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França 2018 – Dia 1

E finalmente em França para uma viagem há muito desejada. A ideia era ver alguns locais que se encontravam no meu imaginário há que séculos, muito tempo antes de ter começado a viajar e que até há relativamente pouco tempo nunca imaginei poder vir a visitar um dia.

Tratava-se das bases de submarinos construídas pelos alemães na costa atlântica francesa. Saint-Nazaire, Lorient, Bordeaux, Brest, La Rochelle. Destas, apenas as três primeiras se podem visitar, e mesmo assim de forma parcial. Serviria. Depois, queria ver Oradour-sur-Glane, local de um massacre nazi cometido em Junho de 1944, e do qual tinha ouvido falar pela primeira vez quando tinha uns 9 ou 10 anos. Ainda me lembro, de ver aquele documentário de O Mundo em Guerra, deitado no chão, na casa onde cresci, em Alvalade. Por fim, algo que descobri recentemente e que juntaria facilmente ao itinerário, o Museu dos Blindados de Saumur, uma cidade conhecida como a capital da cavalaria francesa e local de uma batalha heróica em 1940: enquanto o exército francês colapsava, os cadetes da academia militar aqui existente e alguns milhares de soldados organizavam uma notável resistência, que foi de tal forma briosa que quando finalmente se renderam foram autorizados a retirar para a formada República de Vichy, sob honras militares.

Bem, a viagem começou na véspera: comboio do Algarve até ao Porto, um belo esticão, e uma dormida no aeroporto, de apenas duas horas, depois de alguma conversa com um velho amigo. A Ryanair não foi amiga, antecipou o voo um par de horas, que foram roubadas ao meu sono. Saída às 6 da manhã, chegada a Lorient pouco depois e esperar até às 11:30 para recolher o carro de aluguer que me acompanharia nos primeiros quatro dias em França.

Ora bem, como se chegou duas horas mais cedo, nada a fazer quanto a recolher logo o carro. Na realidade nem me convinha, porque significaria, no dia do retorno da viatura, devolvê-lo também mais cedo. E nesse dia estaria a viajar de Limoges para Bordéus.

Portanto queimou-se ali algum tempo, num dos aeroportos mais pequenos por onde passei. O dia estava magnífico, como o foram todos nesta semana em França. Fui inspeccionar os carros de aluguer no parque e arrependi-me de ter reservado um carro de categoria C. Acho que os ligeiros estão a ser fabricados demasiado grandes, não gosto de os conduzir, mais complicados de manobrar, de estacionar, de controlar as extremidades.

Quando chegou a hora pedi à simpática senhora da Thrifty um downgrade, o que muito a espantou, mas ao que acedeu sem complicações. Pude até escolher, ali da janela, o carro que queria. Não havia muitas opções mas fiquei muito feliz com o Renault Twingo cor de cereja. Até porque a folha de danos estava totalmente preenchida: tinha pequenos riscos ou moças em todos os sectores, mas eram tão pequenos que mal se davam por eles. Adorei conduzir este carro!

E agora, a caminho. Primeira paragem, a base de submarinos construída pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial em Lorient. Que prazer me deu conduzir por aquelas estradas secundárias envolvidas por campos verdejantes, passando por dentro de aldeias rústicas, desde o aeroporto que mais parece um aeródromo até ao centro de Lorient. Estacionar foi super simples. Gratuitamente. Mesmo perto da base. À sombrinha.

Em Lorient a base de submarinos não está completamente acessível. Existem tours, raramente em inglês e a horas muito específicas. Cheguei à bilheteira onde se compram ingressos para diversas atracções incluídas no complexo, como o submarino francês Flore, que se pode visitar e que, por curiosidade, é da mesma classe que os nossos antigos submarinos, e falei com um jovem mais simpático do que simpático. Disse-me rapidamente tudo: às 14 horas havia visita mas só em francês. Era meio-dia. Não podia esperar duas horas por isso. Porque ia para Saint Nazaire e ainda era longe. Aí ele iluminou-se… “ah Saint Nazaire… então não pense mais aqui na base de Lorient, lá é muito melhor para visitar”. Fabuloso. E seguiu, dando-me dicas para o que ver em Saint Nazaire e dizendo-me que para já, ali, se via muito bem a base a partir de um ponto que me indicou.

