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Médio Oriente 2015 – Kashan – Dia 21

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Finalmente estou à solta. Depois de quatro dias acompanhado já sentia falta desta capacidade de errar em silêncio, seguindo apenas a vontade de momento, escolhendo a cada virar da esquina o próximo destino. Estou no centro histórico de Kashan, onde o Mustafa me deixou depois de dar as últimas indicações. Antes, fomos comprar o meu bilhete de comboio para Yazd, para o dia seguinte de manhã.

Era suposto visitar os locais históricos da cidade, mas o que eu quero é meter-me pelas vielas e ver o que há lá. Aquela hora ainda há pouco. Há homens a sair para o trabalho, quase sempre de motorizada. Mulheres que vêm à rua tratar de assuntos banais. Aqui quase todas veste da forma mais tradicional, de negro, tudo tapadinho. Em meu redor o domínio é das cores do Médio Oriente: castanho e azul. Este último lá em cima, tudo o resto dominado pelo primeiro. O piso é alcatroado ou empedrado mas a poeira pinta-o com o mesmo tom de castanho que vejo nas habitações.

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A ruela que seguia revela-se um beco. E a seguir outro. Não importa. A temperatura está ideal para estas coisas. Fico a pensar um pouco na vida. Não estou muito inspirado para visitar as casas-museu que são o centro das atenções turísticas em Kashan. Essas e os Jardins Fin, na orla da cidade. Vejo turistas. Começam a aparecer. Saio do bairro antigo, atravesso uma rua já quase avenida e meto-me pelos becos do outro lado. Um senhor, vendo-me voltar para trás, aponta-me com um sorriso benigno o caminho que ele julga que eu preciso. E julga bem. Já tinha decidido que queria espreitar a mesquita histórica de Kashan, a Agha Bozorg e a direcção apontada faz-me aproximar desse templo.

É interessante, mas reparo que a luz nao é a melhor, com o sol a levantar-se por detrás do edíficio. Tomo nota mental para regressar lá ao fim da tarde, mas deixo-me ficar por um bocado. Apesar de um par de pequenos grupos de turistas a calma reina ali. O rumor do trânsito é quase imperceptível e vejo um mullah passar. Um homem de mais idade está sentado num nicho de pedra a ver as coisas.

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Ando um pouco mais pelas avenidas ladeadas de comércio tradicional. Quero encontrar o bazar. Tinha na memória que algures havia lido que o bazar de Kashan era dos mais interessantes. Pergunto a um tipo “bazar?”. Pergunta-me logo se não falo inglês e afinal para onde quero ir. Bazar não conhece mas “market” é logo ali, é só atravessar a rua.

À entrada, compro uma espécie de batido de banana que foi tão barato que nem sei, mas que era igualmente mau, artificial, químico. Mau sinal. Assim que me apresto a entrar vejo logo um casal de velhotes muito brancos, muito turistas, que vêm a sair. Os primeiros momentos ali dentro não são especialmente agradáveis. O comércio que vejo é moderno, convencional. Mas depois começo a avistar botequins mais alternativos e de repente dá-se um momento mágico que marca a viragem do humor daquele dia. Dou comigo sob uma cúpula altissima, que, creio, oferecia em tempos idos um efeito de frigorífico onde eram mantidos os bens perecíveis. Naquele dia não vi nacos de carne a pingar sangue nem vasos cheios com yogurte fresco. Vi um grupo de velhotes a bebericar chá, comerciantes de tapetes ociosos, funcionários que se sentavam à secretária de escritórios decadentes dedicados a nada que se pudesse perceber. Uma fonte que já viu melhores dias no centro de um pequeno lago forrado a mosaico azul. Mas acima de tudo senti a frescura do local, a calmaria que se seguiu à travessia dos corredores de comércio puro e duro. Gostei tanto que me sentei lá a um canto e fiquei durante longos minutos a observar os detalhes.

Depois desta pausa a inspiração fotográfica chegou em grande. Passei por todos os corredores do bazar que encontrei. Talvez fossem mesmo todos, não sei. Mas eventualmente senti que chegava e voltei à rua, já com outra disposição.

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Pensei vagamente em ir até aos jardins Fin, talvez a atracção maior da Kashan, mas não… não estava entusiasmado com a ideia de me ver abraçado por uma multidão de turistas, de lidar com autocarros e taxistas (fica a 8 km do centro). Descartei a hipótese e voltei, calmamente, para o bairro histórico.

