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Islândia 2015 – Dia 5

Depois de uma noite bem passada fomos delicadamente postos na rua relativamente cedo. A nossa anfitriã tinhas coisas para fazer e apesar de dizer que poderiamos ficar na casa a relaxar senti claramente que não se sentia confortável com essa possibilidade.

Assim, depois de um breve pequeno-almoço conjunto, saimos para o exterior sem saber bem o que fazer com aquele dia. Uma coisa apenas era certa: tinhamos alguém à nossa espera em Akureyri única localidade que, para além de Reykjavik, se dá sinais de cidade neste país. Isto apesar de os islandeses afirmarem sem hesitar: cidade existe apenas uma, a capital.

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Foi então com esta sensação de tempo para matar que nos pusemos à estrada, decidindo seguir o conselho da Gudrum para contornar toda a península de Vatnsnes. Por esta altura já não estava de bem com a Islândia, e ver um desvio daqueles à minha frente só para ter mar e uma paisagem castanha de erva queimada pelo Inverno todo em redor não me deixou no melhor dos humores. A ideia era ver focas. Quer dizer, era sonhar com ver focas, porque as probabilidades eram infímas. E de facto, nada de bicharada.

Só conduzir quilómetros e quilómetros, um pouco em asfalto e muito em terra batida. Uma seca. Só do outro lado da dia península, já a terminar o volteio, a visita ao enorme rochedo basáltico de Hvitserkur fez melhorar o humor. São quinze metros de altura, suportados sobre dois arcos assentes no fundo do oceano. É o lar de diversas colónias de aves e destaca-se, imponente, cercado por água e pelas praias negras de areia basáltica, não muito longe da impressionante foz do lago Hóp. Quem o desejar pode descer lá abaixo, caminhar junto à água, admirar mais de perto o colosso, tendo uma perspectiva diferente da que é oferecida pela plataforma de madeira construida à sua frente.

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Agora sim, a moral elevava-se. Aquele ponto é mesmo muito bonito. Não só o rochedo mas toda a envolvência, incluindo a vastidão do areal que separa o lago Hóp do mar.

O caminho prossegue. O céu está predominantemente limpo, não está o frio gélido do primeiro dia em Rejkavik, mas também não se pode dizer que esteja uma temperatura agradável. Quando o vendo abranda fica simplesmente tolerável.

Avançamos por estradas de terra batida, que na Islândia são consideradas estradas nacionais, com direito a numeração. E nisto estamos em Borgarvirki, uma fortificação usada pelos primeiros habitantes da Islândia, entre os séculos IX e XI. Mas não se pense que se trata de um castelo. Simplesmente a rapaziada aproveitou uma formação natural de origem vulcância e achou que lá no alto, rodeados daqueles calhaus todos, estavam em melhor posição de rechaçar qualquer atacante do que noutro sítio qualquer. Basicamente fizeram umas adaptações e pronto, ficou feita a fortaleza.

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Seja como for é um local impressionante, a merecer uma visita, especialmente num dia com boa visibilidade como era o caso. Está-se ali de pé, com o vento a dar, e é impressionante olhar em redor, a 360 graus, e entre oceano, planície e montanha, ter-se o mundo aos pés.

Em Blonduos, onde haveriamos de pernoitar dali a três noites, parámos para encher o depósito do carro. Em direcção a Akureyri. Com umas breves paragens. Há aquele monumento bizarro à beira da estrada. Depois, um sinal de atracção turística. As letras vermelhas sobre fundo branco e lá seguimos a seta. Em boa hora porque fomos dar a uma igreja primitiva, uma das últimas resistentes deste tipo na Islândia, pequenos edíficios cobertos de turfa. Um local encantador.

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A igreja está cercada por um vedado feito de estacas de madeira. Existe um pequeno cemitério. E ao lado, umas quantas casas. É um povoado que não chega a ser aldeia, uma constante da paisagem humana islandesa. Penso o que será a vida daquelas pessoas, isoladas, a centenas de quilómetros da única cidade digna desse título em todo a Islândia, sem meios de sociabilização, num país onde não existem cafés ou outros locais de reunião comunitária.

Vamos prosseguir, um pouco sem rumo, que o dia ainda não vai longo e o destino é logo ali. Contudo, junto às montanhas começa a notar-se uma sombra tenebrosa. Parece uma tempestade, mas será? Mais tarde, uns dias depois, aprendi o significado daquela mancha escura que mete meto. São partículas de neve e gelo, levantadas do solo por ventos rápidos. Assim, com aquela intensidade, não fazem mal nenhum, e chego a atravessar estas manchas sem me aperceber de nenhum efeito.

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Para acentuar o dramatismo da situação a estrada que escolhemos segue por uns quilómetros direita à montanha, como se a fosse atravessar. Já muito perto irá curvar, mas antes disso uma paragem para visitar uma segunda capela coberta de turfa, esta mais mágica ainda pelo isolamento. Do ponto de parqueamento recomendado até ao edificio há um par de centenas de metros. Com a montanha tão próxima as partículas de água sólida que constituiam a mancha avistada ao longe andam de volta de nós. Afinal é só aquilo. Sem receios.

