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Cuba – Dia 14 – Havana

24 de Dezembro

Que dia este! Pela primeira vez em quase cinquenta anos uma véspera de Natal passada num país distante. É verdade que longe vai o tempo em que um 24 de Dezembro era esperado com ansiedade,  expectativa de prendas, de doçaria sem fim e de alegria familiar. Isso já acabou há algum tempo, mas mesmo assim não foram poucas vezes que o pensamento deslizou neste dia para outra época e para outros locais.

Com a ideia no fabuloso nascer do sol de um dos últimos dias passados em Habana antes do périplo pelo país, quis reviver a ocasião. Acordámos cedo, saímos para a rua à hora certa, mas chegados à barra a luz não era a mesma. Sim, foi bonita, a alvorada, com um céu alaranjado de onde se levantava o sol. Mas as cores de outro mundo que vira há cerca de uma semana atrás não se apresentaram naquele amanhecer.

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Seguidamente quis ver, talvez pela última vez, a praça da Catedral, que tanto me encantou. Era um dos pontos da lista de coisas a fazer antes de deixar Cuba. A partir dai foi vaguear, de certa forma sem rumo, com uma sensação de que estava tudo visto e restava usufruir do dia com a calma que duas semanas de viagem exigiam.

Durante os dias passados no país tinha formado a ideia que o Natal não era muito celebrado, que seria algo recentemente adquirido, uma influência cultural moderna, assim como o Dia das Bruxas lá por Portugal. Mas estava enganado. O dia 24 tinha um ambiente no ar, e no 25 Cuba parou mesmo.

Como fotografo amador tenho uma certa sensibilidade para as coisas da luz, e neste dia havia algo de diferente. O Malécon tinha um ambiente vasto e desanuviado o que, apesar do tráfego reduzido, vinha sobretudo da luminosidade, mais fria que o costume, temperada como que por uma névoa subtil. Foi ali que regressámos depois de umas boas voltas por Centro Habana. A chuva trouxe algo a tudo isto. As poças de água faziam o chão brilhar, a humidade que certamente se infiltrava pelos edíficios degradados onde aquela pobre gente habita sublimava odores pouco agradáveis. Uma pequena catástofore para mim, confesso mariquinhas com coisas de cheiros, ainda mais agora, depois de alguns dias a ter corrimento nasal, que sempre me puxa para a náusea fácil.

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Foi o dia em que vi “putos” a jogar ao bilas, fazendo-me lembrar de um momento relatado no excelente livro Expedições Urbanas: Havana em que o autor surpreende os meninos de rua abafando-lhes tudo o que havia para abafar. E mais ou menos por aqui. E foi também quando vi um velhote a remexer no lixo, deixando-me a pensar na educação e saúde gratuita. E subsistência digna, não?

Eventualmente fomos desembocar no Malécon, seguindo uma rota que se tornou rotineira depois de uns primeiros dias às apalpadelas: do Capitólio seguir por San Rafael, virar à esquerda na esquina de Ávila e seguir sempre em frente até chegar ao mar, parando eventualmente nas pizzas para uma refeição rápida e saborosa.

O esparso trânsito às nove da manhã iniciava que algo se passava. Afinal o Natal era mesmo um evento, e ainda estávamos na manhã da véspera. Entretanto as núvens que já um bom bocado se tinham começado a formar adensavam-se. Será que finalmente, no último dia, iamos ver chuva em Cuba? A missão agora era chegar à Copellia. Mais uma da lista. Fomos sempre pelo Malécon, mas deserto como estava não tinha metade da piada. Apenas um par de pescadores tentava a sorte, mas onde habitualmente uma pequena multidão se agrupava para apanhar transporte, não existia ninguém. E o céu cada vez mais cinzento. A chuvada parecia agoar inevitável.

