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Canárias 2010: 17 de Janeiro, Fuertventura

 

Gostaria de ter saído cedo, com o longo dia adiante, mas não aconteceu. Chegar ao carro e ter a bateria descarregada não ajudou. Lição aprendida. Deverei parar de praguejar em relação aos avisos sonoros que marcam esquecimentos como abrir a porta com as luzes ligadas. Depois de quatro ou cinco telefonemas para a Orlando e de ser passado de um para outro número, chegamos à pessoa certa que expeditamente enviou para o local um técnico. A partir daí tudo encarrilou. Eficiência e rapidez e para além do carro a trabalhar o mecânico deixou-nos com informações sobre como entregar o carro à partida, no aeroporto: é só parquear o carro e enfiar as chaves na ranhura existente numa carrinha lá parada em permanência. Mais simples não podia ser. Adoro os processos lineares e simplificados desta empresa!

Deixado Corralejo para trás, conduzi pelo percurso que o autocarro que nos levou ao ponto de partida da caminhada da véspera fez, até chegar à Cueva del Llano. Foi o primeiro de vários locais encontrados encerrados neste dia. A Segunda-feira não é nada amiga do turista em Fuerteventura. Mas para o registo, fica a informação de que estamos a falar de uma magnífica gruta descoberta recentemente, mas que já tem montada toda a estrutura para uma vasta exploração comercial.

 

 

Próxima paragem: farol de Toston. É preciso ir à aldeia de Cotillo, à beira-mar plantada, para depois flectir para norte em direcção ao cabo onde se encontra o farol. Entre a localidade e a ponta, estende-se um vasto areal, cortado pelo asfalto onde o carro desliza, sempre rodeado do azul intenso deste mar de águas bonitas. Estamos na costa norte de Fuerteventura o que significa ondas revoltas, muita espuma à superfície do oceano e o cheiro oceânico que falta na calma metade sul. No farol funciona um museu da pesca, também ele fechado. Mas a visita é compensadora. Respiro fundo, encho os pulmões de ar fresco. Está-se bem. Regressamos a Cotillo, devagar, apreciando os detalhes da costa. Apesar das ondas altaneiras, há enseadas que cortam o vigor atlântico, criando zonas de praia paradisíacas. Como os turistas se acumulam noutras paragens da ilha, a ideia de passar aqui umas férias relaxantes assola-me. É ao ver este cenário que me interrogo se o mercado português está “a dormir”. Há pessoas a pagar fortunas para fazer praia em estâncias na Rep. Dominicana ou Cuba, quando por uma fracção do dinheiro se pode chegar a estas pérolas Canárias.

 


 

Num destes pontos paramos o carro. Ao longe, mesmo junto à água, um curioso conjunto de casas com contornos gaudianos chama-nos a atenção. Rodeamo-las, disparando algumas imagens, mas a fotografia não faz justiça às cores e aos detalhes arquitectónicos. É Janeiro e estamos numa das áreas menos turística mas mesmo assim há um razoável número de pessoas usufruindo da candura das areias, ali mesmo defronte. Agora é atravessar Cotillo, o que não é nada complicado, dadas as dimensões da localidade. Há que dar uma vista de olhos à fortificação que existe na sua extremidade norte. Chama-se Castillo de El Toston e o seu interior pode ser visitado, mesmo numa Segunda-feira, em troca de uma quantia. Não entrei, mas apreciei o ambiente. É um ponto alto, que oferece uma excelente perspectiva sobre a aldeia e sobre o mar que fustiga aquela costa. Entretanto, ali mesmo, resolvi um problema premente: tinha-me apercebido de que me havia esquecido de copiar o número de telefone da Cathy – a nossa anfitriã paras as três noites seguintes. Ora por milagre encontrei uma rede wi-fi aberta junto à torre. O sinal era instável mas com algumas tentativas identifiquei a origem: um café nas primeiras casas de Cotillo. Portanto, perderam-se ali alguns minutos mas resolveu-se a questão e ainda se deu uma vista de olhos geral no expediente.

