devida ao local. Eu até tinha pensado em explorar o local de forma exaustiva, mas tal como aconteceu com o mercado, simplesmente senti que estava bem assim, que já tinha tido a minha dose adequada e vi uma estrada que parecia levar a uma aldeia e não resisti.

Fiz muito bem. Era de facto uma aldeia, e apesar de não ter nada de extraordinário gostei imensamente de a visitar por aqueles breves instantes que me levou a atravessá-la. Olhei para o GPS e vi que estava muito perto do mar. O local era claramente sede de uma comunidade piscatória e de facto quando cheguei à orla costeira lá estavam eles, os barcos e os pescadores.

No areal vagueavam animais: cabras, galinhas e até vacas. Logo a seguir, as embarcações, encalhadas firmemente na praia. Duas equipas de pescadores puxavam redes do mar, esperançosos de uma boa colheita de peixe.

Já que ali estava e não tinha nada para fazer fui caminhando pela praia, nas calmas. E assim segui, sem destino, até chegar a um ponto onde em época alta existe um restaurantezinho de praia, coisa para pessoas locais. Foi ali que encontrei uma estradinha que me levou de novo ao alcatrão.

Não precisei de caminhar muito na direcção de regresso para que parasse outro bemo. A bordo seguiam três senhoras que claramente tinham ido ao mercado. Em amena cavaqueira, com os seus hijabs tradicionais.

Como uma vez me aconteceu em Marrocos, o Corão e a tradição não impediram uma delas de se roçar de forma descarada em mim quando chegou o passageiro seguinte. Apesar de haver espaço para cinco pessoas em cada banco corrido, sendo três encontrou razão para se encostar a mim em todo o seu esplendor.

Foram saindo as senhoras, entraram duas meninas do liceu, também com roupa tradicional, em forma de uniforme escolar.

Tinha marcado no GPS um ponto com uma bonita vista para a costa e quando chegávamos pedi às meninas para carregarem no botão que transmite ordem de paragem ao condutor. Saltei para for a, paguei as 5.000 Rupiah que são regra de ordem nos bemos desta rota e apreciei por um bocado as vistas.

Pronto, assim que decidi prosseguir, lá apareceu um outro bemo e segui. Chegámos a Senggigi, o condutor fez um desvio para deixar um homem no acesso à praia, o que nos fez passar mesmo junto ao hostel, onde vi o pessoal já conhecido a tomar o pequeno-almoço ao balcão do bar. Mas eu agora queria ir até à praia seguinte.

O pobre condutor teve que lá ir só por mim. Ainda foram uns 5 km para cada lado e decidi dar-lhe mais 1.000 Rupiahs para compensar a despesa e o tempo.

A praia de Banksit não é nada de especial. Estava vazia. À sua beira existem uns resorts, igualmente vazios. Apenas num existiam clientes, que tomavam o pequeno-almoço na sua pomposa sala de refeições, encostada à praia, enquanto um segurança se assegurava de que ninguém de fora vinha interromper a ordem natural das coisas.

E acabei por voltar à estrada, sentando-me à sombra de uma frondosa árvore, pensando se agora que estava numa ponta relativamente remota seria mais díficil arranjar transporte. E foi, mas mesmo assim não demorou muito. Terei esperado uns dez minutos e já ia a caminho de “casa”.

Antes, uma paragem. Quero ir para Tetebatu. Quero mesmo. Um local que me chamou a atenção quando ainda estava em Portugal, uma aldeia no interior da ilha que acordou para o turismo e onde exixtem uma série de “homestays”. Mas as deslocações em Lombok são um problema. Fora aquelas rotas óbvias, servidas por bemos, só mesmo com táxis e carros privados e isso é um monte de dinheiro. Mas tinha feito a promessa na véspera: gastar o necessário para adoçar a minha estadia nos últimos dias de Indonésia.

Voltei ao escritório da Perama Bus e arranjei tudo com o funcionário: paguei por dois passageiros, o número mínimo para se fazer a viagem, na condição de que se aparecesse mais alguém, receberia de volta o dinheiro daquele lugar extra.

Foi um início de manhã em grande. Eram dez e meia e já tinha feito suficiente para me dar por satisfeito com o dia. Tomei o meu devido e merecido pequeno-almoço e relaxei.

E estava eu nas calmas a acabar a minha torrada com ovo estrelado quando, surpresa das surpresas, entra por ali adento o egípcio que era meu companheiro de quarto em Yoggiakarta. Que porreiro! Tinha-me parecido um tipo bem simpático e não demorou muito tempo até o desafiar para se me juntar na expedição a Tetebatu. Teria que ver, claro, que pensar, mudando os seus planos, que passavam por uma ida às Gilis e um par de dias em Bali.

Ali ao lado estava uma das pessoas do hostel que nos falou de um templo hindu não muito longe, até onde se podia caminhar. Mesmo ao pé da água. Pareceu bem e fomos, logo os dois, a ensaiar o espírito de equipa.

O passeio foi um pouco desconfortável. Ainda foram quase dois quilómetros e o calor estava a apertar. Mas lá chegámos, pagando uma “doação” para entrar no templo… OK, é um pequeno templo, com alguns altares e a atmosfera habitual, desta vez à beira do mar. Já para voltar não tornei a cair na ideia de caminhar. Esperar uns minutos por um bemo e pronto, de regresso ao hostel.

Não havia electricidade e sem ela ficou a cidade inteira durante umas nove horas. Na preguiça, entediado, decidi ir beber uma cerveja numa esplanada com vista agradável e encontrei o local perfeito: mesmo junto à areia da praia, uma enorme esplanada com mesas de madeira e cadeiras imponentes, onde encomendei uma cerveja grande, na condição de estar mesmo muito gelada. E não podia pedir mais, estava à temperatura perfeita, servida com um copo vindo do congelador e com um invólucro térmico a envolver a garrafa.

Deixei-me estar ali a ler, muito bem com tudo aquilo. Ainda pensei em encomendar outra, mas decidi por apenas regressar ao hostel, caminhando desta vez pela praia, vendo os pescadores metidos na água, por vezes até ao pescoço.

No hostel ainda não havia energia. Fiquei à conversa com o meu amigo egípcio e com uma viajante americana que era uma personalidade hilariante, a rainha do praguejamento.

De repente lembrei-me que se aproximava o pôr-do-sol. E a praia ali tão perto. Desafiei o meu amigo e lá fomos nós, mesmo a tempo para assistir a um belo espectáculo. As cores estavam fabulosas. É verdade que não estavam por lá muitas pessoas, mas ainda havia rapazes a saltar para a água a partir do pontão. Fizeram amizade com o egípcio, falavam árabe e ficaram à conversa enquanto eu continuava a fotografar o cenário.

Voltei à tasca da véspera, comi outra vez uma perna de frango com arroz e molho picante, parei no supermercado antes de regressar para me abastecer de guloseimas e recolhi-me.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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