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Do Báltico ao Mar Negro, dia 29 – Tiraspol

28 de Maio

Para hoje estava guardado um bocado que não consideraria arriscar tomar ainda há um ano atrás. Quando em 1992 a Transdniestria se envolveu num sangrento conflicto de secessão com a ex-república soviética da Moldávia, agora um jovem país de influência romena, nasceu esta unidade política aberrante, apenas por si considerada como um país (para ler mais na Wikipedia) . A bem dizer, há aqueles outros países renegados, a Ossétia, a Abkázia e o Nagorno-Karabakh, que trocaram o favor de reconhecer a Transdniestria. Nota: anteriormente neste blog referi que a Nicarágua tinha reconhecido a secessão; erro meu… a Nicarágua reconheceu, isso sim, a Abkhazia.

Bom, mas chega de tecnicismos diplomáticos. O que se passava é que desde a independência (ou semi-independência) a Transdniestria se transformou num país pirata com respeito limitado por muitas coisas. E o que se passava na sua fronteira era escandaloso: os guardas pareciam impôr a sua lei própria, espoliando os viajantes mais intrépidos de bens e dinheiro, recorrendo a todo o tipo de expedientes, dos mais suaves aos mais violentos. Um exemplo aqui. E foi com esta impressão, adquirida em leituras anteriores, que comecei a planear esta viagem, excluindo naturalmente este canto perdido da Europa.

Só que numa segunda recolha de informações apurei que os problemas na fronteira eram agora parte do passado. Descobri que existe mesmo um número de telefone que estabelece uma ligação directa com um oficial que fala inglês, e que se deve ligar em caso de problemas com o pessoal da fronteira. Suponho que em determinado momento as autoridades da região decidiram que precisavam de investir na imagem que a Transnistria tinha pelo mundo fora, e resolveram controlar os seus cães de guarda. E então decidi que queria visitar este local, que o meu amigo moldavo definiu como “uma viagem no tempo até ao passado soviético”.


Contactei um membro do Couchsurfing, Mary, fotógrafa profissional por paixão, e perguntei-lhe se tinha interesse em passar um dia a fotografar e a mostrar-me a cidade principal da Transnistria, Tiraspol. Acedeu, e ficou determinado.

Em Chisinau a reacção das pessoas quando ouvem falar em Tiraspol é de surpresa negativa. Veio-me à ideia a relação que as gentes de Dubrovnik têm com Trebinje, na Bósnia sérvia. O discurso é invariável: “mas não há lá nada, é apenas uma cidade, só prédios, o que vais lá fazer?”. Mas é bom que se habituem. A Transnistria exerce sobre o viajante o efeito de fruto proibido. Quem é que quer perder este último vestígio dos tempos soviéticos, as suas estátuas de Lenin, as suas bandeiras com foices e martelos… é contudo um pouco ilusório. Apesar destes elementos serem bastante visiveis, encontrei-s de forma bastante mais viva em algumas partes da Ucrânia.

Na estação de autocarros central de Chisinau apanha-se um minibus para Tiraspol. A viagem custa algo como 4 Eur. São 2 ou 3 horas de viagem, dependendo do tráfego na fronteira. E, tal como esperava, não se passou nada de especial na passagem… uma fronteira perfeitamente normal, onde o passaporte nem é carimbado. Entrego o pequeno impresso que é disponibilizado adiantadamente no mini-bus, em inglês e russo, simples de preencher. Declaro lá que vou entrar e sair no mesmo dia, e recebo autorização de permanência de dez horas. Se quisesse ficar mais tempo teria que me registar numa estação de polícia no prazo de 24 horas.

Quanto ao lado moldavo, como não é reconhecida a secessão, não existe fronteira, apenas um controle alfandegário. Quando o autocarro recomeça a rolar vejo que existem algumas posições improvisadas… um veículo blindado encontra-se no fundo de um fosso, pronto a emergir em caso de necessidade. Existem pequenas trincheiras defendidas por sacos de areia. Mais à frente, na ponte que cruza o rio, já na pequena cidade de Bender, vejo uns quantos militares russos, que, oficialmente ao serviço da ONU, com os seus capacetes azuis, estão na realidade ali para garantir a sobrevivência da Transnistria.

Encontrei a Mary, uma jovem mulher, cerca de 30 anos, casada, com dois filhos e decididamente perdida naquele fim do mundo ao qual não pertence. Mas como todos os seus compatriotas está practicamente condenada a viver o resto da sua vida naquele pequeno canto. Pelo menos, segundo ela, tem uma rede social e familiar agradável e um trabalho que ama. Algo que perderia se conseguisse alcançar o seu sonho de sair dali para fora. Sinto o desespero de ter uma alma grande, um espírito curioso, um intelecto aguçado… e estar-se condenado a viver naquela pequena cidade sem opções.

Caminhamos por ali, conversando. Mostra-me o rio, a estátua equestre do fundador, o teatro, o monumento aos mortos no Afeganistão e também o memorial às vítimas da guerra da Secessão. Conta-me como, com 14 anitos, ouvia angustiada os rumores da batalha, distante 15 ou 20 km, junto à actual fronteira. De como a maioria dos habitantes foi brindada com um novo país que não desejavam, por decisão dos políticos poderosos da região.

Paramos para comer qualquer coisa e beber uma cerveja. Uma coisa é certa: Tiraspol pode-se parecer com uma cidade perdida no Leste Europeu, mas os preços não são nada modestos. A moeda é o rublo da Transnistria, cunhada pelo banco “nacional”. E os passaportes são também próprios, apesar de completamente inúteis. Todos os habitantes têm dupla cidadania. No caso da Masha, ela tem passaporte ucraniano, que é um pouco melhor, mas que também não ajuda muito, considerando a complexidade dos procedimentos exigidos aos ucranianos que pretendem vistos de turista para a maioria dos países do mundo.

Andavamos nós por ali, sem rumo definido, ela, embaraçada pelo vazio da cidade, eu, pouco me preocupando, interessado em aprender sobre tantas coisas, quando ouço falar inglês. E mais do que isso, ouço falar do Brasil em inglês. Dois viajantes estavam sentados num banco, e, por coincidência, põem-se em andamento depois de passarmos por eles. Pergunto a um deles se é brasileiro. É. São de facto dois viajantes, o outro sendo canadiano, que estão a viajar juntos desde que se conheceram em Lviv.

Passamos o resto da tarde juntos. Eles estão também baseados em Chisinau. Depois de mais umas voltas, passamos o resto do tempo que nos resta em Tiraspol numa muito agradável esplanada, bebendo uma deliciosa cerveja local. A Mary, coitada, não acompanha bem o nosso inglês, mas parece entusiasmada com a experiência. Ainda bem. No fim, acompanha-nos ao mini-bus, comprando-nos a cada um uma garrafa de vinho local, como presente. Adorável Mary. Despede-se, que a a sua “mashrootka”, mesmo ali ao lado, está prestes a sair.

Eu e os meus companheiros circunstanciais fazemos a viagem juntos. Despedimo-nos. Estou cansado, e o tempo ameaça chuva. Recolho-me ao hostel, de onde nao sairei. O serão é passado a relaxar.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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