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Médio Oriente ’11 – Dia 4 – Amman, Damasco

14 de Novembro

Este foi o dia de todos os medos, aquele que foi ponderado, analisado, reflectido e pensado um cento de vezes. Entrar na Síria. Aquele país que esteve na  essência desta viagem, que foi colocado em causa, que esteve riscado do plano, para depois resuscitar, á última da hora, à medida que lia relatos de viajantes que traziam alguma tranquilidade ao medo criado e manipulado pela comunicação social. Como se leu, um derradeiro ataque desse vil medo tentou cancelar a viagem a meras horas da partida, mas a voz do bom senso emitida a partir de Damasco restabeleceu a ordem: as fronteiras não estavam fechadas e de resto não se passava nada de extraordinário no país, pelo menos nas áreas a visitar.

Mesmo assim foi com ansiedade que acordámos, cedo, para nos deslocarmos ao local de onde partiam os táxis partilhados para Damasco. Atenção, quando em viagem se fala de táxis partilhaos a imagem que vem à ideia é a de um veículo decrépito, onde pessoas se encaixam como podem, destinadas a partilhar algumas horas em comum a uma distância demasiado próxima umas das outras. Aqui, não é nada disso. Estes táxis partilhados são carros de luxo, novinhos em folha, imaculadamente limpos e disponíveis para quatro passageiros que dexejem deslocar-se entre as capitais destes países. O valor do percurso é de 44 JD (já disse que o Dinar jordano e o Euro se equivalem?). Portanto, se existirem quatro passageiros, toca 11 Eur a cada um. Se não se quiser partilhar ou não houver tempo para esperar por mais, o que interessa ao gestor do táxi é que se pague os 44 JD, e a partir daí segue-se viagem.

Ora o nosso táxi regular, apanhado à porta de casa, trouxe-nos sem incidentes até um ponto, sem qualquer indicação específica, onde dois ou três destes carros de bom aspecto aguardabam clientes. Claro que os tempos não são os melhores para o negócio. A tensão na Síria afasta clientes. Tentam-nos despachar a sós, mas não queremos pagar a tarifa dobrada. Insistimos em esperar. Somos convidados a aguardar no escritório da pequena empresa (ou será uma cooperativa? Não chegámos a compreender como está articulado o negócio) que faz de sala de espera. E, felizmente, e ao contrário do que toda a gente nos tinha dito, não apanhamos nenhuma seca. Cerca de dez minutos depois, já pago o bilhete e arrecadado o recibo, dizem-nos que vamos seguir. A comunicação é complicada, ninguém fala uma língua comum, e não compreendemos como é que vamos seguir, só os dois, num carro, se pagámos apenas 11 Eur cada. Mas isso não é problema.


Estamos a caminho, abandonamos Amman por vias largas, aquela hora practicamente desertas. Depois, a estrada impecável que leva á fronteira. E a determinado momento o nosso condutor, com uma palavra aqui e outra ali, faz-me perceber: iremos parar para nos encontrarmos com os outros dois passageiros que partilharão o táxi. E assim sucede. Uns quilómetros volvidos encostamos junto a um estabelecimento que de tudo vende (e até faz câmbio, ao qual o nosso bom homem nos encoraja, certamente aguardando uma comissão por parte do proprietário, mas sem sucesso), e esperamos. Foram uns trinta minutos, até chegar um carro transportando uma mulher velada e uma criança. Como manda o protocolo, sigo viagem no lugar ao lado do condutor, e a cambada vai lá atrás.

Logo depois chegamos à fronteira e algo corre mal. Quando o nosso carro chega ao primeiro ponto de verificação, o guarda jordano manda-o para trás. Claro que não percebo porquê, mas a explicação que o condutor dá à mulher que viaja conosco deixa-a sossegada, logo, não vejo motivos para preocupações.

Retornamos cerca de quatrocentos metros, paramos junto a dois carros, o nosso conduto sai e inicia uma extensa conversação, que vou acompanhando pelo espelho retrovisor. A coisa não está pacífica, há discórdia… mas por fim chega o acordo. Dizem-nos para nos mudarmos para aqueles dois carros. E é num deles que atravessaremos a fronteira.

