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Médio Oriente ’11 – Dia 14 – Madaba, Wadi Rum

24 de Novembro

Chegou um dos dias mais aguardados, o da visita ao deserto. Acordámos numa frenética cidade dos subúrbios de Amman, mas iremos adormecer rodeados pelo silêncio ensurdecedor do deserto. Era ainda noite quando saímos para o ar frio da rua. As despedidas, claro, tinham sido feitas na véspera. Tinhamos de estar no centro de visitantes do parque de Wadi Rum às 9:30. Portanto, eram seis e pouco quanto entrámos no carro. Aquelas horas a vida não começou ainda numa cidade jordana. As ruas, ontem caóticas, estão agora desertas. Seguimos as indicações do GPS que, na ânsia de encontrar os caminhos mais curtos, nos leva de novo através de uma série de estradas secundárias até à “auto-estrada do deserto”. E o sol começou a anunciar-se, primeiro com um clarear discreto, algures por detrás da linha do horizonte. Depois, numa explosão de luz alaranjada, o enorme astro levanta-se, majestoso, ganhando aos poucos o brilho característico do período diurno.

Entretanto os quilómetros passam-se e com eles a envolvência muda. Foi deixada para trás a área mais habitada, onde as aldeias cruzadas pela estrada se sucedem, com casas, estações de serviço, comércio tradicional e de rua. Agora, de tempos a tempos vão surgindo as mais surpreendentes estruturas: postos de polícia, instalações ministeriais de natureza indefenida, mas identificáveis pela quantidade incrível de fotografias da família real expostas de todas as formas  e feitios; uma prisão; instalações militares.  Com a presença humana a esvair-se,  a chegada do deserto torna-se notada, e quando chegamos a uma grande curva, avistamos a planície desértica, lá em baixo, que se estende a perder de vista.


Antes de descer, é tempo de uma pausa. Horas de verter águas e de explorar um casario abandonado que ali jaz. Seria provavelmente cabanas de pastores, habitadas muito antes de por ali passar aquele enorme tapete de betão, de tráfego incessante. As cores são impressionantes. O adobe das casas contraste com o céu de azul profundo, a monotonia amarelada do deserto em redor é quebrada por um cedro que se ergue mesmo ali ao lado. Fotografias tiradas, próxima paragem: Wadi Rum.

Deixamos a “auto-estrada do deserto” uns 40 km antes do seu fim, quando chega a Aqaba, um pólo de turismo e comunicações na extremidade sul do país. Em Aqaba existe practicamente uma fronteira tripla, com Israel, Egipto e Arábia Saudita. Mas o famoso porto jordano terá que ficar para uma próxima visita. Para já estamos quase a chegar a Wadi Rum, com um ligeiro atraso, já reportado via SMS ao guia que nos aguarda. Passamos um inesperado checkpoint fixo – aparentemente desguarnecido – e logo estamos no parque de estacionamento do parque de Wadi Rum (Artigo Wikipedia).

Mal saimos o carro e já um beduino se dirige a nós, esperançado de nos vender um serviço qualquer (passeio de camelo, visita guiada a pé ou de jipe, escalada…. tudo se arranja) mas quando lhe dizemos que já temos tudo tratado e vamos encontrar o nosso guia, ele trata de nos orientar. Neste local a congenialidade é enorme. A comunidade parece dividir-se em duas ou três enormes famílias e ao longo do dia iremos encontrar primos em catadupa. Portanto, o nosso guia é primo deste homem, e o companheiro que ele chama é irmão. E o mano vai-nos levar até casa, para acertar o negócio e conversarmos um bocado.

Pagámos-lhe a taxa de entrada no Parque (cerca de 5 Eur por pessoa) e lá fomos, primeiro por uma estrada em excelentes condições, que desemboca na aldeia de Wadi Rum. Depois, pelas ruas traçadas em planta quadrangular, até casa de Mohammed Ahmad (www.bedouinguides.com). Até então tinha trocado alguns e-mails com ele mas não sabia quem ia encontrar. Mohanned é um jovem beduino empreendedor e sofisticado, que aprendeu os segredos do deserto e da escalada com o seu pai. E hoje é o dinamizador deste negócio de família, que gera empregos para todos os seus muitos irmãos e para um batalhão de primos. Com o seu estatuto já não anda pela planície ao volante de jipes com turistas comuns; apenas trata pessoalmente de situações mais elaboradas e dos programas de escalada.


