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Indochina – Dia 26 – 8 de Abril – Bangkok e Maeklong

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Não há memória de um um último dia de viagem tão movimentado. Apesar do cheirinho a aventura em muitas das minhas viagens, sou predominantemente um “planner”. Esta categoria de viajante aparece sempre nas tipologias que por graça vão sendo feitas em blogs e revistas da especialidade, definido como um tipo cerebral, organizado, racional… e é isso mesmo, sou assim. E portanto, quando o dia do voo de regresso a casa se aproxima, procuro estar nas imediações do aeroporto 48 horas antes para ter a certeza que não um triste incidente de última hora que me impeça de me apresentar a tempo e horas no terminal. Já o leitor vê aqui uma linha lógica, unindo a data da partida com a chegada a Bangkok a 7 de Abril. Verdade. Mas o que se passou hoje, 8 de Abril, o dia efectivo da despedida da Ásia, é um precedente único.

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Na realidade o processo iniciou-se mais de um mês antes, durante os preparativos para esta grande viagem. Já que a chegada e a partida eram na Tailândia, e que tal procurar algo para além de Bangkok que fosse “out of the a mainstream”. E a ideia ocorreu… e aquela cidade que tem um mercado por onde passa um comboio que força os feirantes a recolher temporariamente os seus produtos? Olha boa! Investigar. Bom, pode-se chegar lá, existe informação, mas levará um dia inteiro, e implica dois comboios e um ferry (para cada lado). Oops. Mas a única aberta no calendário é no último dia, assumindo que na véspera, depois de uma dormida no aeroporto, não haverá energia para tais andanças. E foi assim que no planeamento se jogou com um grau de risco que não costumo aceitar.

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Quase todo o dia foi feito de pequenos problemas e um stress contínuo, mas no fim foi uma excelente forma de encerrar com uma enorme chave de ouro esta viagem. Acordar muito cedo. Prescindir do pequeno-almoço gratuito no hostel. Deixar as mochilas no quarto com uma mensagem a pedir para as guardarem até ao final da tarde. Primeiro stress. A partir das 17 h não existe pessoal de serviço no hostel. Os clientes têm chave e a recepção está fechada. Disseram-nos que não havia problema, que até às 20 h podiamos bater à porta que alguém viria abrir. Mas isto são só palavras. E se não aparecesse ninguém, com um avião para apanhar e as nossas mochilas feitas reféns? Ponderei levar a mochila maior comigo, com os objectos mais importantes, e deixar para trás a mais pequena com os mais pesados que fossem relativamente supérfluos. Mas no fim arrisquei e trouxe apenas o computador, para além do que levaria normalmente.

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Tinhamos cerca de uma hora e meia para chegar à minúscula estação de comboios de Wong Wian Yai, de onde parte o comboio para o primeiro troço. Aliás, dali só parte mesmo este comboio, até porque só existe uma linha na estação. Mas antes havia que: primeiro, caminhar até à estação fluvial e apanhar um barco; segundo, mudar do barco para o metro, atravessar o rio e sair duas estações depois; terceiro, descobrir a estação o que, mesmo com as coordenadas no GPS, não foi fácil. Chegámos lá quase a correr, depois de perguntar o caminho por duas vezes. Ainda tinhamos 10 minutos, mas houve momentos neste percurso em que acreditámos que a expedição falharia à nascença, sobretudo quando no percurso inicial o barco levou imenso tempo entre “paragens”.

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Bilhete comprado e a bordo, logo se sentiu a omnipresente jovialidade tailandesa, a boa-disposição, os sorrisos (como é possívelo que seja um país à beira da guerra civil é algo que nunca compreenderei). No tecto, ventoinhas espalham o fresco possível no omnipresente calor tailandês. Em redor, há famílias e indívíduos, pares e crianças, tudo temperado com bom humor. Sento-me à janela e logo chega um casal com crianças. Não é bom sinal. Crianças. Mas desta vez é diferente… divirto-me, com o “puto” que trepa por mim para chegar à janela, pelo pai que sorri a cada foto que tiro através do vidro.

Mahachai. Fim da linha. Agora há que apanhar um ferry, atravessar o rio e descobrir o comboio para o destino final. Corre tudo bem. Mais que bem. Há um festival de cor no caminho, é o mercado de rua, com ares de presença contínua, a par com as lojas de comércio tradicional. Um rapaz leva um pequeno elefante pela trela. Nas bancas há animais inauditos vindos do oceano. E frutas, e legumes, mas em menor escala, quando comparados com os produtos marítimos.

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A travessia é breve mas pictoresca. Passa lá ao fundo uma traineira tailandesa, colorida, diferente, exótica. Do outro lado andamos até à estação de comboios, e o calor é muito, aperta, mesmo. Ooops. Problema. O comboio planeado já não existe, foi extinto. Agora só há um ao meio-dia e é o último. Temos que regressar no mesmo, e isso implica que não veremos o comboio atravessar o mercado, apenas o mercado através do comboio que o atravessa. Paciência, é o que se pode arranjar.

Mas se calhar nem isso será possível. Chega a hora da partida, o motor acelera, acelera, mas a composição não se mexe. Burburinho. Fumo negro que sai debaixo da carruagem da automotora. O maquinista passa por nós, atarefado, ao telemóvel. Há problemas, é evidente. O dia não está mesmo a correr bem.

