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Paris – Outubro 2014 – Dia 0

Nunca fui a Paris. Depois de passar por todos os países da Europa, alguns deles por mais do que uma vez, ainda não fui a Paris. nem a Londres, já agora. E Roma, apenas no ano passado. Acho que são estes os três icones máximos do turismo na Europa. E será provavelmente por os associar a turismo de massas que me tenho mantido afastado.

No caso de Paris há outras razões: o preconceito de que é quase impossível entendermo-nos com os franceses numa língua que não seja a sua e que, já agora, não falo, apesar de compreender algumas passagens. Obrigado Julio César, pelas línguas latinas. Também o medo da colisão entre o imaginário trazido dos tempos de uma meninice quando França era ainda o farol cultural da nossa civilização, e a Sorbone a definição de universidade. Passei os primeiros anos de vida vendo o meu pai ler autores franceses e revistas como a Science et Vie. Guardo no fundo da memória os ecos de 1968. E os bicos de pato, a Paris do Inspector Maigret percorrida pelo homem da gabardine e cachimbo ao som de acordeão. Na minha ideia de Paris só cabem 2 Cavalos, mas sei que nas ruas da capital francesa circulam agora outros carros. E muitos estrangeiros. Que enchem tudo, e tudo destroem. Bom, tudo não será. Mas destroem demais, a alma de uma cidade, no fundo, a sua essência. E tu, Lisboa, prepara-te, porque és a seguir. Desculpem lá a nota paralela.

Decidi agora. Nem sei porquê. Talvez porque estava ocioso, depois de cinco meses sem sair do país. A viagem grande de Outubro não acontece este ano, em honra de uma viagem grande que não costuma ser feita, a de Dezembro, a Cuba. E portanto, posta de lado a possibilidade de uma ida à Turquia e ao Kurdistão, com passagem por Barcelona e Sofia, foi preciso arranjar qualquer coisa económica. E estava neste ponto quando notei que daqui, do aeroporto da santa terrinha, podia ir até lá por 50 Eur, ida e volta. Bilhetes comprados, à condição. Se tivesse que pagar alojamento a missão seria abortada. Porque em Paris a dormida, mesmo num dormitorio de hostel, custa para ai o dobro que a média europeia, uns 20 Eur por noite. Mas a coisa compôs-se, o díficil fez-se simples e inesperadamente, de 6 pedidos enviados no Couchsurfing, recebi três respostas positivas. E que respostas… tudo gente veterana destas andanças, colocadas em bairros emblemáticos da cidade: Montmartre, Marais e Beleville.

Daqui até à partida serão dias cheios de rezas, por um tempo aceitável, sobretudo sem chuva. Uma fasquia algo alta para Paris, mas vamos ver.

Os voos serão Ryanair. Faro – Paris Beauvais, depois autocarro até ao centro da cidade. E a partir dai tudo pode acontecer. Como as expectativas vão baixas, talvez me apaixone. Quem sabe não passarei a visitante assíduo, considerando a facilidade de deslocação até lá. Até os museus, que não são exactamente os meus locais favoritos, parecem chamar por mim no caso de Paris. Venha então essa Paris, a que chamam Cidade das Luzes, venham as dezenas quilómetros para calcorrear. Estou quase pronto. Daqui até lá tenho ainda que ler muito, mais do que tenho lido até agora: quero ler guias de viagem e memórias de residentes. Quero beber o encantamento dos residentes ilustres, especialmente dos norte-americanos da chamada Geração Perdida. Tenho também visto cinema, a começar por Midnight in Paris e Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain. Durante o dia, passo odes musicais à cidade graças à amizade do bom Youtube: Bonjour Paris: Best Classic French Songs, The Most Beautiful French Songs, e, claro, a banda sonora da própria Amélie, Amélie – Full Soundtrack. Isto sem falar nos temas individuais de Francoise Hardy (por exemplo, Tout les Garcons et les Files), Adamo (Tombe La Neige) ou Christophe (digamos, Aline)  que fizeram parte do meu mundo entre os finais dos anos 60 e o início da década de 70. Obrigado manos!

P.S. – A foto deste artigo foi gamada daqui, embora suspeite que ali também tenha sido tirada de algum lado.

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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4 comentários

  1. Recomendo vivamente uma visita ao Museu D’orsay. Contudo aconselharia a ir logo após o horário da abertura, uma vez que com o desenrolar dia o museu começa a ficar demasiado cheio a não se “absorve” devidamente tanto que o museu tem para oferecer. se a memória não me falha o preço é de 11€. Sendo fã de museus poderá sempre adquirir o Paris Museum Pass que compensará largamente (www.parismuseumpass.com).

    • Pedro, aprecio imenso o seu comentário / dica. São estas coisas que se transformam no combustível que mais não é do que a motivação para continuar a escrever e a partilhar as minhas experiências e conhecimentos adquiridos. O Museu D’Orsay, claro, não me é estranho. O seu historial, a sua base física, numa gare transformada, são elementos que me chamaram a atenção. Para além de ser o favorito da minha irmã. Contudo eu não sou grande apreciador nem de arte nem de museus na generalidade – apesar de no caso de Paris estar disposto a umas concessões em termos de museus. Portanto, nos meus planos encontra-se uma passagem pelo D’Orsay mas apenas para observar a arquitectura e o contexto histórico do edíficio. Tenho uma lista de museus a visitar, mas são mais obscuros, de interesses específicos, menos famosos, mais pequenos, menos centrais. E mesmo estes apenas para dias em que a chuva aperte 🙂 Mais uma vez um grande obrigado pela participação.

  2. Não pude deixar de escrever um comentário, pois identifiquei-me com o primeiro parágrafo do texto. Já andei um pouco por toda a Europa, embora nem por sombras ao mesmo ritmo do Cruzamundos (talvez um dia seja possível…), mas também nunca visitei as grandes urbes. O turismo de massas tudo queima à sua passagem e bem o tenho sentido na minha Lisboa, com as suas hamburguerias gourmet, tuk-tuks da moda e “lanchounetes” pategas por todo o lado, mas adiante.
    Das poucas urbes que visitei, Paris foi uma delas. Para além de tudo o que é fácil encontrar nos melhores guias, recomendaria apenas um bom passeio a pé, sem rumo certo, por Saint Germain des Prés, aproveitando para explorar algumas lojas de banda-desenhada fantásticas que por lá existem. Curiosamente, de todos os locais que visitei em Paris, esta é a melhor recordação que guardo da cidade. Boa viagem.

    • Ah Tiago se soubesses como concordo contigo no que toca a Lisboa. Vivemos numa sociedade onde o aumento numérico é uma abstracção positiva e que é aclamada sem se pensar muito… mais turistas? Dizem que é bom, trazem dinheiro que também dizem que é bom… e quando muitos destes que hoje não concordam comigo se aperceberem, já será tarde. Já visto isto suceder noutros contextos, mas sempre pela paixão irracional do crescimento. O crescimento não tem que ser bom, e em muitos casos não o é. Não consigo perceber o lisboeta que passeia por Alfama, já vê mais estrangeiros do que gente da terra e fica satisfeito. À nossa frente outros povos já aprenderam o que vai acontecer a seguir: na generalidade os habitantes de Praga, a minha cidade de adopção, não vão à cara com turistas. Como eu os compreendo.
      Lojas de banda desenhada fantásticas são um bom chamariz e é engraçado que procurei entre os milhentos museus de Paris por um de banda desenhada – por exemplo, como o de Bruxelas – e não encontrei. Estranhei.

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