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Coreia do Norte e China. Dia 6. Pyongyang. Outubro de 2019

O encontro ficou marcado para o lobby do hotel. E imaginem quem chegou atrasado, precisamente quatro minutos? Eu mesmo. Não sei o que se passou. Não é nada coisa minha. Tinha descido para vir ao pequeno-almoço, vi que era mais um pequeno-almoço à chinês, voltei ao quarto para recolher qualquer coisa para comer e pronto, foi o suficiente… inconvenientes de estar no 28º andar.

Mas pronto, para dentro do autocarro e vamos. Pelas ruas, olhos muito abertos, a absorver tudo. As pessoas, a cidade, a paisagem urbana.

Pyongyang é uma cidade muito mais normal do que pensava. Tem os seus monumentos fantásticos, mas dentro de um estilo ou de outro, qualquer grande cidade os tem. Terá subúrbios insalubres? Talvez. Durante os dois dias que a cruzámos incessantemente tudo o que vi foram prédios de qualidade variável, mas dentro de padrões aceitáveis. E que haja. Subúrbios insalubres. Não os há em Lisboa, Paris ou em quase todas as cidades norte-americanas?

As pessoas que vejo vestem-se bem, como que paradas no tempo, com um estilo anos 70, para aí. Ou 80. As meninas todas bem aprumadas, salto alto, roupa impecável. Os homens, na mesma linha, no correspondente estilo masculino. Na multidão há alguns cidadãos de aspecto mais humilde, camponês, na fisionomia e arranjos.

E é isto. Normalidade. Vejo o que veria em qualquer outra cidade. O quiosque de jornais, a venda de bebidas e comida. As paragens de autocarro e os carros que passam. Mas aí, sim, salta à vista que as viaturas ou são táxis ou carros de luxo que certamente estão associados ao Estado.

Uma curiosidade são os grupos de mulheres de uniforme que tocam tambor e dançam. Segundo a guia norte-coreana pertencem à Liga de Mulheres e encorajam os cidadãos que pela manhã se dirigem para o trabalho.

A primeira paragem é o Mausoléu dos Grandes Líderes. O local esteve encerrado aos turistas estrangeiros (alguém me diz que assim continua para os chineses) porque alguém publicou algures que tinha sido levado lá e obrigado a fazer vénias. O que não é propriamente verdade. Se vai, é natural que siga os preceitos de respeito instituído. Mas nunca ninguém lá foi obrigado. Enfim, pessoas complicadas.

Trata-se de um sítio sagrado para os norte-coreanos. Percorre-se o amplo espaço sempre com seriedade militar, as pessoas alinhadas, a 2 ou 4, conforme o segmento. O complexo foi construído inicialmente como palácio de trabalho para o dirigente supremo da nação e transformado posteriormente em mausoléu. As dimensões são avassaladoras, chegando-se, depois de percorrer longos corredores, a um salão dominado pela imagem dos grandes líderes.

Eventualmente passamos pela sala onde se encontram os restos mortais de um e de outro, visitando salas de exposição com objectos protocolares que lhes pertenceram.

No interior a fotografia não é permitida, como seria de esperar, mas temos alguns minutos para recolher imagens do exterior.

O passeio continua. Passamos junto ao monumental arco do triunfo coreano e a outros marcos comemorativos. Paramos para visitar um jardim com bonita estatuária e fontes. Dizem-nos que é um lugar muito apreciado para namorar. Um imponente edifício de design socialista ergue-se ali próximo. Tenho pena de não me poder aproximar para ver os painéis de mosaicos que decoram algumas das suas secções.

Segue-se outro ponto alto da visita, as estátuas gigantes dos grandes líderes. Espectacular. Por tudo. Pela grandiosidade do monumento, pelo ambiente que o envolve, pelo céu azul que lhe oferece cor neste dia.

