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África 2017 – Dia 18 – Dakar

Hoje é o dia em que chegarei a Dakar. Sucede que o meu anfitrião vai fazer a viagem comigo, o que será mais útil do que imagino. De manhã ainda fiquei por Diene Lagane. Acordei com calma, a puxar para o tarde. O Ibrahima tem aulas para dar entre o meio-dia e as duas e depois vamos.

Não fazer nada. Em cima do colchão a passar o tempo, vendo umas coisas na Internet, um pouco de conversa. Preguiça saudável. Lá fora no corredor está tudo calmo. Os outros professores ou já foram para casa neste fim-de-semana prolongado ou estão a trabalhar na escola.

Das janelas vejo o que me rodeia. À frente, a estrada, onde passam meninos de uniforme escolar. Parece que a escola é logo ali à frente. De tempos a tempos uma viatura motorizada. Poucas. O Ibrahima cravou uma motorizada a alguém para irmos até Gossas. Diz que apanhar um transporte para lá durante o dia é missão complicada e de facto não vejo nenhum passar.

Para o lado existe um aldeamento e para trás do lote são campos, onde de tempo a tempo circulam camponeses, a pé ou de carroça puxada por burros. Tenho todo o tempo do mundo para observar os cenários.

Chega o meio-dia e fico sozinho, sabe-me bem. Tão bem que o tempo passa num instante e o Ibrahima está de regresso. Agora é hora da provação. Porque tenho pavor de veículos de duas rodas. Nunca andei de mota. Tenho uma memória vaga de infância de um pequeno trajecto com o meu cunhado, suficientemente mais velho que eu para justificar o episódio. Não sei se foi uma experiência traumática mas a verdade é que ao longo de toda a vida evitei motas e um par de vezes tive de fincar pé para as evitar. Mas não passou de hoje.

Portanto, lá vamos. Serão 16 km na maquineta infernal. Ao fim de uns minutos relaxei um pouco. Apenas um pouco. Não morri, mas se puder escolher vou acabar os meus dias sem repetir a dose. Felizmente apenas passou por nós um carro. Foi uma viagem tranquila, dentro do possível.

Em Gossas, um problema para apanhar transporte. Parece que esta semana há um festival religioso e o movimento de pessoas é enorme. As carrinhas e autocarros passam cheios. Por fim, depois de muito trabalho, de muitas tentativas, o Ibrahima arranjou-nos lugar numa carrinha apinhada, até Diourbel. Uma vez lá, tentámos encontrar transporte para Dakar, mas nada. Só mesmo indo à gare rodoviária e essa fica a uns bons quilómetros de onde estamos. Muito caos, muita gente, muito trânsito, muita discussão e lá entramos num táxi.

A partir daí a coisa foi simples. Arranjámos dois lugares na fila do meio de um sept place e seguimos para a capital. Até Thiés, a segunda maior cidade do Senegal que fica a uns 80 km de Dakar, correu bem. A partir daí o trânsito tornou-se infernal. Foram horas de pára arranca. Cansaço, não físico, mas da situação, de estar ali num espaço fechado, da confusão lá fora, das vendedoras sempre a propôr produtos pelas janelas… tangerinas, amendoins… pastéis, água. Etc.

Pelo caminho consegui comunicar com o George, um húngaro com quem deveria ficar a partir do dia seguinte. Esta noite deveria ficar com o Ibrahima, mas o George convidou-me logo para esta noite, e aceitei. Ficava já instalado e esperava ter uma comunicação mais fluente. Foi uma óptima ideia. Disse ao Ibrahima, a ver se ele reagia mal, mas pareceu-me indiferente e então assim foi.

Quando finalmente chegámos a Dakar, o Ibrahima foi à vida dele e fiquei à espera do George, que deveria recolher-me de carro à porta da gare. Esperava alguns problemas, mas nada. Ainda esperei 50 minutos, porque o meu novo anfitrião teve que se debater com bastante trânsito, e durante todo esse tempo ninguém me incomodou. Nada. Achei agradavelmente estranho.

Chega o George. Já não sabia o que era sentar-me num carro normal, e ainda por cima com ar condicionado. Vamos falando, trabalhando para quebrar o gelo. Chegamos a casa e para mim é um palácio. Vive numa vivenda espaçosa, com seis quartos. Há mais um Couchsurfer a ficar, o Thomas, um belga que tinha acabado de atravessar Marrocos e a Mauritânia de bicicleta e que nos prepara uns ovos mexidos com tomate que me soube divinamente. Tenho um quarto enorme só para mim, Internet rápida, gente para conversar de forma fluente e, luxo dos luxos, uma casa de banho com duche quente.

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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