Nem sei quanto tempo demorámos no processo, talvez uma hora e meia ou duas. Mas correu tudo bem. Simplesmente existe uma infinidade de procedimentos, alguns da natureza burocrática, e outros por segurança. Primeiro, paragem á entrada do lado jordano. Nova paragem para verificação de segurança. Depois, ir ao visto de saída do país. Nova verificação na qual pagamos a taxa de saída (achoq ue por pouco escapávamos a largar estes 8 JD, que de resto foram um pouco menos para facilitar os trocos). E última barreira no lado jordano, onde verificam que temos tudo em ordem. Chega a fronteira síria. O pessoal de serviço é muito diferente dos jordanos. Meio fardados meio à civil, de aspecto rufião, barbas por fazer. Dá-se a primeira verificação, e procedemos para o segundo ponto. Nova vista de olhos nos passaportes. Mais à frente, o posto fronteiriço propriamente dito, enorme, as instalações fronteiriças maiores que já vi. Um funcionário simpático atende-nos, manda-nos pagar o visto de entrada ao colega do gabinete em frente. Ora bem, ao espreitar no tal gabinete da frente, vimos o sírio em questão a fazer ó ó numa caminha. Mas, quer dizer, uma caminho mesmo, a sério. Com lençois, cobertores, almofada. Só lhe faltava um barretinho com um pompom e um pijamita a condizer. Olhamos para trás, confusos, e o simpático de sorriso aberto faz-nos sinal para batermos no vidro do guichet. O que fazemos, assistindo depois ao espectáculo da bela adormecida, que se levanta, primeiro uma perna no chão, depois outra… olha-nos com ar revoltado, e vou já tremendo com o castigo que sofreremos à laia de retaliação. Espreguiça-se com todo o vagar do mundo e senta-se então no seu posto de trabalho. Talvez planeasse passar à contra-ofensiva no capítulo dos trocos, mas teve azar, porque levou logo ali, bem contadinhos, os 55 Eur que pediu pelas duas pessoas. Mais barato do que esperávamos. É a segunda poupança num espaço de minutos, depois do desctonto surpresa na taxa de saída da Jordânia.

Regressamos ao colega afável, que nos devolve os passaportes, desejando uma boa estadia no país. Mas ainda não está terminado. Mais á frente, é a sessão de revista de bagagens, e é ai que o coração acelera. Podem implicar com a cãmara (jornalistas estrangeiros não t~em acesso à Síria nesta altura) ou com o computador. Mas tudo corre bem. O guarda que nos assiste abre ligeiramente o estojo do computador e devolve-o sem mais. Mete a mão na mochila até ao fundo. Não sei se não sentiu a câmara ou se não quis saber, mas em menos de nada estava terminado o procedimento, arrematado com mais um alegre e sincero “welcome to Syria”.  Ultrapassamos ainda mais dois postos de segurança, onde a papelada é verificada, e estamos na Síria!

Mudamos para o nosso carro original e rolamos despreocupadamente pela estrada que conduz até Damasco, a cerca de 100 km da fronteira. Não se avista nada de anormal. Há intenso tráfego de pesados de mercadorias, mas nada de presença militar. Apenas para entrar na área urbana da capital somos parados em dois checkpoints, onde elementos com o aspecto suspeito dos que encontrámos na fronteira me verificam sumariamente o passaporte sem levantarem quaisquer dificuldades.

Olha, e de repente o táxi sai da auto-estrada, e o tipo diz-nos que chegámos. Mas que porra é esta? A ideia era deixar-nos no sítio do costume, ou seja, na estação de autocarros que serve as ligações para a Jordânia e Libano, mas o malfadado homenzinho dali não vai passar. Abandonados num acesso à auto-estrada, os telemóveis não têm acesso à rede síria, e, note-se bem, nada de dinheiro local no bolso. Que rico serviço!

Não passou muito tempo antes dos primeiros abutres, leia-se, taxistas, se começarem a aproximar. Os primeiros, com os maus-fígados com que estava, foram repelidos com alguma aspereza. Depois, aproximou-se um que me inspirou a debater a situação. Aceitava pagamento em Euros, mas, claro, o valor que tive que aceitar era uma roubalheira. Foram cerca de 4 Eur por um serviço que valia 0,80 Eur. Mas o que são 4 Eur para sair de uma situação daquelas? Claro que a viagem, nas mãos de um assumido crápula e por uma cidade desconhecida, sobretudo em tempos complicados, foi uma descarga pegada de adrenalina. Por exemplo, como saber que, quando o homem anunciou a chegada ao destino final, eu estava efectivamente onde queria? Para piorar as coisas, um olhar em redor não revelou a presença do meu anfitrião local. Mesmo depois de uma breve discussão para o forçar a dar algum troco à nota de 5 Eur que lhe foi entregue, convenceu-se o diabo do taxista, enquanto se repelia meia dúzia de outros que já nos queriam levar para Beirute e outras coisas do género, a deixar utilizar o seu telefone. E vá, a partir daí a coisa compôs-se. O bom do Alfrendo surgiu de entre a multidão, de braços abertos, naquela atitude generosa que, como vim a descobrir, é uma das suas genuinas características.

