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Médio Oriente ’11 – Dia 3 – Amman, Salt

13 de Novembro

Convidámos o Raoul para passar o dia conosco, pelo menos até à hora do almoço, porque ele tinha compromissos para a parte da tarde.  A manhã iniciou-se com uma visita ao Museu Militar, localizado na Cidade Desportiva de Amman. Apanhámos um táxi, mostrei o papelito com os escritos em árabe descrevendo o nosso destino e seguimos. O rapaz prestou um bom serviço, porque não é fácil de dar com aquilo, nem mesmo para ele. Mas parou, indagou, e eu, desconfiado, acabei por, em pensamento, dar os parabéns pelo seu trabalho, porque a verdade é que nos conduziu sem precalços até lá, por um valor bastante bom (não chegou aos 2 Eur).

Bem, sem precalços é uma forma de dizer, apesar de não ter sido da sua responsabilidade: já dentro da Cidade Desportiva, quando ele se detém junto ao portão que dá acesso aos terrenos onde o Museu se encontra, uma cancela barra a entrada e surge uma sentinela armada até aos dentes. Caramba, o rapaz era mal encarado! Depois de ouvir a explicação do motorista, vira-se para nós: “Where are you from!?? Passport!”. O Raoul disse-me depois que pensou naquele momento que ia passar a noite nos calabouços. O militar examinou os documentos com aquela característica cara de burro a olhar para um palácio, devolveu-nos, e com ares de magnanimidade, deu-nos autorização para prosseguir.


O Museu é agradável. Pequeno, em termos de colecção, mas bastante interessante. E de borla. A exposição desdobra-se por uma série de vitrinas construidas numa rampa em espiral, e inicia-se com objectos relacionados com a Grande Revolta Árabe de 1917, conduzindo-nos pela história militar do país até à actualidade. Esta opção cativou-me desde logo, fazendo-me pensar numa conversa que tinha tido com o Yazed – futuro guia turístico – sobre o erro que era a Jordânia não investir na promoção da sua História enquanto país, dependendo e resumindo-se a uma série de vestígios deixados por outros em tempos remotos. Ele não concordou comigo. A mim, se fosse jordano, chateava-me, esta subserviência a outros tempos.

Os primeiros expositores emocionam. Levam-nos a uma viagem no tempo, até aqueles momentos de nacionalismo romântico sublimados na história de Lawrence da Arábia, que rechearam o imaginário de crianças de tantas gerações, incluindo a minha. Depois, discretamente, passamos para a Segunda Guerra Mundial… para os conflictos Israelo-Árabes… e para os tempos modernos.

Terminada a visita ao Museu havia que apanhar outro táxi para a mesma estação de autocarros, onde já tinhamos estado duas vezes. A rotina repetiu-se: da cidade até lá o preço da corrida foi justissimo, e o autocarro certo foi encontrado depois de perguntar ao motorista de aspecto mais ilustre que avistei. A caminho.

Nos transportes públicos há algumas regras de comportamento que se procuram seguir: as mulheres, sempre que possível, devem evitar sentar-se ao lado de um homem desconhecido. Se não houver outra hipótese, pode ou não suceder, dependendo de quão conservadores são os intervenientes da cena. Mas o nosso bom amigo Raoul tinha lido outras indicações e isso saiu-lhe caro: em determinado momento o autocarro pára e entram duas jovens… ora ele tinha lido que as mulheres se deveriam sentar na parte traseira dos transportes públicos e nós ocupávamos precisamente o último banco. Vai dai, expeditamente, o pobre Raoul levanta-se apressadamente e muda-se para o único banco de duas pessoas que estava livre. Resultado: uma delas sentou-se ao lado de outra mulher, mas a segunda abancou-se onde o Raoul tinha acabado de se instalar. Estava armado o drama. O condutor, sem se voltar para trás, pega uma monumental descompustura no nosso amigo, que não sabia onde se havia de meter. O homem, conservador o suficiente para nos fazer ouvir o Corão recitado durante toda a viagem, fixou o nosso amigo pelo espelho retrovisor e descascou-lhe forte e feio durante longos segundos, em árabe, claro. Não houve consequências para além do momento embaraçante. O Raoul voltou para o pé de nós e seguimos viagem. revista s situação, crei que compreendo a ira despertada: para um observador, o que o Raoul fez poderá ter parecido uma tentativa de aproveitamento… “mudo-me para ali, ela tem que se sentar ao meu lado e fico-me a rir”.