 

 

Dali para a frente tomámos um caminho diferente. Já agora, aconselho um pequeno desvio para mirar de perto um belo moinho, que se avista do lado direito de quem sai de Cotillo. A estradita que leva até lá é por demais evidente e a sua detecção não levanta problemas.

Passámos por La Oliva, a antiga capital de Fuerteventura, em tempos onde a distância ao mar fazia a diferença entre segurança e risco, afastada o suficiente para que houvesse tempo de reacção perante o desembarque de piratas, que tantas vezes acossaram aquelas populações. Apesar de os guias turísticos apresentarem uma série de pontos de interesse na aldeia, não vi nada que cativasse durante a passagem, e assim segui caminho.

 

 

Em direcção a sul, uma agradável surpresa à beira da estrada: o museu etnográfico de La Alcogida! Oficialmente fechado à Segunda-feira, mas mesmo assim muito interessante. Trata-se de uma aldeia abandonada pelos habitantes originais feita entretanto museu. E o encerramento diário apenas nos facilitou as coisas, pois podemos percorrer, de forma legítima, as casas do aglomerado sem ninguém para estorvar e sem pagar bilhete. Suponho que num dia normal as portas estejam abertas e se possam visitar os interiores, mas por mim foi melhor assim. Sem dúvida um dos pontos altos do dia, e mesmo da estadia em Fuerteventura. Todas as casas são extremamente pitorescas, de traça variada, com detalhes deliciosos. E os painéis interpretativos lá estavam, a esclarecer e ajudar ao entendimento do que íamos vendo.

 

 

A partir daí internámo-nos na estrada de montanha, a cotas cada vez mais elevadas. A envolvência impressiona. Em todo o redor são montes e montes, a perder de vista, desnudos de vegetação, como um deserto em altitude, em tons de castanho. Estamos no centro da ilha, e o mar há muito que não se deixa ver. Em contrapartida, a paisagem é a de um outro planeta. A superfície destas encostas é rugosa. Algumas, poucas, de ângulo atenuado, mas a maioria de escarpas acentuadas, onde aqui e ali se dispersam rebanhos das omnipresentes cabras. Diz-se que há uns anos existiam umas dez cabras por cada humano na ilha. Hoje, apesar do “ratio” ter diminuído, as amigas caprinas são ainda uma constante. Num parque-miradouro uma “pickup” parada. Da cabine um pastor procura avistar  os seus animais, de binóculos em punho. No mesmo local, um par de espanhóis, continentais, está a acabar de arrumar o carro, e parte com um piquenique por um trilho sinuoso que conduz até a um pico das imediações.

 


 

Mesmo considerando a natureza remota destas paragens, o tapete de asfalto é imaculado. Estranho investimento, que se estende pelo veio da ilha, por poucos frequentado, e com características morfológicas que colocarão muitos zeros na cifra da construção e manutenção da estrada.

As palavras serão sempre curtas para descrever o impacto do que os olhos absorvem nesta rota. Nem as fotografias, valendo cada uma por mil, são suficientes. Só mesmo vivendo. Estando lá. E a progressão mantém-se com um “wow” a cada curva, de cada vez que o ângulo permite uma linha de vista aberta. Mais à frente uma estrada trepa até ao cume mais alto, mas está bloqueada. De novo, um miradouro vedado, com acesso mediante pagamento. No caso, nem com Euros, pois também este local é afectado pelo síndroma Segunda-feira. Um casal de meia-idade, talvez de alemães, deixou ali o carro e vai subindo a estrada a pé. Considero por momentos seguir-lhes o exemplo, mas o calor e a distância ainda considerável, aliados à necessidade de gerir o tempo, fazem-me desistir da empresa. Mesmo assim, é dali que se obtêm das melhores fotografias (a que encabeça este texto, por exemplo).

