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Saragoça – 18 a 21 de Março 2013

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A origem da viagem resume-se bem: tudo começou quando dei com uma reportagem fotográfica de um sítio chamado Belchite. Uma aldeia em ruínas, devastada pela Guerra Civil Espanhola, já vai para setenta e sete anos, se a matemática não me falha. Terminado o conflicto, o general Franco fez questão de deixar a localidade como ficou depois dos combates. Como na ocasião eram os nacionalistas que defendiam e os republicanos que atacavam, a ideia pretendia representar a barbárie comunista, deixando para as gerações posteriores uma marca da devastação causada, supostamente da responsabilidade dos seus adversários derrotados.

Vistos os mapas, concluiu-se que Belchite ficava na região de Saragoça, e que havia uma forma simples de lá chegar: conduzir até Sevilha, deixar por lá o carro, e voar com a Ryanair até à capital de Aragão. E uns meses mais tarde surgiu mesmo a oportunidade, com bilhetes comprados por 30 Euros.

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Esta foi uma viagem em que tudo correu bem. A viagem de carro até Sevilha fez-se sem incidentes, usando a auto-estrada que é quase de porta a porta. Duas horas são suficientes e o combustível gasto não é muito… 35 Eur no total. À chegada, como já vem sendo tradição, foi um cabo dos trabalhos para dar com o cantinho onde costumamos deixar o carro. Uns vinte minutos de voltas depois, lá se conseguiu, e desta fez descobriu-se um parque de estacionamento tão vazio que se tornou suspeito. Foi preciso o amigo Alfonso, que trabalha mesmo ali ao lado, mostrar-se e garantir que a viatura ficaria ali perfeitamente bem, para descansarmos. Na teoria teria havido tempo para passar umas boas horas passeando por Sevilha mas acabou por não suceder. O Alfonso gosta de falar e ficámos um bom bocado à conversa antes de nos despedirmos. Ele, regressou ao escritório. E nós seguimos, a pé, até à estação central de autocarros, em Plaza de Armas, onde agora se apanha o transporte para o aeroporto. Fazia calor e já não apetecia calcorrear a cidade. Acabámos por ir logo para o aeroporto. O preço do bilhete subiu quase para o dobro. De 2,70 Eur passou para 4 Eur. Mas pelo menos já não é preciso ir ao Prado para apanhar o autocarro.

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O vôo ficou marcado pela criancinha que, mesmo no banco atrás, não deu sossego. Uma hora e tal de barulheira e irrequietação. Dormir nem pensar, e ler também seria complicado. Aterrámos. Em 10 minutos estávamos na rua e mesmo defronte o autocarro carregava os últimos passageiros antes de arrancar. Por 1,85 Eur fomos transportados até ao centro da cidade. A primeira impressão, muito negativa. Saragoça parecia uma obra inacabada, provavelmente com alguma responsabilidade para a Expo 2008, que decorreu num cotovelo do rio, numa área que agora está quase ao abandono.

Saímos do autocarro sabendo que tinhamos cerca de hora e meia de luz do dia. Fomos caminhando devagar até casa do anfitrião, a cerca de 2 km dali. Fizemos algumas paragens, chegando já depois do sol posto. O Jose Luis aguardava-nos de jantar pronto mas sem fome… afinal ainda nem 8 horas eram e estávamos em Espanha. Mas comemos, e nesse serão não se fez mais nada. Apenas conversar.

No único dia completo por estas paragens a ideia era ir a Belchite e conhecer um pouco de Saragoça à luz do dia. O autocarro sairia da estação central (que o é para a camionagem e para os comboios) de Delicias. Correu tudo bem. Apanhámos o CI1 (de “Circular 1”) das imediações de casa até Delicias. Não foi nada complicado descobrir as bilheteiras, comprar o bilhete de ida e volta e a plataforma 32 onde o autocaro da HIFE já aguardava. Depois, foi uma viagem de cerca de 40 km até Belchite, atravessando uma paisagem agreste e seca, a puxar pelo imaginário relacionado com as cowboyadas e os desertos do Arizona.

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Leva-se uma hora a chegar a Belchite, e depois mais uns 10 minutos a atingir a periferia da antiga aldeia. Ao lado, já se vê, foi mais tarde construida a nova aldeia de Belchite.

 Ao chegar ao arco do “pueblo viejo”, um sobressalto. Uma vedação com um cartaz que informava que as visitas estavam interditas sem a presença de um guia da autoridade local. ai! Por mim passava, ou ia à volta e saltava a vedação simbólica que ennvolve a periferia. Mas acabou por se contactar a guia, que apareceu uns minutos depois. A visita guiada duraria cerca de duas horas e custaria 6 eur por pessoa. Caro não era, mas não deixava de ser dinheiro gasto desnecessariamente. E a atmosfera sofreria! Para piorar as coisas, uns velhotes espanhóis apareceram para visitar e comecei a ver a vida a andar para trás. Mas dai para a frente foi sempre a melhorar… os locais seguiram a sua vida, e a guia era perfeita, tornando a visita numa espécie de passeio com uma amiga. No final não perdi nada, usufrui do espaço e tirei (quase) todas as fotografias que teria tirado se estivesse sozinho.

