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Paris – Outubro de 2014 – Dia 6

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Quilómetros nas Solas: 12 Km
Rombo no Orçamento: 1,40 Metro

Locais Turisticos: Bairro de Montmartre.

 

O dia até começou bem, muito bem. De todos, este era o único em que era vital que o tempo estivesse aceitável e, como por milagre, ao abrir os olhos dei com um céu completamente azul. A manhã estava gloriosa, e, mais tarde, cheguei a sentir calor. E porquê a necessidade de bom tempo para hoje? Porque tinha marcado um passeio por Montmartre com um greeter. Mas já lá vamos. Para já, havia que tomar o pequeno-almoço como Alain, acabar de arrumar as coisas e partir, mudar daquele magnifico apartamento de Belleville para um outro, precisamente em Montmartre, numa das melhores localizações que poderia desejar em Paris, mesmo ao lado do famoso cemitério que estava colocado bastante alto na minha lista de coisas prioritárias a visitar.

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Tal como tinha sucedido como Alain três dias antes, deveriamos chegar a casa do Pascal antes das 9 horas, pois sendo um dia de semana ele teria que sair para o trabalho pouco depois dessa hora. Correu tudo bem. A ligação entre os dois bairros é directa, através da linha de metro M2, e bem dentro da hora combinada lá estávamos. Fomos bem acolhidos, numa casa muito, mas muito agradável. Ainda tomámos um chá juntos e depois pronto, ele saiu, ficámos por nossa conta. Tinhamos cerca de uma hora para descansar e depois, ao encontro do tal greeter.

Então vamos lá, o que é isto do greeter? É o membro de um grupo de voluntários que oferece, gratuitamente, tours em Paris. Os interessados deverão manifestar o interesse preenchendo um formulário online no website Greeters Paris, e aguardar um contacto de volta. Creio que os membros têm acesso à listagem de pessoas que aguardam e podem escolher quem sentirem que lhes interessa. São sempre eles que definem o programa, o visitante pode apenas aceitar ou declinar. No meu caso fui logo contactado por um jovem muito simpático que se propunham fazer o passeio em português, língua que tinha aprendido, nem sei como. E foi marcado este passeio por Montmartre, com encontro junto a um carrocel numa praça do bairro, pelas onze horas.

Na véspera perguntei ao greeter se se importava que levasse um amigo, e como não visse problema nisso, convidei o Alexander que à hora lá estava, ainda primeiro que nós.

O dia continuava excelente, cheio de sol, quente mesmo. E foi assim que partirmos à descoberta de Montmartre. O nosso guia ia explicando, mostrando. Parámos na casa mais antiga do bairro, que já viu de tudo. Foi casa de gente nobre, foi fábrica, foi oficina, foi bordel e agora é… clube de swingers. Falámos sobre as raízes históricas do bairro, sobre as individualidades que viveram (por exemplo,  Salvador Dalí, Amedeo Modigliani, Claude Monet, Piet Mondrian, Pablo Picasso, Camille Pissarro e Vincent van Gogh ) e vivem por aqui. Dalida, a famosa cantora já falecida, tinha sido vizinha do nosso greeter.

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Vimos os moinhos de vento – que são dois – e que têm também muito para contar. A cópia de um quadro famoso da escola impressionista que tenho pendurado em casa, um Renoir entitulado Bal du Moulin de la Galette, foi pintado aqui mesmo em 1876. Subimos à famosa basílica Sacré-Cœur, o ponto mais alto de Paris, local de filmagem de uma das cenas marcantes do filme Le fabuleux destin d’Amélie Poulain, cuja acção se passa quase totalmente neste bairro. O guia contou-nos um pouco da história do local, do papel desempenhado aquando do levantamento que ficou para a história como “As Comunas de Paris”, a posterior construção da igreja onde antes havia um forte, a natureza nacionalista do local. Depois passámos por ruas mais sossegadas, fora do caudal mainstream, a esta hora e num dia assim já completamente repleto de turistas.

