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Leste 2014 – Dia 21 – 20 de Maio – Wroclaw

 

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Saí com o Pawel, ele para o trabalho, eu para um dia de exploração em Wroclaw. Apanhámos o autocarro, mais à frente mudámos para o eléctrico (mesmo frente à paragem, um cemitério…. enorme… olá… tenho que ver isto) e chegámos ao centro. Despedimo-nos com um até logo. E fiquei por minha conta, com uma cidade maravilhosa para descobrir.

Como sempre sucede quando me é mostrada uma cidade, tomo imensas notas mentais de pontos que quero ver mais tarde com atenção redobrada. Quase sempre é uma questão de fotografia. Fotografar leva tempo e exige-me uma concentração que não posso ter se estou acompanhado. Um destes pontos foi o Hotel Monopol, um estabelecimento vintage que já viu muita coisa e muita gente famosa ocupar os seus quartos. Do outro lado da rua, a Ópera de Wroclaw. Está um dia magnífico, mesmo quente.

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Ponho-me em marcha. Apesar dos pés terem cara branca para os desvios que entenderem, existe um objectivo: o antigo cemitério judeu, hoje pomposamente chamado “Museum of the Cemetery Art”, de forma a ser explorado pela cidade como um dos seus museus – cerca de 3 Eur. É um pequeno passeio a pé, não chega a 3 km, penso eu. Uma distância que arrepiou o meu anfitrião que tentou repetidamente convencer-me a apanhar um autocarro. Mas antes tenho que chegar à estação de comboios, que é a última referência no percurso… dali, é sempre em frente, por uma avenida espaçosa.

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Ora a estação é na orla do centro, e por isso é certo que verei muitas coisas interessantes até lá chegar. O museu da cidade é por si só uma vista digna de se usufruir, instalado num belo palácio pintado de amarelo escuro, muito bem conservado, com jardins imaculados. No ar, o pólen de uma espécie de árvores cria uma sensação de neve, que cobre tudo, fazendo um novelo branco que rodopia no ar. Descubro uma velha estação de comboios, deixada a um abandono controlado. Uma velha senhora, ainda com um encanto moribundo, ignorada pela multidão, que pisca o olho a quem quer que mostre sensibilidade para notar o seu charme em extinção.

Há estatuária de rua, inesperada, de choque. Na rua mais antiga de Wroclaw uma série de animais de bronze, em tamanho natural; mais perto da estação ferroviária um grupo, podem ser viajantes, emigrantes, refugiados. Numa manhã de nevoeiro confundir-se-ão com a multidão atarefada que os rodeia, passa por eles, ignorando-os. Mesmo neste dia de sol poderiam passar por transeuntes, apesar da sua cor e postura rígida.

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A fome manifesta-se e providencialmente passo em frente a uma padaria que exibe bolos de aspecto aliciante na montra. Entro e aponto com o dedo…. um destes… um destes… um destes… e um destes… a senhora, já idosa, quiçá ela própria a pasteleira, serve-mos, em dois sacos de papel. Gosto especialmente dos que têm recheio de sementes de papoila, a memória a levar-me para uma outra viagem, a Cracóvia, onde bolos com recheio similar fizeram um dos pontos altos da visita.

Agora sim, vou andar até descobrir o cemitério judeu. Passo em frente a um prédio alto onde figuras humanas se encontram pintadas numa das fachadas. Diz que é a Universidade de Economia. E de facto há muitos jovens a circular por ali, sim, universitários, faz sentido.

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Finalmente chego. Um simpático funcionário de bigode à Lech Walesa vende-me o ingresso. O cemitério é minimamente interessante mas está longe de valer os 3 Eur, na minha opinião. Ando por lá um bocado, não muito, porque não me chego a sentir maravilhado. Um pouco, apenas. O suficiente para esquadrinhar as diversas vias do espaço. Noto que algumas petras tumulares têm marcas de uma guerra ida, vestígios de estilhaços que lhes arrancaram orelhas, fragmentações provocadas por pedaços de metal voador, incandescentes.

Agora é regressar ao centro. Felizmente estou cheio de energia, porque já andei bastante e até ao dia chegar ao fim andarei muito mais. O Panorama Raclawicka tenta-me vagamente, mas quando vejo o preço (6 Eur) desisto logo da ideia. Este panorama – como todos os panoramas que conheço – mostra a cena de uma batalha numa tela gigante, em 360 graus, como se de um planetário da refrega se tratasse, enriquecido com figuras, artefactos, à laia de diorama. Gosto de os visitar, mas neste dia não quero gastar os 6 Eur. Passo à frente, que é como quem diz, passo frente ao Museu Nacional, instalado num palácio charmoso, quase integralmente coberto por heras.

