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Cuba – Dia 13 – Havana

23 de Dezembro

Há muitos meses, quando a viagem começou a ser preparada, houve algo que chamou a atenção: o comboio Hershey. Trata-se de um comboio eléctrico que liga Casablanca, um subúrbio de Havana localizado na outra margem da baía do porto, a Matanzas. É uma viagem pictoresca, que leva horas, e que era apontada como algo a fazer para quem queria experimentar um comboio em Cuba. Ora sucede que durante os últimos meses o comboio foi reportado como estando inoperacional. De resto a sua operação é sempre errática. Nunca se sabe quando funciona. Bom, mas perante estas notícias o plano foi alterado. Nada de Hershey, risca-se Matanzas da lista e evita-se assim passar por Varadero para seguir viagem.

Ora na véspera calhou a recebermos novas informações: um bem-informado cidadão junto à doca de ferries debitou tudo o que era preciso saber. Os horários, as possibilidades, as ligações com os barcos e sobretudo o pedaço mais importante, que sim, que estava a funcionar. Já tinhamos, portanto, algo para fazer durante boa parte deste décimo terceiro dia em Cuba. Mesmo assim havia opções a tomar: seguir até Matanzas, ao final da linha, estaria fora de questão. Demasiado tempo, e ficariamos demasiado longe de Havana para uma plano B se tal fosse necessário. Podiamos ir até Hershey – uma plantação que deu o nome ao comboio pois foi o seu proprietário que financiou a construção da linha – e por lá ficar a ver e depois encontrar um transporte alternativa de regresso. Ou então ir até lá e apanhar logo uma composição que basicamente se deveria cruzar com a nossa. Por fim, encurtar mais a aventura e sair na estação que serve as Playas del Este (as praias que os havanezes usam) e descobrir como voltar. Mas a decisão ficaria para mais tarde, para o momento de comprar o bilhete.

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Acordámos um pouco mais tarde. Fomos até à estação de ferries, sem grandes pressas. O comboio só partiria no final da manhã e até lá visitariamos a margem oposta, deixando para o último momento a decisão sobre entrar nas duas fortalezas que estão ali do outro lado.

Para entrar no terminalzinho, que pouco mais é que um barracão de alvenaria, as malas são inspecionadas por agentes da autoridade. Porquê este rigor? Porque há uns anos um par de cubanos entrou no ferry e tentou desviá-lo para os EUA (uma notícia aqui). Claro que o resultado final foi o que se esperaria: a embarcação esgotou o combustível, ficou à deriva, foi rebocada de volta, os oito piratas foram capturados e mais tarde condenados à morte e executados por pelotão de fuzilamento. Desde então tudo o que entra no barquito é verificado. O bilhete é ridiculamente barato. Tão barato que nem sei quanto foi… quanto é dez cêntimos de 0,03 Eur?

A travessia é rápida e o comboio está logo ali, é impossível não o ver. Para já não interessa especialmente, faltam cerca de quatro horas para a partida (existem comboios às 4:45. 12:21 e 16:35). Mas há pessoas que parecem correr para as carruagens e entrar… será que existe uma partida não prevista? Vamos depressa falar com o pessoal. Não, calma, é mesmo às 12:21. Um funcionário de aspecto profissional e esclarecido dá-nos todas as informações. Confirma as indicações fornecidas pelo cidadão da véspera. E agora podemos ir à descoberta dos fortes e do que mais haja para ver nesta margem. Temos imenso tempo!

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Perguntamos a alguém a direcção para o “castillo“. Sempre a subir, por ali. Logo a seguir vemos um rapaz que vende uns pastéis de goiaba. Excelente. Estamos cheios de fome, n~ºao tivemos oportunidade de comer nada. Compramos 2 ou 3 cada um. Decisão errada: são deliciosos, deviamos ter ido à meia-dúzia. Estão ainda quentinhos, são de massa folhada, generosamente recheados. Uma delícia. Por 0,09 Eur cada.

Subimos uma estrada durante algumas centenas de metros e ficamos logo lá em cima. Mesmo ali à frente está o Cristo-Rei de Havana, uma estátua muito branca, construida sob o mando da esposa de Fulgêncio Baptista mesmo antes do triunfo da Revolução. É considerada a última obra do regime do ditador. Tinha lido que se pagava 1 CUC para entrar mas dá a ideia que o autor do guia não visitou o local. Simplesmente não há nada onde entrar. A estátua está num espaço público, zelando por Havana. Em redor há um jardim com excelentes vistas em diversas direcções. Bem que nos disse o velhote onde pedimos indicações para chegar à fortaleza. É de facto belo. Depois de dias a explorar as ruas da cidade é uma emoção vê-la numa perspectiva diferente, de cima, abarcando-a quase de ponta a ponta.