Ficámos logo com as opções todas: se queriamos ir já explorar a cidade, que ficava para aquele lado, ou se era melhor fazer primeiro os 5 km na direcção oposta para deixar as mochilas? Era melhor aliviar-nos do peso. Pronto, então nesse caso, se queriamos ir de táxi, ou de carrinha partilhada? Optámos pela primeira hipótese por uma questão de volume. E em menos de nada estávamos no simpático apartamento de Alfrendo, que nos serviu logo de deliciosos bolinhos e chá. Familiarizados com as instalações partimos para a cidade, de novo de táxi, nem sei bem porquê.

Alfrendo revelou-se um sensato conselheiro. Definiu em poucas frases o que seria aceitável fazer, e o que poderia chamar a atenção da polícia secreta. Andar de câmara ao ombro nos bairros afastados da zona turrística, era melhor não. Na cidade antiga, sem problemas. Mas, apesar das condições razoáveis, aquela conversa teve o condão de me retirar toda a inspiração. E isso reflecte-se no meu arquivo. Dois dias completos em Damasco geraram pouco mais de cem fotografias.

Saímos do táxi à chegada à cidade antiga, onde o trânsito engrossava e não faria sentido estar a perder tempo para poupar as solas. Caminhámos por uma avenida larga, onde uma multidão de estudantes universitários cirandava. Passámos por uma praça onde Alfrendo assinalou o pequeno modelo da mesquita Hagia Sophia, ali colocado por sultão generoso, cheio de vontade de partilhar com o seu povo aquela maravilha que tanto o tinha fascinado durante a sua viagem a Istanbul.

Passámos pela  longa avenida coberta onde as roupas e respectivos acessórios dominam. São cerca de quinhentos metros, de pura ebulição. De forma perpendicular existem acessos a mercados paralelos, a ruas cheias de comércio. Mas ali, onde caminhamos, sucedem-se as lojas que exibem os mais ricos produtos do Oriente, como nos habituámos a imaginar enquanto crianças. Elaborados trajos de casamentos, lenços de todas as cores e materiais, chapéus, gorros e barretes, segundo a tradição das mil e uma tribos sírias. No meio vendem-se petiscos, enquanto que por ali circulam homens servindo café e chá. A espaços existe um estabelecimento que negoceia noutros ramos. Por exemplo, a legendária gelataria que ali funciona há séculos (literalmente) e que como viemos  a descobrir no dia seguinte vende um creme de leite gelado que é uma delícia. Sem mais nada. Sem aromas ou outros aditivos. Apenas leite, que depois de transformado em gelado é servido coberto de pistachios. Por algo como 0,60 Eur.

À saída deste “túnel” mágico encontra-se a grande mesquita Umayyad, um espaço impressionante, que abala pelas suas dimensões, pela beleza dos pormenores decorativos, pelo banho de cor, pela dinâmica das pessoas que atravessam os seus páteos. Por ali atarefou-se o Alfrendo, a contar-nos as pequenas histórias, partilhando algumas das suas memórias de menino. Levou-nos com a mestria de um guia encartado através das áreas abertas e dos interiores, cheios de segredos que assim nos foram revelados.

Depois, internámo-nos no mundo maravilhoso da cidade antiga e dos seus mercados. A fome começava a apertar, mas o verdadeiro tormento era escolher o que comer. Tudo parecia apetitoso por ali. Entre montras repletas dos afamados doces sírios, passando por lojas de croissantes acabados de cozer e recheados com os mais deliciosos cremes, até os mais tradicionais kebabs, falafels e uma espécie de pizzas muito populares por lá.  Mas atenção, que nem vos passe pela ideia em chamar-lhes assim; eles têm um nome próprio para o petisco e recusam qualquer paralelismo com as comuns pizzas ocidentais. Acabámos por nos sentar nuns bancos na rua, com um pouco daquilo tudo e foi simplesmente genial. A qualidade da comida dita de rua é algo de outro mundo.