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Do lado de lá da avenida um sinal anuncia Wi-Fi gratuita, cortesia da cidade. Procuro-a e trato de uma verificação rápida do estado do mundo virtual, sentado à sombra num banco de jardim.

Avisto já ao longe os pináculos das igrejas na ilha do meio do rio que Pawel e Piotr me recomendaram. Servem-me de farol, indicando o rumo a tomar, mas não impedem um pequeno devaneio que envolve a visita ao velho mercado, ainda activo, num edíficio cheio de história.

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Prossigo para ilha, que na realidade são um complexo de ilhas, com muito, muitissimo para ver. Não vou entrar em detalhes, mas é um local que tem de ser visitado, mesmo pelas almas mais ateias, como a minha. As cores e a arquitectura são ali riquissimas, especialmente com a luz certa, como a de hoje. Há pontes que ligam as diversas ilhas, das quais algumas são um mero pedaço de terra ajardinado, mas as principais são notáveis pedaços da história de Wroclaw. Uma coisa excelente é a legendagem dos elementos de destaque – que nesta área são quase todos – com uma explicação em inglês do que está o visitante a ver. Encontro um café perdido nos terrenos de uma instituição religiosa, o patriarcado ou coisa assim, que pela sua pacatez me fascina. Na mesma área vedada há um bucólico jardim, cujo extremo corre encostado ao rio.

Esta ilha vale-me apenas um parágrafo neste artigo porque não tenho jeito para descrever edíficios e marcos históricos, catedrais e pontos de interesse turístico. Mas, acreditem, é um local que merece muita atenção e dezenas de fotografias.

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Regresso ao centro, isto é, à praça central, a tal que é a segunda maior da Europa a seguir à de Cracóvia. Nas calmas, satisfeito de um dia bem preenchido. Um desejo começa a ganhar intensidade: quero beber uma cervejinha bem gelada! Chegado à praça, que é, por assim dizer, forrada a esplanadas, estudo preços e ambientes mas sinto-me atemorizado pela massa de turistas e locais ociosos que enchem os terraços cheios de mesas e cadeiras. Não, não me sentiria bem ali. Ando pelas ruas envolventes, em busca da solução para este problema. E encontro-a. Um café, muito simpático. Duas mesas no exterior e um ambiente especial lá dentro. Destaca-se um gira-discos, isso mesmo, um “tocado” de vynil. Que trabalha e enche o espaço de música. Uma loura de boas formas – certamente a proprietária – atende-me. Ou melhor, faço-me atender porque ninguém vem à mesa. A minha suspeita de antipatia dissipa-se quando me aparece à mesa com uma série de garrafas nas mãos e me faz um interrogatório detalhado sobre as minhas preferências de cerveja, antes de me entregar a garrafa que se apurou em consequência do inquérito. E acertou em cheio. A cerveja está deliciosa e demoro-me por ali, a tarde já a cair, a noite a chegar. Quando pago a conta, já estou atrasado para o jantar que os meus anfitriões tinham pensado, sinto uma nota de frustração no SMS que me enviam como reacção à minha informação de hora de chegada prevista.

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Por esta altura estou arrasado. Foram muitos quilómetros, certamente mais de 30. Alguns deles com calor considerável. E agora tenho que encontrar o eléctrico certo, que demora um pouco, fico confundido com a localização das paragens. Raios! Devo ter acabado de perder um porque o próximo só passa daqui a 25 min. Agora é que os meus amigos me vão fritar. Mas pelo menos entretenho-me com o louco que na paragem do lado de lá se pavoneia num fato de banho dos anos 70.

O eléctrico deixa-me aos tais 2 km de casa, e agora vou andar, que o autocarro não passa tão cedo. Poderia tê-lo apanhando porque comprei um bilhete de 24 h que me permite poupar algum dinheiro nas andanças de hoje e do dia seguinte.

Por fim chego. Eles já jantaram, como qualquer coisa, preparo arroz doce, um pouco desdenhado de início, mas depois devidamente apreciado. Acabámos por passar o serão à conversa, como na véspera.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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