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Balcãs ’11 – Dia 11 – Lushnje

9 de Outubro

Lá fora, a chuva continua a cair. Vai ser um dia calmo, sem grandes passeios. Passado um bocado pára de chover. Os meus companheiros estão com cara de quem vão ficar todo o dia na preguiça, e assim despeço-me e vou explorar a pequena cidade. O bairro onde estou é considerado degradado, mesmo segundo os liberais critérios albaneses. O meu anfitriao diz-me que a sua escolha espalha a incredulidade entre os amigos locais. Por ali ciranda uma fauna muito estranha, mas não sinto hostilidade no ar, nao considero que seja perigoso. Ao virar de uma esquina, dou de caras com um dos famosos bunkers de Hoxha. O ditador, a certo momento, desenvolveu uma obsessão pelos seus pequenos bunkers, semeando-os às dezenas de milhar pelo país. Já tinha avistado alguns, junto à estrada, mas agora é a primeira vez que vejo um destes “animais” de perto.

Lushnje é uma banal pequena cidade de província, e isso nota-se. As pessoas vestem-se de uma maneira diferente, o comércio é intenso mas artesanal. Aqui não há os contrastes de Tirana, está tudo nivelado, e por baixo. Encontrei o supermercado que o Kip me indicou, mas não encontrei nada de entusiasmante. Comprar alimentos é um pesadelo. Não existem verdadeiros supermercados, apenas estas pequenas coisas, sem variedade alguma. Tudo o que há para ver na cidade: o memorial aos guerrilheiros. Existe também um museu, mas está sempre fechado e de resto as legendas são apenas em albanês. Portanto, fui ao memorial. Atravessei a cidade de ponta a ponta em dez ou quinze minutos. E esta é a nona maior cidade do país. A chuva da véspera deixou as suas marcas. Está tudo enlameado e é preciso ter cuidado com a projecção de água que os carros que vão passando podem provocar.

Apesar da pobreza de Lushnje, não pense o leitor que não gostei dos dias ali passados. Tem um carácter genuino. Não há estrangeiros, e interrogo-me se eu, o Kip e o DeVaughn seremos os únicos na cidade naquele preciso momento. As pessoas olham para a câmara como se fosse uma arma de raios iónicos. Sem ela, como sou de tez escura, passo bem por local e ninguém repara em mim, mas quando a saco para fora, está o caldo entornado. É o pasmanço generalizado, o fitar de boca aberta, as cabeças que se viram para me seguir com o olhar.

No centro da cidade, sente-se ainda a presença de uma atmosfera socialista, com os elementos que se esperam: o monumento, o museu e o teatro, agora feito café. Também em Lushnje, embora de forma menos acentuada, os albaneses se entregam ao seu “giro”, ou seja, ao passeio higiénico de fim de tarde, quando as ruas das cidades se enchem de habitantes. Todos participam, e a multidão é imensa.

Consigo chegar ao memorial sem dificuldades. Afinal, aquilo não tem nada que saber. Afinal de contas Lushnje é uma avenida, cruzada por algumas perpendiculares, e pouco mais. Gostei. Ao contrário do que vi em Tirana, o cemitério tem alguma personalização. Existem imagens em algumas das campas, flores, pequenos detalhes que quebram a obsessão igualitária que se revela no memorial da capital. Como sempre, apesar de o espaço não interessar a ninguém, o jardim está impecavelmente cuidado, e quando visito um par de jardineiros por lá anda, a fazer o seu trabalho.


Em casa não encontro ninguém, mas os dois companheiros chegam pouco depois. Ficamos o resto do dia na ronha. Até que chega a hora de jantar. Atravessamos a cidade, andamos sem parar, com o Kip a dirigir as operações. Nem percebi muito bem onde vamos, mas se é para jantar acho óptimo. O tipo de comércio que vejo por ali não deixa de me impressionar…. há coisas tão básicas… existem pessoas aparentemente a sobreviver do produto da venda de um alguidar de romãs, a sua única fonte de riqueza. Uma lojinha vazia, onde mal se senta uma pessoa, e em frente, no passeio, uma bomba de gasolina, sem mais.

Quando o amigo Kip, na sua passada larga, se detêm, confirmo as minhas suspeitas: estamos no prédio ao lado do cemitério que visitei hoje à tarde depois de atravessar a cidade inteira. O jantar é pizza. É uma refeição, alimenta, mas não me alegra. Depois, descobrimos o caminho para um bar todo GT, no alto de uma colina, com vista excepctional sobre a cidade, que tinhamos visto cá de baixo. Bebemos dois raki cada um, antes de percebermos que querem fechar aquilo e estão só à espera que saiamos. O que fazer seguidamente? “Bem”, diz o Kip, “temos sempre um bar ao virar da minha esquina, onde o raki custa 50 Lek (0,35 Eur).” Então vamos lá embora!

Entramos, somos bem-vindos. Está lá um contacto do Kip, um albanês que fala inglês, mercê dos anos que passou a trabalhar em fábricas em Inglaterra. Aos 16 era guarda-redes da Selecção Nacional do seu escalão. Depois, decaiu, ficou a jogar no Lushnje, treinado, surpreendentemente pelo campeão do mundo, o argentino Mário Kempes, que lhe chamava “Pompidou” (guarda-redes argentino desse equipa de sonho que se sagrou campeã mundial). Depois, o dono não assumido do estaminé (quando lhes perguntamos de quem é aquilo, apontam os três uns para os outros), que só fala albanês, mas que entendo vagamente quando fala italiano. Mais tarde chega outro amigo, um pintas que esteve preso em Itália por tráfico de droga e depois, mais tarde, também na Albânia; este é algo hostil, não abertamente, mas dá para perceber que é um homem que não está bem. Entretanto vão entrando e saindo clientes do costume, que nos cumprimentam entusiasticamente. Um, está numa mesa ao lado. Vai-se-nos juntando aos poucos. Fico a saber que passou 32 anos na cadeia, por razões políticas. A primeira vez que visitou os calabouços do camarada Hoxha tinha apenas 12 anos. E voltou lá por mais duas ocasiões. Dizem-me que naqueles tempos, vestir calças de ganga, deixar crescer o cabelo ou a barba, era meio caminho para uma pena de prisão. Esse homem, bem mais velho, tem um ar abatido, gasto. Mas parece que passou os anos de detenção a aprender, e sabe coisas completamente incriveis, é uma enciclopédia andante. De Portugal, diz que tem as fronteiras terrestes mais antigas do mundo. E sabe muito mais. Foi uma noite espantosa, de copos, de gargalhadas, de comunicação cruzada: o Kip e o DeVaughne falam algum albanês, depois há o outro que fala inglês e traduz quando é preciso, E todos os albaneses desenrascam-se com italiano, que eu vou entendendo. Agora imagine-se a salganhada naquela mesa, há medida que os copos se iam enchendo e esvaziando. Sem dúvida uma das experiências mais marcantes de toda a viagem. Quando chegou a hora da despedida e tento pagar os seis copos de raki que bebi, só me aceitam o pagamento de dois. O resto, aparentemente, é oferta da casa. Uma noite em grande.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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