Salt é uma cidade encantadora, o local ideal para quem pretende conhecer da Jordânia mais do que Petra e o Mar Morto. Tem um pulsar natural, partilhado ocasionalmente por um ou outro turista (no autocarro vinha um casal de europeus). O que dizer mais sobre Salt… ficou-me na memória a multidão de jovens, estudantes, em movimento. O simpático mercado, com um toque de souk mas muito mais limpo e arranjado.  Os percursos organizados para os visitantes. O museu da cidade. Pronto, vamos lá a ser específicos. Quem chega de autocarro deverá encontrar a rua que sobe, direita à praça central; esta, já teve um protagonismo mais acentuado, mas é ainda, tenuamente, o local principal. Ali se vêem os velhotes, tal como em Portugal, no convívio descontraido dos reformados, à conversa ou nos seus jogos. Defronte, o excelente museu de Salt, que se aconselha como ponto de partida para uma visita mais pensada. Distribuido por três andares, está instalado numa antiga casa senhorial, com algumas salas quase vazias, mas outras bem recheadas de motivos de interesse, com especial atenção nos aspectos etnográficos. É uma bela introdução à sociedade jordana de outros tempos. Neste museu fomos reis. Únicos visitantes, sentámo-nos nos confortáveis bancos, sentindo que, não fosse abusar da hospitalidade, pderiamos apssar ali o resto da tarde, simplesmete a ler e a descansar. Depois abrimos as portas-janelas e entrámos na monumental varanda que dá para a praça central. Além de mais, este museu é uma alternativa válida a um posto de turismo: na recepção encontram-se brochuras sobre a cidade, incluindo um precioso roteiro do percurso organizado, para além de documentação sobre outros locais de interesse no país. Infelizmente chegámos até ao museu depois de termos subido até ao topo de uma das colinas (Salt tem o seu núcleo histórico no vale, tendo depois trepado pelas colinas envolventes).  Até então tinhamos achado um interesse comedido nesta cidadezinha, mas depois de nos enquadrarmos no percurso proposto a coisa mudou, e muito, para melhor.


Não vou descrever as dez ou doze “estações” que visitámos seguindo os cartazes estrategicamente colocados, apontando a direcção do ponto seguido a a distância. Mas foi bom! Igrejas perdidas neste mundo islâmica, casas de personagens importantes na sociedade local, antigos locais de ofícios, como  a padaria abandonada há décadas, na sequência de um terramoto. Pictoresco. Tudo muito pictoresco.


Entretanto o Raoul deixou-nos, para o seu compromisso vespertino. Já não testemunhou mais uma das manifestações de hospitalidade destas gentes, quando duas mulheres, talvez mãe e filha, vendo estrangeiros nas imediações, se empolgaram em convites para se tomar um chá em sua casa. Não pudemos aceitar, mas não pense o leitor que aqui as coisas se passam como em Marrocos, onde por regra cada convite traz consigo uma segunda intenção. Não. Aqui as pessoas convidam pelo puro prazer de agradar a quem visita, de aprender um pouco sobre o mundo, de quebrar a monotonia do seu quotidiano.


Chegada a hora de terminar a visita, encontrámos a estação de autocarros. Perguntámos aqui e acolá onde seria a paragem para Amman e foram-nos indicando. Até que, seguindo a direcção geral que nos tinha sido apontada, questionámos o condutor de um autocarro, já cheio, que nos disse para entrarmos. De tão cheio estava, tive que me sentar no degrau da porta, pensando para os meus botões que ia ser uma rica viagem… e estava eu a matutar nisto quando desperto para o mundo real, apercebendo-me que toda a gente me diz “Amman, Amman”, fazendo sinais para eu sair. Que raio… Amman? Mas estamos em andamento há três minutos, estão a mangar comigo… ? E de repente percebo… a boa gente tinha-se limitado a dar-nos boleia até à paragem certa para o autocarro para a capital!

A bordo, o novo motorista, de muito mau humor, recusa a nota que lhe estendo para pagar. O bilhete é 1 JD e eu só tenho uma nota de 20 JD… vou a correr à mochila e regresso com 5 JD. Mesmo assim é demais para o indisposto funcionário. Explico-lhe por gestos que ou é aquilo ou então as moedas… que são 20 cêntimos. Pois ele faz um gesto com a mão, como quem diz… bota ai então essa miséria de moedas e pira-te. Óptimo. Nunca me indispus com rudezas quando estas me poupam dinheiro.

Ao serão, como sempre, é tempo de Limana. Só que hoje há um pequeno meeting de couchsurfers. Vai o Nael, claro. Vai o Raoul e vão dois italianos que tinham ficado com o nosso anfitrião uma semana antes, e que estão de volta, efemeramente, antes de apanharem o avião para casa. E aparece um casal de jordanos, ele trabalhando na Alemanha, ela, hospedeira da Jordan Royal Airlines. E dizem-nos que somos loucos por pensar em ir à Síria e que, já agora, acham que as fronteiras foram encerradas naquele dia. Não foram. Mandei um SMS ao meu próximo anfitrião em Damasco que se desdobrou em contactos para confirmar ou desmentir a notícia, que afinal era boato. Então é isso… no dia seguinte, Síria, com alguma ansiedade.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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