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Sevilha e Marrocos. Fez. Despedida.

Hoje é Sábado. Último dia desta curta viagem a Marrocos. De manhã, fomos a pé visitar os túmulos que existem numa das colinas na periferia da cidade antiga, e aproveitamos para visitar o Museu Militar, instalado no forte norte da cidade, em excelente estado de conservação e oferecendo vistas privilegiadas para a complexidade da media.

A tarde é passada em casa, a descansar, que o corpo assim o exige. Um par de horas antes do cair da noite tentamos explorar o bairro judeu – onde actualmente já não vive nenhum – mas é uma decepção. Contudo a saída não foi estéril: atravessamos uma feira com atracções de todos os géneros, que se enche de marroquinos num dia que se percebe ser de festa, apesar da razão nos escapar.

São 20:30 e estou no terraço do apartamento no coração da Medina de Fez. Pelo ar navegam de rédea livre acordes de música marroquina e um rumor de vozes mantém-se no fundo, com uma miríade de sons da vida doméstica que emanam das casas adjacentes. Amanhã, bem cedo, há que tentar chegar ao aeroporto a tempo de não ficar em terra. O plano era apanhar de novo o autocarro directo, mas pelo sim pelo não foi decidido fazer o percurso de táxi. São cerca de 15 km e, considerando os valores praticados em Marrocos, não é barato: 15 Euros. A temperatura é agradável, fazendo chegar a atmosfera do serão ao patamar da perfeição. Marrocos vive duas horas atrás do tempo de Portugal, o que significa que mesmo em Setembro a noite cai pouco depois das 18:00. Seja como for, é tempo de balanço.

Visitar Marrocos é uma experiência que não pode ser definida, quanto mais não seja porque existem diversas realidades, conforme a cidade ou a região do país que se explora. A minha vivência por terras do rei Hassan limitou-se à área de Fez, e é sobre essa parte do reino que escrevo impressões e memórias. Fica a ideia de que a enorme medina é um centro comercial ao ar livre. Por todo o lado, as lojas, de todos os géneros. Impressionou o liberalismo das gentes, que formam uma massa diversificada, onde se cruzam infinitas abordagens aos rigores do Islão, sem que ninguém se importe a julgar o companheiro do lado. Algumas mulheres, especialmente as mais idosas, cruzam as ruas completamente cobertas de roupas austeras, apenas com os olhos à vista; outras, cruzam elementos ocidentais, como calças de ganga, com os tradicionais lenços e robes orientais; mas também circulam jovens de calças apertadas, sapatos de salto alto, a gingar as ancas, com presença repleta de sensualidade. Hoje parece ter sido um dia especial. Havia feira num dos espaços abertos logo após a muralha da medina, e a cidade antiga encontrava-se invadida de residentes da “ville nouvelle”, fundada pelos franceses com o melhor estilo arquitectónico ocidental, onde quase todos os habitantes da cidade almejam viver. E então, com estas pessoas com um estilo perfeitamente europeu, o mosaico de diferenças acentua-se ainda mais.

Os primeiros momentos em Fez podem ser opressivos. O choque cultural faz-se sentir, o banho de multidão cria um desconforto notável, acentuado pelos cheiros desconhecidos, muitos deles potencialmente desagradáveis para o faro ocidental. Os aspirantes a cicerones, os agentes de hóteis, pensões ou qualquer outros locais com pretensão a alojar visitantes estrangeiros, os empregados de restaurantes… todos saltam em cima do desprevenido turista com ferocidade. Ao fim do segundo dia, lidar com estes figurões já se tornou tão automático como respirar, e os olhares que nos deitam – que podem ir da mera curiosidade, passando pela ligira hostilidade e, no caso dos elementos femininos, de luxúria, já vão passando despercebidos.

Mas se a habituação ao ambiente “próprio” vem depressa, também a sensação de que já se viu o que havia a ver chega rápido. A partir dai, entra-se em modo de “mais do mesmo”. É o rua acima, rua abaixo. Esgota-se Fez, assim, em pouco tempo. Um local único, mágico, interessante, rico de imagens. Fica a memória de quatro dias muito bem passados, mas pouca vontade de regressar, não porque algo tenha corrido mal, mas porque o mundo é imenso e haverão mais locais a visitar.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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