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Canárias 2010: 16 de Janeiro, Fuertventura

 

Este dia não tem muito para ser descrito em palavras. A maior parte do tempo foi utilizado numa caminhada de 12 km através de cones vulcânicos, organizada pelo Tibor, em nossa honra, para a comunidade de Couchsurfing. Acordámos relativamente tarde e sem pressas. Tínhamos de estar às 11 horas no topo da torre sineira, no centro de Corralejo. Antes demos ainda uma volta pela feira de Domingo, sem grande entusiasmo: decididamente não suporto estar rodeado de turistas. Por mais interessantes que alguns produtos possam ser, cirandar por ali e só ouvir falar alemão e inglês é algo que me repele. De forma que apressei o passo e fui para o ponto de encontro mais cedo. Do topo da torre tem-se uma vista razoavelmente interessante da pequena cidade e do espaço envolvente. Mas estávamos ali para conhecer os outros: um par de polacos residentes na Escócia, uma espanhola de Madrid que ensina em Lanzarote, o Mark, que já tinhamos encontrado ontem e o Tibor e irmão. Iremos apanhar um autocarro até Lajares, onde se iniciará a marcha.

 

 

Os transportes públicos nas ilhas são como as estradas: modernos e agradáveis. O bilhete custa 2,20 Eur e o percurso dura uns 25 minutos. Notam-se desde logo diferenças na paisagem em relação a Lanzarote. Tem um toque africano, apimentado com sabores do deserto. Há palmeiras, o solo é árido, mas não pela influência vulcânica. Parece que estamos num Marrocos europeu.

 


 

O passeio inicia-se de forma caótica. Há que encontrar um trilho de “hiking” que avistamos ao longe mas do qual estamos separados por uma série de muros de pedra, que vamos ultrapassando, pacientemente. Andamos algumas centenas de metros pelo caminho demarcado, antes do Tibor ordenar o primeiro alto para algumas explicações sobre o meio envolvente. Ele trabalha na área do turismo e algo me diz que não é a primeira vez que faz isto. Não tem os conhecimentos profundos do mini-Nino, nem tal seria de esperar…. mas fornece-nos uma série de elementos interessantes.

 

 

Mais à frente inicia-se a subida suave para o ponto de observação de uma das raras crateras completamente intactas. Nisto avisto um esquilo. Depois outro, e mais outro. Os esquilos são uma praga por aqui. Teve piada quando pensámos ter visto um animal raro, mas quando chegamos ao topo somos cercados pelos pequenos roedores, bem acostumados a mendigar umas migalhas dos encantados turistas. Passam-nos por entre as pernas com total destemor. Para eles as pessoas não são um problema, mas o vento é. Assim que chega uma rajada mais forte, fogem num pânico controlado para os nichos mais próximos. Um, não tão lesto, é arrastado umas dezenas de centímetros, entre duas cambalhotas, e compreendo o medo instintivo que a bicharada tem do vento. Sem o devido cuidado, facilmente serão arrastados para o abismo, com consequências imprevisíveis.

 

 

Depois de uma pausa perto da plataforma de observação, descemos até aos abrigos de pastoreio que se encontram na planície, para um picnic e um descanso mais prolongado. Partilham-se petiscos e histórias, com muito bom-humor à mistura. Dai para a frente é caminhar. As condições são perfeitas. Céu limpo, temperatura amena, piso regular e plano. Isto até que o Tibor pára e lança o desafio: subimos ou não até ao topo do Corralejo, o cone vulcânico mais alto, que se ergue, sobranceiro, sobre a cidade com o mesmo nome. Alguém aceita e todos começamos a trepar. A primeira fase é relativamente simples, mas depois de se passar a plataforma iniciar a inclinação acentua-se e o silêncio cai sobre o grupo. Dezenas de metros abrem-se entre cada elemento, e todos marcham concentrados, atentos às pedras soltas e à gestão da respiração.

 

 

Enfim o cume. São uns meros 275 metros, mas feitos quase a pique, e com a planície envolvente fica a ideia que estamos no topo do mundo. Ficamos por ali a apreciar a vista e a recuperar energias durante um bom bocado. Quando descermos, já estaremos às portas de chegada. Será só caminhar mais um pouco e entrar na cidade. Mas descer é tão ou mais complicado que subir e três dos elementos do grupo vão de rabo ao chão. Sem consequências. Já quase às portas de Corralejo atravessamos um local bizarro, uma espécie de estaleiro de construção ou depósito de materiais. Lá vimos um autocarro alegórico semi-destruido, uma escavadora abandonada, cabras, um pequeno veleiro que serve de habitação a alguém e outras coisas curiosas.

Depois do esforço da marcha, a descontracção. Acabamos a reunião numa esplanada de praia, de volta de cervejas e petiscos Canários. Para o fim ficamos nós, o Tibor e o Markus (sim, o irmão dele). O sol já vai baixo, a luz dourada preenche os espaços. Mesmo assim algumas pessoas resistem ainda na praia defronte, onde mais cedo uns aprendizes de Windsurf tentavam os seus primeiros gestos técnicos.

 

 

Antes de ir para casa passamos pelo supermercado. Hoje cozinharei eu, as coisas costumeiras nestas ocasiões: feijoada e arroz doce. Convidamos os rapazes polacos, que participarão com uma sobremesa tipicamente inglesa. O serão é agradável, na varanda, à luz de velas, boa comida e bebida, conversa agradável. Mas estamos todos cansados do esforço do dia.

 

 

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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