Há uma multidão que flui, indo e vindo, especialmente em grupos. São casamentos. É costumário os noivos virem até aqui no grande dia. Tiro fotografias. Muitas. É muito inspirador, sobretudo para mim, sempre interessado nas temáticas e iconologia comunista, um interesse que nasceu na Guerra Fria de que bem me recordo.

De um e do outro lado das estátuas existem conjuntos de esculturas, versões socialistas do conceito que em Lisboa se pode ver no Padrão dos Descobrimentos.

À saída os nossos guias surpreendem-nos com gelados, bem saborosos e cremosos, por acaso. E segue-se o almoço. Faustoso, como quase todas as refeições tomados durante a tour. Muito boa disposição, certamente encorajada pela cerveja consumida a rodos.

Do restaurante a pé até ao autocarro, uma breve mas muito interessante caminhada, por se ter constituído como uma das poucas ocasiões em que podemos estar mais próximo das andanças quotidianas dos locais.

Para depois do almoço estava reservada a visita ao Museu da Guerra, incluindo o USS Pueblo, um navio-espião apresado pelos norte-coreanos no auge da Guerra Fria. Infelizmente também não é permitida a fotografia no interior das salas, mas sinceramente não me senti muito prejudicado. A visita foi fraquita, sendo guiada por uma jovem militar. Deu para experimentar os “sumos” de pêra e de maçã produzidos no país e que são refrigerantes bem agradáveis. Depois da visita, a nossa guia disse com satisfação:”Agora já sabem de quem foi a culpa da Guerra da Coreia. Finalmente”. Sim sim, concerteza.

Nem a parte exterior do museu foi vista em condições, e logo aí, onde a fotografia era permitida. Apenas uma passagem apressada pela ala onde estavam expostas peças capturadas. Do outro lado, onde se encontrava o material usado pelos norte-coreanos, não fomos. Enfim, uma visita fraquita e muito apressada. Valeu, mesmo assim. Tinha muita curiosidade em visitar o USS Pueblo, de que tanto tinha ouvido falar. O meu irmão falava sempre com muita excitação do incidente. E o exterior do complexo é monumental, valendo ainda pelo ambiente, com muitos grupos de estudantes e militares a convergirem para visitarem o seu museu.

O Nic fez render este dia a sério. Trabalho muito profissional deste nosso guia canadiano que contribuiu para amortecer, e muito, o corte forçado de um dia do tour na Coreia do Norte. E assim seguimos para uma escola onde as crianças mais dotadas aprendem e praticam todo o tipo de artes. Iria haver um espectáculo. E sabem que mais? Adormeci. A sério! E até era giro, mas foi mais forte que eu…. deu-me uma soneira.

Depois, fizemos uma visita pela escola, metendo o nariz em salas onde os estudantes praticavam as suas artes e ofícios. O dia chegava ao fim. Mas ainda havia mais!

Após o jantar, esplêndido, fomos para o estádio. Era dia de Jogos de Massas, um espectáculo de massas que encantou muito os meus companheiros de viagem, não tanto a mim. Não que fosse mais, mas estava à espera de mais. Até pelo preço, arrasador, de 100 Euros. Para os locais é gratuito. E depois, o estádio com muitos sectores encerrados, vazios. O espaço onde evoluíram os participantes também pouco preenchido, exceptuando um ou outro momento. E dos 90 minutos prometidos quase um terço foi ocupado por apenas dez bailarinos em actuação.

Creio que os jogos que se faziam em Praga na era comunista eram mais grandiosos, a encher o estádio de Strahov, na altura o maior do mundo, com capacidade para 120 mil pessoas. Mas pronto, fui, vi, houve momentos magníficos. Gostei especialmente das imagens formadas por painéis coloridos, manuseados por uma massa de dezenas de milhares de estudantes que ocupavam uma bancada inteira do estádio.

E com muita animação recolheu o grupo ao hotel, onde apesar do agendado iniciar matutino para o dia seguinte houve ainda tempo para uma cerveja no “beer garden”ali defronte.

 

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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