Já de estômagos confortados seguiu-se um longo passeio, no decorrer do qual fiquei com a impressão de ter percorrido cada uma das vielas da cidade antiga, por maior que esta seja. Uma ideia errada, segundo o Alfrendo, que informou com um sorriso que apesar das muitas horas a caminhar não teríamos visto mais do que 30% da cidadela.

Fez-se noite e ainda caminhávamos. Depois, veio o apagão, e acenderam-se as lamparinas a querosene, activaram-se os geradores. Foi por essa altura que nos dirigimos para o local onde tive uma das experiências mais marcantes de toda a viagem: o café do contador de histórias. E o que é isto? Bem, é o cantar do cisne de uma velha tradição, outrora comum por toda a cidade, e a que hoje apenas se pode assistir aqui. Todos os dias, entre a penúltima e a última chamada para a oração, um homem senta-se numa espécie de trono, vestido à maneira antiga, e conta histórias, que vai extraindo de um precioso livro. A sua entoação é mágica, estudada para que cada palavra seja absorvida pela audiência. Foi-me dito que em tempos, quando a arte de contar histórias era quase motivo de competição entre ilustres narradores, lutas eclodiam na plateia entre discórdias sobre a natureza de um ou outro dos personagens do conto. Em certas ocasiões, um espectador mais extasiado, espetava um valente banano no contador, quando este descrevia a vilania efectuada por um dos maus da história. Outros tempos.

Havia algum receio que o lugar do contador de histórias fosse agora demasiado turístico. Não era. Pelo menos nestes tempos dificeis, quando apenas uma mão cheia de viajantes se atreve a entrar no país. Cá fora, na esplanda, ainda vimos uns quantos estrangeiros. Mas na sala repleta de fumo, apenas locais. Uns, dedicados apenas às suas bebidas e conversas. Outros, mergulhando de alma na história do dia. E há uma coisa: quando se chama para a última oração, não importa se a acção está no seu ponto mais alto, porque pára logo ali, e apenas no dia seguinte é retomada. E o contador joga com isso, de forma quase sádica, arrastando a narrativa para desespero dos atentos clientes, que o incitam a acelarar, temerosos de perder a melhor parte, invariavelmente cortada pelo cantar emanado a partir do minarete.


Saímos quando o bom do homem, respeitando a tradição, arrumou o livro debaixo do majestoso cadeirão ao soar das primeiras palavras do chamamento. Tinhamos algumas tarefas, a cumprir numa cidade em efervescência de hora de ponta. Trocar dinheiro no mercado negro era uma delas. Uma discreta loja movimenta quantias incríveis, empregando um pequeno exército de vigilantes que são invisiveis aos nossos olhos pouco experimentados. Decorreu sem problemas, e saímos muito satisfeitos com a taxa de câmbio. Depois, comprar jantar. O Alfrendo é um maníaco da perfeição. Fez-nos andar quilómetros em busca da melhor pastelaria… e mais uns quantos para comprarmos daquelas “pizzas” de que falei, e, por fim, um esforço até atingir a sua loja de sumos favorita. Como ele diz, é cliente desde antes de ter nascido, uma vez que a sua mãe, grávida, ia ali diariamente beber um copo de sumo. E que sumo! Trouxemos uma garrafa grande de néctar de morango de Damasco, uma variante endémica que oferece um sumo divinal. Depois, vendo que éramos estrangeiros, o empregado ofereceu-nos dois copos pequenos, para consumo imediato, e deve-se ter derretido ao observar a nossa expressão de puro deleite. Vi passar dois copos de uma bebida cremosa para uma mesa colocada na rua, e perguntei do que se tratava: batido de banana com mel, coberto por natas e frutos secos. Caramba! Tenho que regressar no dia seguinte para uma dose daquelas!  O preço de tudo isto é uma coisa surreal: aqueles batidos de quase um litro custavam menos de 1 Eur!

Para regressar ao apartamento apanhámos uma carrinha partilhada. Estas viaturas são a espinha dorsal do sistema de transportes públicos de Damasco, e dominar a sua utilização é uma ciência. Mas os pormenores deixo para o artigo do dia seguinte, que este já vai longo. O serão passou-se em redor da mesa, comendo, bebendo e conversando, sobre tudo, até altas horas da noite.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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