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Vai estar um dia quente. É ainda cedo e a temperatura já se faz sentir. O céu está completamente azul. Mas suspeitamos que terá chovido durante a noite. É a única forma de explicar as poças que vimos ao sair, um pouco por todo o lado. Chegamos a um ponto que parece ser a entrada da primeira fortaleza, e as notícias não são boas: só abre às 10 horas. É uma novidade. A informação que trazia é que abriria às 8 horas. Mas agora não há nada a fazer. Falta mais de uma hora. Vamos dar uma volta por ai, fazer tempo, e voltaremos para a abertura….. talvez. Valerá a pena pagar os 5 CUC? Talvez para esta, para a La Fortaleza de San Carlos de la Cabaña, mais complexa e vasta que a outra, mais à ponta, que vimos todos os dias do Malécon, chamada de El Morro.

Assim como assim, fomos caminhando até El Morro. Vimos a uma certa distância uma exposição sobre a crise dos misséis em Cuba. Ao chegar à fortaleza seguinte descobri com alguma surpresa que estava mesmo sobre a boca do famoso túnel, que passa sob as águas e liga as duas margens de Havana aqui mesmo. É um túnel um pouco estranho porque é quase invisivel. As entradas de ambos os lados é discreta e a maioria dos visitantes de Havana nunca dará por elas a não ser que use um carro.

Toda a área é acessível ao público mas de natureza militar. Não é díficil de perceber que até há alguns anos seria impossível entrar aqui. O bairro residencial tem casinhas que parecem mesmo ter sido construidas para oficiais e suas familias. Por todo o lado se vê pessoal uniformizado e edíficios integrados na estrutura militar. Parece uma base aberta. Um relvado vastissimo deverá ser usado para exercícios físicos.

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El Morro tem algo a oferecer mesmo que não se entre no seu interior. Pode-se caminhar nos seus bastiões exteriores e ver a frecha que os ingleses fizeram na muralha, quando no século XVIII tomaram a fortaleza e com ela o resto de Havana e de Cuba. Depois, trocaram toda a Florida, que então era uma possessão espanhola, pela recém-tomada Cuba. Um belo negócio. Ficámos ao sol sobre as paredes massivas de um bastião de artilharia. Aproximava-se um navio da foz. Parou durante longos minutos, aguardando a chegada do piloto de barra. Já com companhia avançou, passou perto. Com a objectiva da câmara vi que era russo. Parecia um paquete dos anos 50, que mais tarde vimos encostado no terminal de navios de cruzeiro.

Com toda a calma fomos andando. Ainda faltava tempo mas fomos andando. Já havia pessoas junto à entrada de El Morro, aguardando pela abertura. Viam-se bastantes daqueles belos carros clássicos, não os degradados táxis mas os bem mantidos, imaculados, que servem os turistas endinheirados. Esta é uma paragem clássica da volta por Havana providenciada por estes guias. Assim de repente, parece uma viagem no tempo. Só se vêem veículos destes, dos idos anos 50, em harmonia com o navio que tinha acabado de chegar ao porto.

Comprámos os bilhetes para La Cabaña e, depois de uns minutos a lidar com uma das criaturas mais lentas que deve existir em Cuba, entrámos. Logo fomos recebidos pelo simpático senhor que antes nos tinha informado da hora de abertura. Deu-nos uma resumida explicação do que havia para ver e seguimos. Na realidade parece haver muito mas não há. A fortaleza é grande, isso é certo. Mas basicamente é percorrer as suas ruas e ver as vistas e pronto. Existem algumas salas de exposição, outras que deviam existir mas estão encerradas – sem explicação. Gostei especialmente da exibição dedicada a La Cabaña enquanto prisão e espaço de execução da pena de morte. É aqui que se dá a cerimónia diária do Canonazo, o disparo cerimonial de uma peça de artilharia do século XIX, que por essa altura servia para marcar o encerramento do porto. Algo que os espanhóis levavam a sério, içando uma intransponível barreira sob a forma de uma corrente de ferro, suspensa entre fortalezas das duas margens.