Com grande surpresa verifico que a capela está aberta. Pode-se entrar. Sabe bem, aquele abrigo inesperado. A intempérie prossegue lá fora. O vento gelado. Mas no interior existe até um livro de visitas que assino calmamente.

O que fazer agora? Estamos demasiado próximos de Akureyri para ir já para lá, mas também já é demasiado tarde para contornar a próxima península. Sem pensar bem vamos a direcção a Hofsós, a primeira aldeia dessa tal península. Foi uma parvoeira. Tinha visto algumas imagens da localidade e achei que era interessante. E era. Mas não tanto que o justificasse. Ainda foram uns 60 km extra. E isto porque na hesitação considerámos mesmo dar a volta completa. Só que o céu cada vez estava mais ameaçador, sabia que a depois da localidade entraria numa zona remota, onde poucos carros passariam e nem fazia ideia se a estrada seria de asfalto. Provavelmente não (afinal era, como descobri uns dias mais tarde).

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A primeira coisa que saltou à vista em Hofsós foi o helicóptero estacionado à beira da estrada. Não sei porquê ou para quê. Encontrámos o caminho para a parte mais antiga, junto à agua, perto do pequeno porto. A luz está muito bonita mas o frio não. Há ali casas antigas, centenárias certamente, construidas em madeira, uma raridade na Islândia. Passa por nós uma multidão de jovens turistas americanos, com fatos de borracha, como se tivessem ido mergulhar. Bebem cervejas que parecem bem geladas. Até arrepia.

Muitas fotografias depois, decidimos prosseguir caminho, nessa altura ainda a pensar em contornar a península que parece pictoresca. Mas alguns quilómetros depois decido inverter a marcha. Decididamente não quero arriscar, com o dia a terminar, o céu ameaçador e o deserto pela frente.

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Ainda bem. As coisas poderiam ter corrido muito mal, como verificámos pouco depois. Já seguiamos direitos a Akureyri, refazendo os quilómetros que tinhamos percorrido para chegar a Hofsós. Quando chegámos à estrada principal faltariam uns 120 km para o destino. Pouco mais de uma hora.

Já ia cansado. A estrada foi ganhando altitude, o branco voltou a rodear-nos, sem nos ameaçar. Era apenas uma paisagem de inverno que envolvia o asfalto sem lhe tocar. A seu lado corria um regato de montanha, a água muito escura. E cada vez mais alto, e sem dar por isso estava não só numa paisagem de inverno mas no meio do inverno, real, assustador, sobretudo para quem não tem prática ou preparação para conduzir assim.

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Sem o saber estava no meio de um “pass” de montanha. Não fazia ideia que seria necessário passar por algo assim para chegar à segunda localidade da Islândia. Como o povo costuma dizer, pensava que seriam favas contadas e afinal… muita adrenalina. Um limpa-neves passa no sentido oposto. Aquela rapaziada tem que trabalhar duro para manter aquela estrada aberta hoje.

Não deu para tirar fotografias mas meteu um bocado de medo. Felizmente aquela era uma estrada cheia de movimento, isso deu-me tranquilidade. Ainda bem que não fomos à volta. Conduzir num cenário assim na extremidade de uma península deserta era mesmo algo que não desejaria.

Às tantas o piso da estrada estava cheio de neve e gelo, havia disso a voar em redor, muito vento, pouca visibilidade. E como para provar que o risco não existia apenas na minha imaginação o jipe que seguia à minha frente capota. Logo páram outros jipes – sim, eu devia para ai ser o único condutor por ali com um carro normal e ainda por cima sem pneus de neve – e os condutores correm a prestar assistência. Deve ter sido só chapa, que a velocidade era reduzida e a viatura simplesmente adornou. Depois de muito suor frio a estrada começa a descer. O pior já passou. Só então foi possível tirar uma fotografia.

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Logo à frente, Akureyri, assim vista, com aquele estado de espírito e aquelas condições climatéricas, feia, desagradável. Mas o stress não tinha ainda acabado. O telefone do meu anfitrião estava fora de rede. E na morada indicada ninguém atendia. E agora? Começar a preparar a carteira e procurar um hotel na povoação? Matutava-se sobre isto quando o meu telemóvel tocou. Afinal estava tudo bem. Tinha saído para um passeio de dia inteiro com outra couchsurfer e estava atrasado mas iria tratar que alguém nos viesse abrir a porta. Apareceu a irmã, uma simpática e conversadora senhora. Mostrou-nos a casa e foi-se. Que bom! Que bem soube aquele bocadinho – e ainda foram mais de duas horas – em sossego.

Deppois chegou o Svein e a Ana, uma brasileira de descendência checa que decidiu viver em Praga e escolher cidadania daquele meu país querido. E a festa foi até às 2 ou 3 da manhã. Com comida e bebida e uma companhia que logo fez esquecer as agruras do fim de dia. Foi já com um sorriso que adormeci.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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