Mostrou-nos as vinhas de Montmartre, hoje mais simbólicas do que reais, mas mesmo assim e para todos os efeitos, um local onde ainda se faz a vindima e se produz vinho… no coração de Paris. Ali em frente explorámos juntos um pequeno cemitério. Muito pequeno, mesmo, mas ainda deu para atentar numa curiosidade: tinhamos reparado que aqueles cartazes publicitários de início de século, cujas reproduções são sempre um produto em destaque nas lojas de recordações, eram muitas vezes assinadas por um Steinlen. Ora fui encontrar a campa do artsita num cantinho deste cemitério, cujo nome nem conheço.

Passámos junto ao atelier de Pablo Picasso antes de nos dirigirmos ao cemitério principal do bairro, muito perto do edíficio onde ficámos nos nossos últimos dias em Paris. Já não era cedo, a tarde já começava e, com todo o direito, o nosso guia tinha que se despachar. Assim, a volta pelo cemitério de Montparnasse foi reduzida, um dedo apontado à campa de Dalida, uma nota para o túmulo de “A Gulosa” – a criadora do famoso Cancan, e depois, andar de volta à outra extremidade do bairro… seguimos o guia sem coragem para interromper, não sabiamos se ainda havia mais, mas não… podiamos ter poupado energia e tempo ficando logo ali.

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De forma que quando voltámos ao ponto de partida e ele nos convidou para almoçar num pequeno restaurante, declinámos a amável sugestão e fizemos o caminho de volta. O Alexander despediu-se aqui e foi-se, que teria neste dia um voo de volta à Berlim onde vive desde há um par de anos.

Com um dia destes sentia a obrigação de aproveitar ao máximo, mas algo de muito estranho e mau sucedeu: tive uma quebra física estrondosa, inexplicável. Quando chegámos à parte de Montmartre que já conheciamos, e de onde deviamos partir para outras explorações parisienses no primeiro dia com uma luz fabulosa, o meu corpo recusou-se. Sentia-me cansado, exausto. A mente queria, os músculos recusavam. Os pés estavam doridos. Com uns chinelitos a coisa talvez se tivesse composto, mas com as botas de caminhada, pesadas e opressoras, não aguentei.

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O máximo que ainda consegui foi uma pequena voltinha pela parte de Montmartre que não tinhamos caminhado de manhã, procurando as cenas do filme Le fabuleux destin d’Amélie Poulain. Tinha-as referenciado no GPS e foi sem problemas que encontrámos o Cafe de 2 Moulins, significativamente nomeado em honra aos dois moinhos do bairro. Era este o local de trabalho e cenário central do filme.  Depois, fomos em busca da mercearia, defronte da casa da personagem, Amélie. E foi, também ela, encontrada (ver imagem de topo deste artigo), descoberta de forma ainda mais próxima do universo imaginário transmitido pela obra… é que o café, para além de estar cheio de turistas, teve algumas alterações, mas, por outro lado, a mercearia está igualzinho, escondida numa rua secundária quase deserta, com o ser verdadeiro proprietário, um norte-africano, zelando pelo negócio sentado num banco do outro lado da rua.

E depois, feito o derradeiro sacrificio, foi arrastar-me até casa, passando frente ao Moulin Rouge – outra ligação aos moinhos – e às dezenas de sex shops da rua, e deitar-me no chão, bem resfatelado, com as pernas levantadas, pés no sofá, e que bem que soube.

Não saimos mais. O Pascal acabou por chegar, por volta das oito, e cozinhou para nós. Mais um serão muito agradável como o foram todos os de Paris. Ele tem o mesmo perfil de viajante que eu. Temos a mesma fasquia de aventureirismo, de zona de comforto. Sem o sabermos, estivemos ao mesmo tempo na Indochina, em Abril. E enquanto vou a Cuba em Dezembro ele acabou de voltar de lá. Tal como eu, começou a viajar já depois dos 40. Alma gémea.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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