 

 

Logo a seguir, de surpresa, praticamente após a próxima curva, um miradouro para os pobres, onde uma multidão aprecia a paisagem. É o ponto das estátuas de bronze: duas figuras humanas representando os nativos originais da ilha, presentes antes da chegada dos castelhanos. Sem dúvida um lugar a não perder em qualquer visita a Fuerteventura.

E com isto aproximamo-nos de Betancuria, para a qual estaria reservado o prémio “Grande Decepção de Fuerteventura”. Todos nos falaram deste local, em tempos capital da ilha. O guia que comprei descrevia a aldeia como não tendo um canto que não fosse pitoresco. Lugar favorito da nossa próxima anfitrião e recomendado pelo Tibor. Talvez as expectativas fossem demasiado elevadas, mas quando chegámos, rodando devagar, de olhos muito abertos, o que vimos foi tão banal e desinteressante que nem parámos. Os turistas eram tantos que assustava. Umas quantas casas sem nada de especial, e, um pouco acima, a igreja. A evitar, na minha humilde opinião. Ou, pelo menos, a visitar com reservas.

 

 

Uns quilómetros mais à frente, depois de ultrapassar o troço mais sinuoso desta estrada única, fomos encontrar Pájara, uma aldeia também recomendada pelo Tibor, e que nos encantou bastante mais. Infelizmente a noite já caia quando conseguimos alcançar o local. Não avistámos a igreja sem telhado de que nos tinham falado. Parece que em determinado ano de míngua, os habitantes foram forçados a vender os materiais que ofereciam abrigo aos crentes, para conseguirem escasso alimento que lhes permitisse sobreviver a mais uma época complicada. Mas se não encontrámos tal local especial, vimos a outra igreja que trazíamos em mente: distingue-se pelo pórtico com elementos pré-colombianos em talha. Diz-se que terão sido fruto da criatividade de escravos trazidos da América. Mas seja por que razão for, é uma variante surpreendente num templo cristão. A aldeia estava calma. Mais tarde disseram-nos que Pájara se descaracterizou devido à visita intensiva de turistas. Não vi nada disso. Uns poucos habitantes andavam por ali, mas basicamente as ruas estavam desertas. Ficou a pena de já não haver tempo nem luz para explorar mais. E seguimos caminho, já com os olhos postos em Puerto Rosario, onde a Cathy nos esperava.

 

 

Foram cerca de 50 km em boa estrada, ultrapassados facilmente, com uma paragem em Antigua para observar o moinho agora transformado em museu. Claro que aquelas horas já se encontrava fechado, mas a boa iluminação instalada no local faz com que uma visita nocturna seja tão ou mais cativante do que a abordagem diurna.

Puerto Rosario foi a cidade mais vibrante que encontrámos durante a nossa expedição às Canárias. Tem uma identidade própria, não depende do turismo, e… pronto, é uma verdadeira cidade. Muito comércio, bulício, carros, tráfico. Pessoas. De todas as origens, numa miscelânea comunitária: há cubanos, colombianos, castelhanos, canários, brasileiros e outros, de minorias menores. Uma excelente base para qualquer visita à ilha, fruto da sua posição central.

Para trás, num dia longo, com alguns decepções mas com um balanço muito mas muito positivo, ficaram episódios por contar: como a incursão através de um valezinho repleto de uma vegetação quase amazónica, fruto do caudal de água que o invadirá a cada chuvada, e que culmina num reservatório que encontrámos bem cheio; ou o desvio feito, montanha acima, para visitar um parque de merendas remoto, sem vivalma, cuja existência enche o visitante de curiosidade; ou ainda a breve paragem em La Oliva para apreciar a interessante igreja que se ergue à beira-estrada; fica também a memória da “terra das palmeiras”, tantas as eram, que antecedeu a chegada ao tal pequeno vale anteriormente assinalado.

 

 

 

 

 

 

 

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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