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E começou. Como quase sempre, com uma gota isolada. E depois outra e mais uma. Estamos nos trópicos, é melhor não brincar com a sorte. Em pleno Malécon, do lado do mar, não há propriamente abrigos. Atravessar. Já chove bem. Chegar ao outro lado. Cai água seriamente. Corremos para a entrada de um edíficio com um alpendre sólido e largo mas mesmo assim a chuva entra na diagonal. Ficamos ali, fixando o horizonte, sem saber quanto tempo durará. Eventualmente abrandou, até quase parar. Arriscámos sair. Continuámos a caminhar para a gelataria, usando o hotel Habana Libre como um farol.

Fomos de novo interrompidos por uma saraivada de água. Novo abrigo. Mais espera. E mais uma trégua fugaz que deu para avançar um pouco. A nova paragem foi à entrada de um hotel fino. Uma senhora sai e pragueja: “Era suposto ser apenas logo pela manhã cedo… e eu que não trouxe guarda-chuva”. E precipita-se aos elementos, talvez já atrasada para algum compromisso inadiável. J+a estávamos perto e arriscámos sair do abrigo. As gotas continuavam a cair mas agora de forma moderada.

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Entrámos na Copellia, que de tão vazia que estava parecia vazia… e pensar que há dias em que a fila para entrar significa horas de espera… hoje foi só sentar. Ali havia alguns mesas com resistentes. Quando nos serviram os gelados começou a cair uma carga de água que talvez tenha batido as marcas que vi em São Tomé. Foi uma meia-hora de um cauda ininterrupto, pesado, acompanhado por trovoada. Uma coisa apocaliptica.

Deixe-me estar. Dali não me arrancavam nem que chegassem as forças do Ministério do Interior. O meu único movimento foi arrastar um pouco a cadeira para o centro do terraço, porque o dilúvio, encorajado por alguma aragem, ameaçava molhar tudo o que estivesse na orla do espaço. Acabei as duas tigelas de gelado, paguei os 0,30 Eur. Ficámos até ser seguro. Assim como assim não havia nada melhor para fazer.

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Fomos descendo em direcção ao mar, passando junto ao Hotel Nacional. Mais logo haveriamos de aqui regressar para a nossa pequena festa de Natal. Bebemos um sumito numa cafetaria verdadeiramente doméstica, servidos por um velhote simpático que não esperava clientes num dia assim. De novo para Centro Habana, que a fome apertava e queria saborear pela última vez uma pizza daquelas. É sempre triste, de certa forma, na vida como numa viagem, quando começamos a fazer coisas que sabemos ser uma despedida, uma derradeira ocorrência.

Terminado o manjar voltei a procurar um barbeiro, mas se já antes não tinha sido bem sucedido, neste dia 24 todas as portas estavam fechadas. Vagabundeei mais um pouco, acabei por ir ter a uma ponta de Habana Vieja. A praçeta da dama de bronze. Três “putos” rabiscavam numa parede, apanhados em flagrante pela proprietária da casa. Em debandada ripostavam ainda, ares de reguila, numa retirada controlada, enquanto a senhora ameaçava com a polícia. Os estroinas foram derrotados com a intervenção dos vizinhos da frente que gritavam que tinham visto e que era verdade sim senhora… o menos afoito deles saltou para terreno seguro, desmarcando-se: “não fui eu, foram eles”. E pronto.

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O céu continuava cinzentão. Não me queixo. Depois de duas semanas de muito sol e calor isto é uma lufada de ar fresco, uma nova perspectiva. Passei junto ao Hotel Sevilla, um dos clássicos de Havana. É mesmo junto do Museu da Revolução. Ainda bem que me aproximei por este lado porque vi o que não sabia que podia ser visto, uma pequena colecção de aviões e veículos que alegadamente terão feito parte da história recente de Cuba, durante a Revolução de 1959 e depois, na invasão da Baía dos Porcos. Vejo a uma certa distância um T-34, um par de aviões de combate pintados com as cores nacionais. Há uma edíficio envidraçado cujo interior não é vísivel mas onde sei encontrar-se o Granma, ele próprio, o original, o iate que transportou os Castro e os seus revolucionários para a última tentativa de sublevar Cuba. A que foi bem-sucedida.