A caminho. Primeira paragem, inesperada, não planeada, só porque o local era obviamente espectacular e junto à estrada que levávamos: Sainte Anne d’Auray. Um mosteiro, monumentos, casas castiças de antigamente, jardins, uma igreja magnífica e, a coroar isto tudo, decorria um casamento e os noivos chegavam, num velho Citroen. Foi o tempo de palmilhar tudo aquilo, de descontrair à sombra das árvores do jardim, de usar as casas de banho públicas que eram pelo menos dos anos 20 do século passado, cheias de charme. E ver os claustros e ainda visitar, gratuitamente, o pequeno mas muito interessante museu do mosteiro, chamado de Tesouro. Tome nota: Sainte Anne d’Auray é um local a não perder, especialmente num bonito Domingo de Primavera.

A paragem seguinte foi a cidade de Vannes. Histórica mas com vida própria. Um centro cheio de casas medievais, um pouco de turismo a mais, mas excelente para visitar brevemente. A não perder o edifício da Câmara Municipal e o pequeno jardim defronte. Vannes também se recomenda! E aqui fizemos compras num pequeno Carrefour com excelentes produtos e preços baixos. Mais uma vez o carro estacionado gratuitamente, beneficiando de ser Domingo.

Prosseguir. Próxima paragem: Rochefort-en-Terre, mencionada como uma das mais bonitas aldeias de França. É Domingo, está um dia lindo, espero uma enchente de turistas, uma espécie de Sintra à francesa. Nada disso. Há turistas sim. Mas nada de asfixiante. E as referências confirmam-se, é mesmo uma localidade linda, cheia de história, de casas antigas, de jardins floridos, de recantos misteriosos e, de novo, com um casamento a decorrer.

Nem sei quanto tempo passei em Rochefort-en-Terre mas foram umas hora. Até ter a certeza que percorri tudo, que vi tudo o que podia ver. Há muito comércio, quase todo vocacionado para o turismo, mas pouco de souvenirs e coisas assim. Com o tempo as ruas foram-se esvaziando, apesar de serem apenas quatro da tarde. Pelas cinco, quase não havia turistas em Rochefort-en-terre e que privilegiado me senti por poder estar ali!

Vem uma senhora a conduzir uma carroça puxada por um cavalo enorme! Os seus antepassados terão certamente participado em muitas batalhas, vivido a época de ouro da cavalaria francesa. Mas agora, o trabalho de Juju é mais simples, ajudar a sua dona no negócio: a carroça é uma venda de produtos biológicos, vindos directamente da terra. Percorre as ruas da aldeia e as pessoas saem-lhe ao caminho, parando-a por uns instantes para comprarem aqueles pepinos ou cenouras que fazem falta.

Como tudo o que vi e fiz neste dia, recomendo vivamente uma visita a esta aldeia. Para mim, foi um pedacinho de tempo inesquecível.

Agora já se faz tarde. Ainda tenho que ir até Saint-Nazaire, o meu anfitrião de Couchsurfing aguarda-me. Deixou-me à vontade, para que eu usufrua ao máximo o dia no seu país, nos locais de que tanto gosta. Mas insisto, chega demasiado tarde não é de bom tom.

Ainda tinha algumas coisas na minha lista, mas há que ser pragmático: praticamente não dormi, estou feliz mas cansado e já vi tanto neste dia… Guérande ficará para o dia seguinte, ou para nunca. Assim como o ficarão todos os locais que vi ao longe, todas as sugestões dadas por tabuletas sem fim que da estrada principal indicam castelos, capelas, locais históricos. Viajar em França de carro é isto, a cada quilómetro há algo para ver.

Mas deixo-me rolar tranquilamente até Saint Nazaire, até aos seus arredores, onde vive o Paul. Estaciono o carro mais ou menos onde penso que é a morada dele, sem problemas, sem parquímetros e na realidade mesmo em frente, no melhor ponto possível.

Mensagem no Whatsapp e logo ele está ali, connosco, para nos receber de braços abertos. Naquele dia já não saímos. Fez-se uma mesa com o que tínhamos disponível e o serão fez-se à conversa, uma fórmula que se repete quase invariavelmente nestes encontros de Couchsurfing. Foi bom ter conhecido o tranquilo Paul, com tantos planos, que em breve viverá na Suiça, junto da irmã. E trocar histórias de viagem, tanta coisa…

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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