Recebeu-nos na sua “sala de reuniões” cujas poltronas são almofadas e a mesa de trabalho é o chão coberto de carpete. Conversámos um pouco, sobre as nossas viagens, sobre expectativas, sobre a realidade beduina em Wadi Rum. Falei-lhe de Geocaching, mostrei-lhe no mapa onde pretendia ia. Disse-me que de qualquer modo alguns dos pontos estavam no trajecto habitual, e os que não estavam seriam incluidos sem problemas. E quando o irmão que seria o nosso guia para o dia chegou, explicou-lhe sumariamente o que eu lhe tinha ensinado sobre o jogo e deu-lhe instruções para nos levar aos locais específicos. A recepção e o briefing foi apenas  a primeira de muitas boas impressões relativamente à organização de Mohammed Ahmad, que recomendo vivamente a qualquer viajante que venha para estes lados.

Em breve recebemos a resposta a três questões que iriam condicionar ao longo de todo o dia a nossa experiência no deserto: como seria a viatura? E os companheiros de “tour”? E o guia? As respostas não poderiam, literalmente, ser melhores: o carro que nos foi atribuido era de caixa aberta, um chasso, como naquele ambiente faz sentido; que arrepios, ao ver aqueles outros carros que por vezes vimos por lá, de caixa fechada, novinhos em folha, quiçá com ar condicionado… que deslocados que pareciam. Companheiros de “tour”? Nenhuns! Durante todo o dia fomos nós, o deserto e o condutor… acima das melhores expectativas… estava longe de esperar tal tratamento quando uns dias antes escrevi ao Mohammad dizendo que quaisquer parceiros estariam bem desde que não existissem crianças no grupo.  Quanto ao guia, também tivemos sorte. O “puto” falava o mínimo de inglês, não chateava nada e se não funcionava como “guia”, no sentido habitual do termo, fiquei grato pela sua postura de nos dar todo o tempo e espaço do mundo.


Já a bordo, o velho Toyota pôs-se em movimento. Saímos da aldeia pelo lado oposto ao que entrámos, por uma estrada que mais não era que o trajecto definido das viaturas, cuja única percepção era conferida pelas marcas dos rodados que antes passaram por ali. Para trás ficaram as ruas cheias de todo-o-terreno e camiões, uns operacionais, outros decididamente deixados ao abandono. E as crianças, jogando à bola no asfalto. E os camelos, espreitando sobre os muros que os continham.

Então era assim o deserto. Excitante. Mesmo com alguns outros carros à vista, pelo menos para já. As formações rochosas em Wadi Rum são impressionantes, trazendo um toque especial às extensões de areia plana. A primeira paragem efectua-se na chamada “fonte de Lawrence” e a segunda num desfiladeiro, melhor, uma garganta estreita escavada na rocha pelos dilúvios periódicos de água. Por ali quase tudo parece chamar-se “qualquer coisa” Lawrence. A influência do filme, rodado naqueles terrenos em 1962 é enorme. Ainda hoje os beduinos exploram até à exaustão o potencial então gerado. As referências ao filme e ao homem são constantes. E para mim, como fã da obra de David Lean, é marcante pisar aquela areia, por onde não só o actor Peter O’Toole andou, como também o oficial, T.E.  Lawrence cruzou, com os seus valorosos beduínos.

E assim se passou a manhã. De ponto em ponto, com a duração das paragens a serem controlados pelo nosso interesse nos diversos locais que visitámos. Em determinado momento fomos a um sítio onde antigas e misteriosas marcas foram feitas no solo rochoso por mão humana. São “tabuleiros” para um jogo berbere, aparentado das nossas “damas”, que o guia pacientemente explicou (e jogou). Aproximava-se a hora do almoço, e quando chegámos a um arco natural pergntou-nos se gostariamos de tomar a refeição sob o abrigo da tenda que ali perto se erguia ou se preferiamos outro local. Pois ali estava muito bem. Junto a cada uma das “atrações” erguem-se estas tendas onde locais tentam fazer algum dinheiro vendendo bebidas aos turistas. Esta, em particular, tinha um ambiente extraordinário. Os homens que ali se encontravam tinham uma atitude descontraida. Estavam ali acima de tudo para viver a vida, para conviver entre si, para dois dedos de conversa com os guias que ali traziam os seus passageiros e, claro, para conhecer gente de todo o mundo. O negócio era coisa paralela, secundária. Ofereceram-nos um chá, e como foi tão apreciado, serviram outro, e apenas então, timidamente, diria, nos apresentou um saquinho para venda com aquela mistura de ervas secas que nos proporcionava aquela bebida gostosa. Deixou-o despreocupadamente conosco, para que o pudessemos apreciar, e, tendo-o deixado ali mesmo quando partimos, não houve nenhuma reacção de descontentamento.

