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São Tomé e Principe – Dia 5 – 16/10/2012


Acordo todo dorido. “Acordar” é de resto um eufemismo, porque passei a noite a acordar e adormecer. Até que desisti de tentar e mantive-me de olhos abertos, esperando pelo nascer do dia. Começa a chover, um bom dilúvio tropical, que nos oferece a possibilidade de descobrir que o nosso quarto mete água pela janela como um navio torpedeado. Durante vários minutos a esfregona não consegue retirar a água a um ritmo pelo menos equivalente ao que a chuva adoptou para se introduzir dentro de casa… e o pequeno lago alarga-se; depois, as coisas ficam um pouco mais controladas, e por fim a tempestade passa e o chão é completamente limpo.

Alguém bate à porta. A “governanta” do KB tem-se mantido a uma distância respeitosa, mas desta vez diz-nos que tem “um moço lá fora” para nós. É o nosso carro! Fechamos o negócio e passamos a ter um Jimmy parqueado no quintal. Agora é preciso acabar de preparar as coisas, carregar o carro e partir. Estou satisfeito com o carro. É agradável de conduzir, está em bom estado, tem ar condicionado.

Antes de largarmos para sul há umas quantas coisas a fazer na cidade. Primeiro, uma visita ao supermercado libanês para garantir que não passaremos fome nos próximos dias; depois, atestar o depósito do carro e, finalmente, uma paragem na padaria usual. Diacho que a gasolina sai cara. Mesmo a cerca de a0,70 Eur por litro parece que com 25 Eur mal se vai e volta ao sul, e afinal são apenas 50  ou 60 km para cada lado. Mas a autonomia que nos confere uma viatura própria vale bem a despesa.

O céu está nebulado. Não de forma ameaçadora, escura, mas mesmo assim, nebulado. Saimos da cidade, reparando em mais um navio quebrado em dois, encalhado a um par de centenas de metros da costa, aguardando que os elementos selem o seu destino. Logo depois, Pantufo, essa aldeia de nome caricato, piscatória, suja, de cheiro intenso. Para muitos visitantes será o primeiro contacto com a realidade da ilha para além do desenvolvimento relativo da cidade. Continuamos a rolar, encosto o carro numa povoação à beira mar. Levanto a câmara para fotografar uma igreja, logo as raparigas que por ali andavam se alvoraçam, entusiasmadas com a ideia de ficarem gravadas para a posteridade e de poderem ver as suas imagens na câmara. Uma, de tão excitada que ficou com a perspectiva, caiu do alto do muro, com a ânsia de aparecer no retrato (note na fotografia um pouco mais acima, a moça deitada ao comprido na sequência da queda). Depois, correram para nós, para mais umas fotografias e para veriricaram os resultados no LCD.

A próxima paragem foi na roça Água Iazé, parcialmente activa enquanto empreendimento agrícola. As crianças pedem tudo e mais alguma coisa. Doces, canetas, dinheiro, pão. Outras querem apenas uma fotografia. Vagueámos por ali um pouco, espreitando a vida destas pessoas, as suas casas. Alguns dos edíficios estão restaurados, outros, são ruínas totais, enquanto outro se encontram num estado intermédio, com fachadas em fraca condição, mas ainda em uso para fins diversos. Mais tarde, depois de abandonar o local, veio-nos à ideia que não tinhamos visto o hospital, uma referência incontornável desta roça. Ficará para mais tarde.

Rolávamos a direcção a sul quando avistámos uma praia pejada de pirogas de pesca. O cenário prometia boas fotografias, e bem cumpriu. Com facilidade encontrámos uma rampa de acesso ao areal, e logo dois “putos” correram, gritando fotografia (e foi tudo o que consegui compreender do muito que eles palraram enquanto por ali andámos). Havia embarcações a regressar, e as pessoas, entre si, puxavam-nas para terra, em braços. Vi peixes pendurados à cinta e gente a chamar-nos, ao longe: “branco! branco!”. Quando atraímos a atenção de mais crianças percebemos que estava na altura de seguir viagem.

Passámos São João dos Angolares, antecedida por uma breve paragem para espreitar uma pequena queda de água à beira da estrada, que me valeu um valente banho de lama nas botas. No topo de uma colina adjacente, a roça de São João, onde planeávamos pernoitar dentro de dois ou três dias.  Tirei ali algumas fotos, enquadrando uma enorme roda de madeira sabe-se lá com que antepassada função industrial.

Depois desta localidade a ilha desertifica-se. Já não se vêem muitas casas, mas, por outro lado, aparecem pessoas caminhando à beira da estrada, com passo determinado de quem vem de algum lado ou de quem tem objectivo fixo. Transportam cargas, por vezes facilmente identificáveis, como garrafões de vinho de palma ou fruta, mas quase sempre de natureza incerta.


O carro rola no meio de uma paisagem cada vez mais verde. Nesta parte da ilha as chuvas são mais prolongadas, mais intensas e mais frequentes. E estavamos prestes a pagar um preço por tudo isto. O leito de uma ribeira passa sobre a estrada com uma violência enorme. É impossível passar. Ao lado, uma empresa portuguesa está a construir uma ponte adequada, mas por hora, apenas peões a podem utilizar. Aos condutores, restam três hipóteses: ou inverter a marcha, ou esperar e ver se o caudal se reduz, ou simplesmente arriscar tudo e passar. Um após outro optam por esta última possibilidade. Passa um jipe dos grandes, depois uma carrinha Hiace amarela  – um táxi colectivo, portanto – e depois mais uma do mesmo tipo, que quase é arrastada pela corrente. Quanto a nós, depois de cerca de meia hora a observar tudo aquilo decidimos fazer meia volta e procurar guarida na roça de São João.