Gostei de ouvir o disparo no serão anterior, mas não me passou pela ideia vir assistir à cerimónia. A ideia repele-me. Que palhaçada. Uma multidão de turistas a tirar fotografias, quase todas inúteis porque as condições de luz não permitem melhor, e um grupo de soldados feitos bobos, envergando velhas fardas num cerimonial sem sentido.

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E pronto. Vamos para baixo que se faz tarde e o comboio é que importa. Este passeio pelas fortalezas, que fazia parte da já referida lista de coisas a fazer nos últimos dias de Havana, não foi tempo perdido mas não fascinou. O melhor é capaz de ter sido o tempo de ronha ao sol no terraço do bastião.

Na estação foi comprar o bilhete e uma bebida fresca que foi a única coisa que se conseguiu obter. Um homem negro de posse colossal conversava com os amigalhaços… não o sabia mas seria o revisor e, em parte, o maquinista. E vestia uma bonita camisola de Selecção Nacional Portuguesa.

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Sentá-mo-nos. O motor do comboio ligava-se e desligava-se sucessivamente. Mau. Não é bom sinal. Aos comandos, um miúdo de uns oito anos. Foram chegando mais passageiros mas mesmo assim havia imensos lugares sentados quando mais ou menos à hora a composição se pôs em movimento. Aquilo tinha um ambiente festivo. A bordo vinha o tal adepto da Selecção, o chefe da estação e mais um funcionário, sem contar com o homem aos comandos, que entretanto, felizmente, tinha substituido o gaiato.

Primeiro muitissimo devagar, depois ganhando alguma velocidade, mesmo assim limitada. Passámos junto à Base Naval, que antes viamos ao longe, da outra margem. O meu olhar cruza-se com o de um soldado armado que presta vigia numa torre. Apesar do carácter militar das instalações parece-se mais com um estaleiro civil. Não se vê ordem nem elementos fardados. Só edíficios neglicenciados e operários. Mas é enorme. Levamos imenso tempo a passar por tudo aquilo, incluindo duas paragens em outros tantos apeadeiros.

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Depois vamos deixando para trás a malha urbana dos arredores de Havana e uma paisagem mais natural ganha predominância. Para além de nós vão mais alguns turistas a bordo. Não muitos. Dissolvem-se na multidão cubana, divididos pelas duas carruagens. Toda a experiência é memorável. O comboio em si, a “fauna”, a paisagem.

É um milagre que aquilo ainda ande. E decididamente não é de espantar que tenha estado parado durante meses. Os assentos são improvisados. Parecem cadeiras de plástico, daquelas das esplanadas baratas, fixas sobre uma estrutura metálica. Apesar de tudo surpreendentemente confortáveis. Já tive dores de rabo em voos da mesma duração, e hoje, 2 horas para cada lado, e nada.

Os companheiros de viagem são um misto de complicada definição. Quem serão estas pessoas, para onde irão, de onde virão…? Entre apeadeiros há muitos alunos de escolas que ou vão para casa ou para as aulas. Pessoas que vieram à capital tratar de assuntos e regressam às suas casas nas aldeias. Gente que vive em Havana e vai visitar familiares sabe-se lá onde. Comerciantes que movimentam mercadorias, sejam elas, garrafas de leite, cachos de bananas, fardos de palha.

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À passagem de uma casa vejo uma mulher que lavava a roupa fazer sinais para o comboio. O maquinista deverá também tê-la visto porque pára. Gesticulados e trocas de palavras. O comboio mete marcha-atrás e recua umas dezenas de metros até uma plataforma em frente à casa. Um miúdo aparece a correr e entra. Passam-se longos segundos. Ainda falta alguma coisa. Surge uma segunda criança que salta para o interior da segunda carruagem. Podemos seguir.

Uma mulher nova, loura, muito branquinha, com duas crianças, entra e monta negócio: vai vendendo chupa-chupas a miúdos e graúdos, e como vende… toda a gente parece querer ter um doce para a viagem. O comboio vai-se enchendo e às tantas está mesmo atulhado. Já há muita gente de pé. Uns comparsas já muito embriagados vão sentados mais à frente, numa ininterrupta barulheira feliz.