O nosso almoço era composto sobretudo de alimentos enlatados, uma opção natural dada a natureza de picnic da refeição. Com o ar do deserto a abrir o apetite soube que nem ginjas, e apreciei a imensa quantidade e variedade: lata de atum, frasquinho de compota, pão local, tomates frescos, queijinhos embalados, laranja,  banana, pacote de sumo… e mais coisas deste tipo. Entretanto chegaram mais viajantes. Com um deles meti conversa. Era francês, um dos raros casos em que um francês é interessante e com uma atitude positiva enquanto viajante. Vivia no Cairo. Conversámos imenso tempo sobre este mundo que nos unia, o das viagens e aventuras. Outros, sentaram-se em frente, mais afastados, seguindo a tempos a nossa conversa. Os locais sentavam-se como nós no chão, bebericando o seu chá. Estava-se ali tão bem que nos esquecemos da excitação de explorar Wadi Rum e acabou por ser o guia que sugeriu que se faziam horas de prosseguir.

A tarde já ia a meio, rasgada por aquele momento de interacção, inesperado, mágico pela espontaneidade.  Mas havia tempo para observar outros elementos de destaque. Vimos milenares inscrições, num alfabeto primitivo desenvolvido pelas antigas tribos beduinas. Subimos a enorme duna de areia encarnada. Apreciámos imponentes formações rochosas. E com isto aproximava-se o pôr-do-sol, e, claramente, estar no acampamento onde iriamos pernoitar antes do pôr-do-sol era  o objectivo incontornável do guia. O “timing” foi perfeito. Já estávamos cansados e chegámos lá um bom bocado antes daquele momento especial em que o astro rei se deita. Houve tempo para deixar as coisas na tenda que escolhemos, para ver outros turistas chegarem, para sentir os preparativos para o fim de mais um dia nas areias do deserto jordano. Os carros que passavam, em direcção à aldeia. Os camelos transportando estrangeiros, levados à mão por um beduino paciente.


Trepámos a uma colina rochosa para ter uma perspectiva melhor de tudo aquilo. Entretanto o patamar de baixo encheu-se de outros visitantes. Evidentemente aquele era um ponto clássico para apreciar o pôr-do-sol, mas nós eramos mais sortudos: seria a nossa casa para aquela noite. Quando o espectáculo natural terminou, quase todos dispersaram, ou de regresso à aldeia, ou em direcção aos seus respectivos acampamentos. Ficaram dois, que seriam os nossos companheiros de serão e dormiriam nas tendas a seguir à nossa. Até nisso as coisas correram de forma ideal. Perante uma imaginária escolha entre ficar num acampamento vazio, aborrecido e triste mas sem o risco de uma multidão desagradável, e a animação de uma noite mais caótica, com muita gente a trazer vida ao local mas sob o risco de nos sair algum “cromo” em sorte, obtivemos “o melhor de dois mundos”.

Caida a noite, reunimo-nos na tenda comum, onde o fogo era acendido. Um dos parceiros de serão era porto-riquenho e o outro era mexicano. Ambos se revelaram excelente companhia, numa noite em que a conversa fluiu naturalmente, sem pausas embaraçosas, sem assuntos desinteressantes. Em redor do fogo sentaram-se também o nosso guia (os deles foram passar a noite a casa) e os administradores do campo, um casal, sofisticado, com perfeito inglês. Ele era mesmo dali, mais um irmão de Mohammad; ela, sua esposa, era francesa de origem argelina. Ambos escolheram passar a sua vida (ou pela menos esta fase) em Wadi Rum. Mas podiam perfeitamente estar em Paris ou noutra qualquer metrópole ocidental, onde encaixariam pefeitamente.

Em suma, uma selecção de gente simplesmente ideal para partilhar o jantar e o fogo, muitas histórias, ideias e perspectivas. Apenas o nosso guia se mantinha algo á parte, pertencendo claramente a outro mundo. Subitamente uma pequena agitação. Era o jantar que chegava, acabado de cozinhar, trazido de jipe até ali. Um delicioso estufado de vegetais e carne de galinha, com arroz, pão fresco. Muito bom. Foi o corolário de um dia em grande durante o qual tudo correu de forma ideal. A forma como eles têm aquilo montando encontra-se num perfeito equílibro entre o providenciar de condições aceitáveis para um ocidental e o carácter genuino da forma de vida ancestral e do ambiente envolvente. Para mim este balanço não poderia ser melhor encontrado. E por tudo isto o preço foi de 50 Eur por pessoa. Um carro a rolar o dia todo com um condutor às ordens. Comida (almoço, jantar e pequeno-almoço) e dormida. Uma excelente relação qualidade-preço!

Tão bom foi o serão que quase nos esquecemos de apreciar o famoso céu estrelado do deserto. Já era relativamente tarde quando nos fomos todos deitar. Estava frio, mas ainda permaneci um pouco no exterior.  A olhar o infinito, lá em cima, e a escutar o indescritivel silêncio do deserto.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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