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Balcãs ’11 – Dia 2 – Salónica a Skopje

30 de Setembro

Despertar pelas nove horas. O dia lá fora sorri. Vai estar outra vez muito calor. O John leva-me a dar uma volta no seu carro, que já conhecia dos dias de Santorini. Mostra-me alguns segmentos da muralha bizantina. Na zona da torre principal aglomeram-se turistas, algo frustrados com o programa televisivo que ocupou a estrutura, vedando-a. Ninguém entra.

A paragem seguinte é mais interessante: um pedaço da omnipresente muralha que foi reforçada com os edíficios necessários para que ali fosse estabelecida uma prisão, desactivada por mim em finais do século XX. Uma exposição temporária de arte moderna econtra-se ali estabelecida, o que significa que há mais portas abertas do que é costume. Mas fica na memória a sensação angustiante de passar pelos portões da cadeia, que força sempre a pensar nos desgraçados que, merecida ou imerecidamente, os ultrapassaram outrora para sair sabe-se lá quando.


O meu amigo andou algo perdido o resto da manhã. Mostrar a sua cidade, vê-se, não é um dos seus pontos fortes. A desilusão com a Grécia poderá ser uma razão. Seja como for, errámos um pouco por Salónica. Um dos locais que ele me queria mostrar (e que eu queria ver) estava encerrado: uma antiga fábrica de moagem, reconvertida para espaço cultural, com um café (onde o John trabalhou há uns valentes anos) e espaços para concertos e exposições. Paciência. Seguimos para uma visita à irmã dele. Enquanto vou ao supermercado abastecer-me para a viagem de fim de tarde, ele vai dotando a mana com um computador apetrechado com todo o software que necessitarão para se manter em contacto nos seus dias australianos.

Regressamos a casa. Almoço! Preparamos grão cozido com alfazema, sobre o qual se derrete uma porção de queijo azul. O prato é reforçado com uma tarde salgada com que a amiga de ontem presenteou o John, e fazemos uma salada com alface, pedaços de pêra e ovo cozido. Para acompanhar, um vinhozito local, ao qual se vai juntar, já com o estômago cheio, um cálice de uma forte bebida cujo nome me escapou.


São três horas mas eu quero ver um pouco mais da cidade antes de a deixar, quiçá para sempre. Despedimo-nos e desço a pé até ao centro. Percorro as ruas da baixa, descobrindo uma Salónica que ainda não tinha conhecido, uma cidade de outros tempos, onde se sentem traços de um discreto cosmopolitismo. Muitas bares de decoração e conceito interessantes, mas vazios. Talvez a noite ali seja selvagem, mas à tarde um ou outro cliente, sobretudo raparigas, muitas delas estrangeiras. Pelo meio descubro muitas casas que outrora foram monumentais e hoje são mais ou menos ruínas.


Quando dou por mim estou a uns escassos duzentos metros da empresa de transportes que me levará até Skopje. Trato de comprar o bilhete. No edíficio defronte, o tribunal, um grande burburinho: vejo muita gente que no nosso país seria cigana; gritos e correrias, que vão e vêem; um carro arranca em alta velocidade com rapaziada mal encarada lá dentro; passado um bocado um homem é conduzido algemado para o interior do tribunal… e mais não vejo, porque descubro que existe uma rede wi-fi aberta, e sento-me no minibus entretido até à hora de partida.

A viagem, que poderia ser curta e confortável, arrasta-se numa infinidade de paragens para descanso, mas lá acabamos por chegar. Da estação de autocarros até casa do meu anfitrião Cocho são escassos dez minutos. Tinha uma pequena festa de recepção à minha espera, que incluia uma travessa com petiscos tradicionais variados.e a presença de uns amigos: Gordana, colega de trabalho; Natasha, amiga de longa data, que se vai mudar para Praga em Dezembro; Stefano, namorado de Natasha. O serão decorreu em tom agradável até ao momento em que Cocho, já não me lembro em que contexto, referiu que ao fim de dez anos o Kosovo não tinha conseguido construir instituições de Estado reais. Pronto, já ninguém conseguiu agarrar Stefano, que iniciou uma diatribe que só terminou com ameaças de violência enquanto se vestia para sair. Entre um concurso verbal para provar qual deles era mais macedónio, percebi que Stefano tinha raízes albanesas e Cocho tinha antepassados romenos.


O drama estava instalado. Natasha saiu de casa com o namorado, para telefonar passado uma hora dizendo que ia regressar para dormir. Cruzámo-nos na porta de entrada, porque entretanto tinhamos acabado com a rakia e iamos em demanda de reforços! A ideia era comprar uma garrafa e voltar, mas as coisas correram de forma diferente: experimentámos um par de bares antes de nos instalarmos de forma mais sólida num terceiro, onde conheci uma mão cheia de amigos do meu amigo; toda a gente de pé, na rua, em frente ao bar, num ambiente extremamente informal. Eram cinco da manhã quando regressámos e apesar das roncadas colossais do meu amigo que adormeceu instantaneamente, também eu me entreguei rapidamente ao sono.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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