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Pela hora de almoço estávamos despachados e com mais de um par de horas para queimar até ao autocarro de regresso, que seria às 15:35. Fomos até a um monte adjacente, onde hoje se encontra um lote de antenas de telecomunicações, mas onde durante os combates existia uma posição de artilharia, com os abrigos ainda hoje escavados nas rochas. Ali fizemos um picnic que nos manteve entretidos até ser tempo de regressar à aldeia, nas calmas. Passando junto a uma entrada secondária e sabendo que à sacrosanta hora da “siesta” ninguém apareceria para criar problemas, ainda entrámos no recinto do pueblo viejo. A ideia de parar num dos dois cafés da aldeia para beber uma cerveja teve que ser colocada de lado. Faltavam apenas uns 10 minutos para a hora do transporte.

E sem mais, chegou o autocarro e fez-se o regresso a Saragoça. Desta feita saímos numa paragem mais perto de casa, poupando-nos a travessia integral da cidade, já que a estação fica na ponta oposta à saída para Belchite. E assim deambulámos por ali, descobrindo um palácio, parques, ruelas e não muito mais, antes de chegar a casa.

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Nesse serão o José Luis fez questão de nos levar a ver a sua cidade à noite. Chovia. As pedras do pavimento reluziam e o ambiente estava especial. Mas a chuva molhada e tornou-se incomodativa. Acabámos por nos refugiar numa casa de tapas onde comemos qualquer coisa pagando a preço de ouro (por estas e por outras é que não sou grande adepto disso das tapas espanholas). O passeio foi positivo. Ficará na memória como um bom bocadinho que se passou, em boa companhia, a explorar uma cidadezinha simpática. E, regressados a casa, ainda ficámos mais um pouco à conversa. Recordo-me que mostrei umas fotos de São Tomé ao nosso novo amigo, sempre interessado em novas possibilidades de viagem. Fica também registado o susto que apanhei quando o cartão do tablet deixou de funcionar. Mas afinal era só necessário reformatar e não tinha dados vitais (por pouco não apaguei todas as fotos da jornada, quando as copiei da Nikon para esse cartão).

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A manhã seguinte foi a segunda e última em que acordámos em terras de Saragoça. Um bocado cedo, para nos podermos despedir do Jose Luis que ia para o trabalho, ensinar, numa escola a 14 km dali. Depois também nós saimos, com quase o dia todo pela frente. O dia estava excelente, frio mas cheio de sol. Fomos caminhando em direcção ao centro histórico, atentos aos detalhes. Igrejas, ruas estreitas, murais, estátuas e gentes. Uma mão cheia de detalhes.

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Chegámos ao rio, atravessámos a ponte antiga, chegámos ao ponto onde outrora existia uma outra passagem, de madeira, e onde agora há um discreto miradouro. O rio já ultrapassou os seus limites, mas a cidade está preparada para isto. Os únicos estragos serão nas áreas de lazer instaladas perto da água. Passámos por outra ponte, entrámos no mercado e perdemo-nos nas ruazinhas do bairro mais antigo da cidade. Vimos lojas antigas e o único hostel de Saragoça, instalado num edíficio cheio de história. Chegámos ao castelo mouro, um pouco afastado do que hoje é o centro, já muito perto da estação de Delicias. Encontrámos o anfiteatro romano e as antigas muralhas da cidade.

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Depois descansámos na enorme praça da catedral, durante uma eternidade, aquecendo os ossos ao solo e bebendo da Internet gratuita que ali existe. Foi um passeio agradável, cheio de surpresas. Mas estava feito. Ainda com muito tempo pela frente fomos andando nas calmas até casa, para recolher as bagagens. A seguir, foi fazer o caminho até ao autocarro do aeroporto, e a partir dai tudo correu dentro da normalidade… avião para Sevilha… autocarro para o centro… caminhar mais, até ao carro… e conduzir de regresso a casa. Chegada às 22:00 com 21 km nas pernas neste dia tão longo como positivo.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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6 comentários

  1. Telma Baptista

    Tenho que explorar melhor Espanha 🙂

    • E Saragoça, é, por assim dizer, Espanha for dummies: os espanhóis de lá são simpáticos, bem dispostos, positivos, percebem-se bem e até fazem por entender português. E a cidade é o espelho de tudo isso, fácil e bem organizada, com muita atenção ao turismo (700 mil habitantes, 20 postos de turismo).

      • Telma Baptista

        Talvez seja a questão de estar tão perto e acessível que acabo a planear viagens para sitios mais longínquos e esqueço-me de visitar o vizinho. Conheço madrid e córdoba e ainda algumas terriolas na fronteira com o algarve. Tanto me falam em Barcelona que enjoei sem lá ter estado mais de 3h.

  2. Eu também não vou para locais a ocidente do Muro de Berlim ehehhehe. Só se tiver algo específico para fazer. A vida é curta e não posso ir a todo o lado e então prefiro ver realidades bem mais diferentes.

  3. Parabéns pelo post, muito interessante. Você conhece o livro do pernambucano José Cabral de Melo Neto, “Entre o Sertão e a Sevilha”? As fotos e a poesia se confundem.

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