Começa a chover outra vez. Estou perto de um café para turistas e cubanos endinheirados, não muito longe do acesso do túnel, logo, do mar. Abrigo-me no telheiro que cobre a esplanada e espero. Defronte parece haver uma concentração de motos. Um turista tira fotos de forma entusiasmada, com a sua câmara equipada com uma lente super-XPTO.

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Quando se torna seguro, retomo o passeio. Logo à frente uma pequena multidão espera autocarros, abrigada junto aos edíficios. Começo a ganhar um olho clínico para isto e vejo um com uns calções da Selecção Nacional. Queria fotografá-lo mas para sorte dele e meu azar chega o autocarro esperado e perco a ocasião.

Volto para casa. O paredão do Malécon está deserto. No jardim, onde no último Domingo havia tanta vida, não se vê vivalma. Como que contrariando a generalização, um miúdo joga o seu papagaio, sozinho. São umas três horas e é tempo de repousar um pouco.

O mar começa a agitar-se, perdeu a doçura dos primeiros dias. Li que em dias de tempestade é um espectáculo atemorizante, com as vagas a embaterem no paredão e a encher o asfalto, por vezes as casas do lado de lá das seis vias de rodagem, de água salgada. Imagino a cena vista da varanda da bem-amada Casa Blanca, e passo em frente dela. Não consigo resistir a mais uma fotografia, de novo, quiçá, a última. Depois, mais uns metros e chego à casa da Tamara. Intervalo.

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Foram cerca de duas horas. Arrumei a mochila, deixando de fora apenas o necessário. Li qualquer coisa, esparramado na cama. A janela dá para um muro, não é muito encorajadora. Bebi uma cerveja do mini-bar, um luxo a que me dei todos os dias de Havana. E pronto, o pôr-do-sol aproxima-se e até nos deixamos distrair, já vamos tarde, temos que apressar o passo.

Vamos lá então beber o cocktail de Natal. Mais uma das notas na lista de coisa a fazer: uma bebida no bar exterior do Hotel Nacional, uma espécie de símbolo de uma Havana de outros tempos, da Cuba de todos os excessos. É uma extravagância orçamental considerando as despesas habituais, mas convenhamos que uma Piña Colada por 5 Eur é uma pechincha, sobretudo considerando o ambiente.

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Por algum tempo receio que vamos perder o melhor da festa, mas chegamos a boa hora. À entrada dois espalhafotosos clássicos descapotáveis aguardam clientes. Atravessamos o hall e saímos para os jardins, vastos, com vista sobre o mar. O ambiente está excelente, perfeito. A ameaça de chuva está afastada, as núvens parecem ter perdido a batalha pelo céu. Na esplanada uma mesa espera por nós. Uma Piña Colada e um Daquiri. Não faço ideia do que seja um Daiquiri, mas parece que era a bebida preferida do amigo Ernesto Hemigway e da personagem principal de Our Man in Havana, Mr. James Wormold. Não gostei muito. Águada e um pouco amarga. Mas bebe-se, ficou saciada a curiosidade e o momento ajudou à digestão. Muito agradável. Foi a festa de Natal que se arranjou.

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Saimos quando a escuridão caia sobre aquelas partes. Já arrefecia e acho que nos afastámos com o timing perfeito. Olhei para trás e vi que o hotel, bem iluminado, apresentava uma imagem notável, digna de ser guardada em memória. Ainda eram seis horas, mas o dia estava terminado. Depois de duas semanas o fuso horário ainda ditava as regras. Enquanto tantas famílias portuguesas preparavam a ceia de mais um Natal feliz, nós aprontávamo-nos para dormir.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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