Lá fora a paisagem é cada vez mais tropical, com vegetação que se adensa a tempos, muitas palmeiras. Há alguns campos de cultivo, gado. Passamos por uma zona pantanosa. As paragens são sempre interessantes. Pelas pessoas que entram e que saem, pela mercadoria carregada e descarregada, pelo casario envolvente, pelos retratos de vida real que se captam.

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Pouco antes das duas chegamos a Hershey. Uma hora e meia disto. Pareceu bastante mais. E agora a decisão. Tinhamos pensado em sair aqui e descobrir uma forma de regressar a Havana, mas agora não nos parece especialmente interessante e desagrada-me o stress de procurar uma solução de transporte para voltar. Tinham-nos dito que havia cinco minutos entre a chegada e a passagem do comboio no sentido oposto. Na realidade assim foi, só que o outro não dava sinais de prosseguir viagem imediatamente. Decidimos apanhá-lo.

Mas entretanto havia ali uma pequena feira em grande ambiente festivo. Os passageiros de ambas as composições estão cá fora e há uma dezena de vendedores que vão fazendo o seu negócio: bebidas frescas, bolos… os tabuleiros esvaziam-se. Comi uma fatia de bolo escuro, sei lá do que era, mas sabia bem. Depois de uns quinze minutos começaram a surgir sinais de uma partida eminente. Tempo de entrar no nosso novo comboio.

Ia um pouco mais vazio, conseguimos um bom lugar à janela. À nossa frente mãe e filha iam a caminho da aldeia. Quando o revisor veio e nos vendeu os bilhetes, em CUC, elas ficaram escandalizadas. O preço que pagamos é muitas vezes o que elas pagam. Foram, acho, 3,5 CUC. Os olhos iam-lhes saindo das órbitas, ficaram revoltadas. Sairam uns apeadeiros mais à frente. Via-as descer um estradão de terra batida.

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Noutra paragem ficámos parados um bom bocado enquanto alguém carregava a sua mercadoria no comboio. Isto foi uma constante. Os tempos de espera prolongados, sem que ninguém realmente se importasse, para receber e dispensar cargas. Já estava cansado de tudo aquilo. Foi tempo a mais para ser perfeito mas mesmo assim um dos momentos marcantes desta viagem em Cuba. Embrenhei-me no livro Our Man in Havana (sim, na crónica de ontem escrevi que o tinha terminado mas estava a fazer confusão… foi a bordo o Hershey, já a chegar a Casablanca, que terminei a leitura da obra). Levantei os olhos a tempos, mas basicamente desliguei-me do que se passava e deixei de prestar atenção à janela.

Chegámos e um barquito recebia passageiros. Corremos para lá, foi bom não ter que esperar mais depois de uma estafa daquelas. Soube bem voltar a Havana. Lá fomos, a pé, já a meio da tarde que na realidade correspondia ao fim de mais um dia.

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Andámos até chegar à zona do Capitólio. Já mais à vontade com tudo fotografei detalhadamente os carros antigos que por ali estão sempre estacionados. Na minha primeira passagem por aqui tive receio da reacção dos proprietários. Podiam opôr-se, podiam agarrar com demasiada energia a oportunidade de um negócio. Mas agora sabia que não ia acontecer nem uma coisa nem outra e disfrutei do momento.

Dois tipos meteram conversa conosco. Acho que não chegaram a propôr qualquer negócio. Tentaram recomendar uns shows de música e algo assim mas não estou a ver como é que isso se poderia concretizar num negócio. Seja como for simplesmente ficámos à conversa e, como quase sempre, foi interessante. Uma passagem ficou-me na memória… não sabiam onde era Portugal e tinham vergonha, não assumida… o mais novo olhou para mim e desculpou-se: “Aqui em Cuba somos como aborigens, não sabemos nada do mundo exterior… livros, mapas, nada”.

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Não se passou muito mais neste dia. O cansaço era grande. Simplesmente parámos na pizzaria favorita e fomos descansar. Já depois do sol posto fui até à varanda. O ambiente nesta casa era diferente, mais familiar, menos de hotel. Não me sentia bem fora do quarto, como se estivesse a invadir a privacidade dos proprietários. Não foi a melhor das experiências, mas aquele momento foi agradável: fiquei à conversa com o marido da Tamara, e um pouco também com ela. Ele formou-se na União Soviética, e conhecemos ambos uma série de lugares, especialmete na Bielorússia e na Ucrânia. Um tipo com uma visão lúcida das coisas e do mundo.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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