A primeira coisa que vimos foram andaimes. E se estiver fechada para obras? Mas não estava. Entrei e acabei por encontrar um funcionário local. Não posso dizer que a recepção tenha sido brilhante. Ninguém gosta de saber que terá que abandonar um hotel pelas 8:30 da manhã. Algo que se revalaria uma impossibilidade, como veremos. E depois, ficámos com a ideia, talvez injustificada, de que só nos foi mostrado um quarto, não por ser o único disponível, mas por ser o mais fácil.

De resto o local é encantador. Mais charmoso do que imaginava, depois de muito ler e ver fotografias desta roça. Todo o edíficio transpira uma história que aprendi na escola a encarar como gloriosa, e, mais tarde, se tornou em algo sem valor ou interesse para as gerações vindouras. Olhar aquelas paredes, aquelas escadarias… quantas histórias teriam para contar, caso pudessem falar… quantas coisas já viram, boas e más, tristes e alegres. Quem terá um dia vivido no nosso quarto, se é que alguma vez alguém ali viveu? Ou no do lado, hoje ocupado por um simpático casal de alemães de Hamburgo, que mal escondem o seu entrusiasmo por terem alguém com quem falar, para além da insipiente troca de palavras em português que conseguem manter com o pessoal, graças a uns quantos meses de aprendizagem da nossa língua, à laia de preparação para esta viagem. A decisão surgiu num inesperado serão, quando a atenção deles foi presa por um documentário que passava na televisão sobre este remoto país africano. No dia seguinte foram à agência de viagens e tiveram que explicar que São Tomé e Príncipe não era uma cidade algures, mas sim uma nação africana, que identificaram no mapa.

Mais tarde, chegou um jovem par de portugueses, de táxi, acabados de vir do pico de São Tomé, uma aventura que leva dois dias e implica uma pernoita em tenda a meio caminho. Para fechar o conjunto de hóspedes do dia, um casal de catalães, desde logo bem visiveis pois quando chegámos ele jogava uma peladinha com o pessoal local envergando a inconfundível camisola do FC Barcelona.

O ambiente é precioso. Apesar de ser objectivamente cara, a estadia nesta roça é um “must”. De facto, 38 Eur por um quarto, num local com as condições reduzidas, com electricidade durante algumas horas, casas de banho partilhadas e em péssima condição e com custos operacionais à medida de São Tomé é um balúrdio.

Mesmo assim, esta noite de descanso valeu cada cêntimo. Ficar na roça é como entrar num museu vivo e fazer parte do que a exposição tem para nos contar. Aqueles alpendres longos, todos em redor da casa, com cadeirões para sentar e apreciar os barulhos da selva envolvente, a música da pequena queda de água, lá em baixo, junto à estrada onde horas antes nos detivémos sem sequer sonhar que dentro de algum tempo estariamos instalados naquela casa que de lá avistámos… as salas de estar comuns, decoradas com um gosto rústico em perfeita harmonia com todo o resto, pejadas de livros, divãs, elementos decorativos coloniais e africanos.

Um dos elementos mais cativantes é a escadaria, feita de madeira escura, rodeada de arte local, onde tantos pés assentaram, cada par deles com uma história diferente para contar. E, claro, com tudo isto, a pobre da câmara fotográfica é forçada a trabalhar até à exaustão, num frenesim que resulta em imagens repetidas, apenas com ligeiras variações de luz e tonalidades de côr.

Por detrás do piso térreo, mas colado à casa, um enorme terraço coberto é utilizado como sala de refeições e como espaço comum, repleto de detalhes: são as terrinas de madeira cheias de frutas tropicais e especiarias desconhecidas, as peças únicas, estranhas, como o modelo de madeira de uma moto com side-car, meio brinquedo, meio elemento decorativo. E, claro, as milhentas cadeiras e espreguicadeiras, as redes de balanço, as camas de conversa cheias de almofadas, e tudo aquilo com uma vista deslumbrante lá para baixo, para São João de Angolares e para o mar.

Vencido pelo cansaço e por uma longa série de noites mal dormidas, recolhi-me pouco depois do sol posto. Ainda me entretive a ver um episódio de uma série no computador, mas pelas nove horas estava a dormir, numa cama confortável, mas com o toque húmido e cheiro a mofo que talvez sejam inevitáveis por estas paragens.

Galeria Especial Roça de São João





About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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5 comentários

  1. Fantástico o relato da sua viagem a São Tomé. Deu para ver que gostou muito. Tem fotos lindíssimas!. Faz hoje um ano que para lá fui e adorava voltar, sobretudo à ilha do Príncipe, o local mais isolado e menos turístico onde já estive. Parabéns pelo seu blog, vou recomendar na minha lista de blogs.

  2. Boa tarde,
    acabei quase de ler todos os seus artigos sobre São Tomé, está a ser uma leitura valiosa.
    Eu irei, pela primeira vez, a São Tomé o próximo mês de Outubro e pensei de passar 2 noite na Roça de São João, mas do que eu acabei de ler não vale muito a pena. Aconselha uma alternativa interessante?
    Bom domingo
    Liliana

    • A noite que passei na roça de São João foi dos momentos altos das duas semanas passadas no país pelo que não me ocorre referir uma alternativa. Além disso, São Tomé é muito dinâmico, e o que havia há dois anos pode já não existir, e vice-versa.

      • Obrigada Ricardo pela rápida resposta.
        Li muitos comentários negativos e por isso estou a pensar numa alternativa. Vi que o restaurante Mionga tem também quartos, vou investigar.
        Cumprimentos, L.

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