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O homem mete-se debaixo do comboio com uma chave inglesa. Como se se tratasse de um carro. Grita ao outro para lhe dar gás. A mim parece-me que o problema se mantém, mas o pessoal dos comboios não é da mesma opinião porque passado um pouco estamos em movimento. O que será um eufemismo, considerando que é um comboio mas que a velocidade máxima que atinge é 20 e poucos Km/h. A média final será de 16 km/h. Não admira que leve mais que uma hora a percorrer os 20 km da viagem, algo que me pareceu dificil de acreditar.

Como aquilo vai tão devagar, sento-me nos degraus exteriores da carruagem e dali observo… observo a selva pantanosa, os campos de sal que se extendem por quilómetros, as pessoas que vivem a dois palmos da linha e com as quais troco olhares, como se estivéssemos sentados à mesma mesa. Observo as crianças que vêm da escola. E o mar, que se vê ao longe.

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Aproxima-se o grande momento. Preparo a câmara, debruco-me nos degraus, pronto para os disparos… e é nesse momento que o revisor, em grande alvoroço, me vem chamar. E conduz-me ao cubículo do maquinista na carruagem traseira. Um posto muito mais adequado para assistir ao espectáculo, parece-me ele dizer por gestos e em tailandês. E é. Dali filmo o mercado que se fecha à passagem do comboio. Como uma “holla”, a onda dos estádios mexicanos.

E o comboio detém-se. Chegámos. O número mágico revela-se: temos quarenta minutos para vaguear por ali antes do comboio partir de novo. Mas há uma esperança… uns mini-bus que parece que partem directos para Bangkok, mais caro, mas poderá valer a pena. No meio de algum stress e com muita ajuda de tailandeses que não falam inglês mas dão o melhor para auxiliar o estrangeiro, chegam as boas notícias: podemos deixar o comboio ir que haverá transporte para “casa”.

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E assim passeamos pelo mercado, que por si é perfeitamente banal. Apenas quando se aproxima a hora da partida da composição as coisas mudam de figura. Em menos de nada as bancadas são recolhida, assim como o são os produtos mais volumosos nas imediações da linha. Os mais rasos ficam, que tudo está estudado e se as carruagens lhes passarem por cima sem contudo lhes tocar, está óptimo. Aproxima-se o gigante metálico, que passa a uns centímetros do meu nariz. Que espectacular! Que forma de encerrar esta viagem!

Passada a segunda e última carruagem os feirantes repôem rapidamente os seus produtos e em menos de um minuto é como se nada se tivesse passado. O mercado prossegue, placidamente, indiferente.

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Independentemente daquela particularidade, por esta altura mundialmente reconhecida, é um mercado simpático, com imensa variedade de produtos, limpo, sem cheiros nauseabundos. É por isso que ainda lhe exploramos as extensões depois da passagem do comboio, em busca de uma bancada de sumos de frutas que não encontramos, pelo menos ali.

Não há mais nada para fazer. Está na hora de procurarmos o transporte para Bangkok, mas mesmo em frente um jovem casal vende aquilo que procuro. Quero um sumo! E depois de servido quero uma foto com ele na mão, o que, pelo que vejo pelo canto do olho, lá ao fundo, provoca grande divertimento nos meus fornecedores.

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O caminho para a capital é célere. A mais de 120 km/h não leva muito tempo a vencer a distância. A carrinha vai cheia e deixa-nos numa das praças centrais, onde o caos está instaurado. Pelo menos o caos para nós, estrangeiros. É uma rotunda gigantesca, onde chegam e de onde partem autocarros às dezenas. Vai ser complicado.

Em Bangkok, nas paragens mais concorridas, existem uns elementos de trajes misteriosos, com aspecto operacional, como que saidos de uma banda desenhada de super-heróis, que parecem polícias de choque mas são auxiliares para a circulação dos autocarros. Peço indicações a um, que escrevinha num papel os números dos autocarros que posso apanhar e manda-nos na direcção correcta. Mais à frente, sinto a necessidade de nova orientação e peço de novo indicações a outro do mesmo género. Informações contraditórias, não gosto disso. Decido manter-me fiel às primeiras indicações e, depois de uma certa confusão, avistamos o autocarro certo.

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O que se segue é a cereja em cima da cereja do bolo. O dia já tinha sido extraordinário, mas “cavalgar” num autocarro psicadélico (literalmente, considerando a pintura no tecto) conduzido por um motorista louco, foi mesmo a melhor forma de fechar o dia que encerra a viagem pela Indochina.

Finalmente, depois de muito riso e curtição chegámos à nossa paragem que, aliás, não era uma paragem, mas como fizemos questão de sair ali, se tornou uma paragem.

A partir dali correu tudo bem… as nossas mochilas lá estavam no hostel, à nossa espera. Ainda tinhamos tempo… fomos ao restaurante favorito, no querido bairro que tantas saudades deixa… mais uma refeição, copiada da véspera, porque em equipa que ganha não se mexe, e mais um enorme sumo.. alias, não um, que tenho Bahts a mais e quero gastá-los. Bebo não um mas TRÊS sumos de meio-litro. É brutal.

E pronto… apanhamos o autocarro no local previamente assinalado, passamos para o metro-comboio para o aeroporto. Adeus.

Os Videos do Mercado e do Comboio:

 

 

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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