O Mustafa tinha-me dito que se eu quisesse visitar apenas uma casa-museu deveria escolher a Residência Tabatabaie. Se quisesse ver duas, então a seguir tinha a Casa Abassiana. Aproximei-me desta segunda, que tem em anexo um restaurante e casa de chá para turistas com Wi-Fi, e hesitei. Aproximei-me da bilheteira. 100.000 Rials. 2,50 Eur. Não é muito, mas também não é o meu género de programa. O senhor da bilheteira e um outro posavam para uma turista que lhes recomendava “just relax”. Retrato tirado, debandaram e fiquei ali a olhar. Bem, sendo assim… volto para trás.

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Por esta altura dei por mim um pouco perdido. Estava calor, já levava vários quilómetros nas pernas e começava a ficar cansado. Olha, entrei num café, claramente para turistas, pedi duas garrafas de água e uma taça de gelado (1,25 Eur). Soube-me bem. Liguei o computador e escrevi um bocado. Até me sentir retemperado. Paguei, saí e fui à procura da Residência Tabatabaie. À bilheteira conversei um bocado com um velhote checo, de Prosek – Praha. Paguei ingresso e entrei.

Fiquei logo maravilhado. Aquilo era muito melhor do que tinha antecipado e o número de visitantes bem menor. A casa foi construída para um mercador abastado, um exemplo perfeito de arquitectura persa de início do século XIX. As salas estão nuas, mas os elementos decorativos estruturais, como os vitrais coloridos e as fachadas de pedra talhada, fascinam. Há diversos páteos, escadas que ligam os dois pisos, um sem número de passagens e salas. Cada sala tem uma inscrição descritiva, um simples nome, que sabe a pouco mas que oferece uma ideia geral do que estamos prestes a ver. O visitante terá muito com que se entreter.

Inspirado por aquela primeira experiência dirige-me à Casa Abassiana. Assim que entrei percebi uma diferença fundamental: a primeira era bem mantida enquanto que esta tinha as marcas de um abandono relativo. Na primeira era fácil perceber um sentido na visita, mas na Abassiana senti-me um pouco perdido. Sem problema. Tinha os seus atractivos e pensei que o conselho do Mustafa tinha sido preciso.

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A Casa Abassiana foi construída em finais do século XVIII segundo os princípios da arquitectura Kashani. Terá pertencido a um clérigo de alta hierarquia e contém seis páteos e dois pisos. Mais sossegada, com ainda menos visitantes, esta mansão ofereceu-me uma imensa tranquilidade. Sentei-me a ler um pouco à beira de um dos dois lagos da propriedade, até que um grupo de mulheres iranianas chegou e o sossego acabou.

Já tinha mandado um SMS ao Mustafa a perguntar como é que regressava a casa, mas na ausência de uma resposta voltei aos locais da manhã: na mesquita, com a luz de final de tarde, consegui as fotos perfeitas. Depois cheguei ao mercado, mas desta vez fui pelo lado oposto. O Mustafa tinha-me dito que havia ali uma parte do dia em que as lojas encerravam, mas essa hora já tinha passado há muito e por onde andei estava tudo fechado. Estranhei, mas não desanimei. Interessante na mesma.

Algumas, raríssimas lojas, estavam mesmo assim de portas abertas. Passavam pessoas, mas poucas. Era um ambiente estranho, sobretudo aquela hora. A espaços o corredor voltava a céu aberto para se tornar a cobrir mais à frente. Todo o mercado é feito de adobe, o que é notável.

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A noite já tinha caído quando recebi o SMS do Mustafa. Para apanhar um táxi para a praça Hasan e não pagar mais que 60.000 Rials. Respirei fundo, deixei passar alguns minutos a observar o trânsito, ganhando coragem para enfrentar um taxista.

Estava um parado à porta do mercado Passei-lhe o telemóvel com o endereço. Acho que não entendia o alfabeto latino e lá tive que me explicar em viva voz. Pediu-me 50.000 Rials. Não é todos os dias que somos sub-cobrados por um taxista. A meio da corrida o Mustafa ligou-me, para confirmar com o tipo que não havia mal-entendidos. Correu tudo dentro do normal. Lá fiquei na praça que era apenas uma rotunda no meio de nada, e passado um bocado chegava a minha boleia para casa. E pronto. Kashan foi basicamente isto.

O resto do dia foi o serão calmo do costume. Jantámos juntos de novo, o Mustafa mostrou-me o website dele, comi uma romã, li, deixei passar o tempo. Muito cansaço. Poucas horas de sono noite após noite, calor e muitos quilómetros nas pernas.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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