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África 2017 – Dia 3 – Bissau

Dormi um pouco melhor hoje, mas a energia do Minervino durante o sono é que estraga tudo. Eu bem me encolho do meu lado da cama mas não escapo a apanhar. Esta noite, se continuar a ficar com ele, vou dormir para o chão.

Acordei às 8 horas, ou seja, já um pouco atrasado, porque o rapaz tem de trabalhar. Fomos para a estrada mas não apareciam Toca-Toca. Parece que há uma grande manifestação nas ruas de Bissau, organizada pelo PAIGC, contra o Presidente da República que, surpresa das surpresas, também é do PAIGC. Então o trânsito está todo congestionado e não é fácil as carrinhas passarem.

Acabamos por conseguir um táxi, que dá uma enorme volta para escapar ao trânsito. Por mim, tudo bem. Uma visita à Bissau ainda desconhecida é algo que não renego. Chegamos às imediações do mercado onde ele trabalha. Mas o carro não pode avançar mais. Seguimos a pé. Cumprimento o pessoal toda da empresa, e sento-me na cadeira de plástico posta ao meu dispôr. À espera que o Minervino acabe de carregar o seu triciclo e parta para a sua volta. Dá-me os 5000 CFA que lhe emprestei ontem e despedimo-nos para o dia.

Vou andando para o centro, porque não, desta vez por ruas diferentes. Vejo aquelas casas, em estado de conservação variável, desde o impecável até à ruína, casas que serão mais ou menos da minha idade mas que certamente me remetem aos anos da meninice, à entrada dos anos 70 do século XX…. A mesma geração arquitectónica que conheci quando abri os olhos para o mundo, um  mundo que era tão diferente… é nestes momentos que uma pessoa se sente velha, sei lá, não o sendo, parece que já se passou um mundo desde esses dias. De repente, vai parecer já amanhã, serei talvez uma das últimas testemunhas de uma era e depois… depois não sei, o que será de Portugal e deste povo, mas será certamente diferente.

Sinto alguma agitação do ar, os ecos da tal manifestação. Numa esquina, uma barragem policial. Imagino que para apoiar a manifestação e não para a contrariar.

Vou até ao porto. Hoje a maré está cheia. Ando por ali, um polícia diz-me que não posso fotografar para aquele lado. “Aquele lado” é onde estão duas ruínas flutuantes que parecem ser a Marinha Nacional. Tudo bem, sorrio-lhe, sem problemas. Passeio um pouco por ali, depois retiro-me e vou ver a fiada de edifícios antigos que estão em frente ao porto, e que acho muitissimo fotogénicos. Tiro ali bastante fotos.

Caminho mais um pouco por ruas ao acaso e regresso ao Ta-Mar. Preciso de carregar todos os meus dispositivos, os meus gadgets, a minha perdição, a única coisa vagamente supérflua na mochila de 20 litros meio vazia que transporto comigo. Peço uma cerveja, uma daquelas imensas Super Bock de meio litro que só vi aqui, e ligo tudo: GPS, Computador, Telemóvel, Power Bank. Vou escrevendo, quase debaixo de uma televisão onde a RTP África faz passar uma telenovela portuguesa.

Chega o momento em que tenho que ir. Porque tenho os dispositivos já mais reconfortados, porque já bebi um litro de cerveja, porque não posso ficar ali para sempre. Tenho fome, mas depois da conta da véspera já sabia que não era boa ideia ir para além da Super Bock to Ta-Mar. Estou no Facebook com um rapaz guineense com que troquei algumas mensagens no Couchsurfing, ele sugere-me o Porto. Tinha visto isso no GPS e ficou assim decidido.

O Porto fica ali perto, numa rua que já conhecia. Não tinha reparado nele. Entrei. É todo ele espaço exterior, servido por um balcão. Um design claramente português, talvez dos anos 70. Pergunto se dá para comer qualquer coisa. Um senhor português que estava sentado numa mesa toma conta da conversa, até que um definitivo “isso trata-se comigo” me esclareceu. O dono. Se vocês leram as minhas crónicas da Guiné anteriores poderão lembrar-se das referências que fiz a um imaginário construído numa meninice passada em tempos em que os portugueses tinham um Império. Ora chegar aqui e conhecer esta personagem mexeu comigo, no mesmo sentido.

Não sei o seu nome, mas pressinto que talvez nunca tenha deixado a Guiné. Ou talvez tenha vindo de outro país africano “português”. Havia alguma coisa na sua postura, como se estivesse encerrado no tempo. Disse que tinha 70 anos. Faz sentido para a minha teoria. Acabei por comer um bom bitoque. Não foi barato mas, enfim, para os nossos padrões também não foi caro. Paguei o equivalente a 12 Euros pelo prato, uma mini e um saboroso pudim como sobremesa.

Numa mesa junto ao proprietário um português comia uns camarões de alho. Para mim, era outro estereótipo, o do empreiteiro, o que provavelmente não seria mas, lá está, poderia bem ser.

Na televisão, a RTP, claro. E estava eu a pensar nestes pequenos luxos, de pagar 12 Euros por uma refeição muito agradável, quando me telefona o Minervino. Vem ter comigo, ofereco-lhe uma bebida, quer mesmo é almoçar, mas quando viu o menu ia mudando de cor. Aqueles valores de facto são fortes para ele. E como eu já sei o que é estar naquela situação…. Disse logo que íamos a outro lugar então. E não tivemos que nos afastar muito.

Logo a seguir, quatro o cinco mesas de plástico, uma tasca guineense, onde um bom prato de arroz com ele estava terminado. Só tinha que deixar o veículo guardado e podia ir para casa. Então combinámos encontrarmo-nos já em São Paulo.

Caminhei directamente para a zona onde se apanham os toca-toca para São Paulo, encontrei um com facilidade, ainda ia vazio, no início do seu percurso. Saltei lá para dentro e observei como se foi enchendo à medida que se afastava do centro.

Cheguei sem problemas mas com muito calor. Comprei logo uma garrafa de litro e meio de água de Penacova bem fresquinha. Custa 0,75 Euros. Esperei um pouco pelo meu amigo, depois peguei no telefone, só para saber como estavam as coisas… vinha mesmo a chegar.

O resto do tempo deste dia foi muito africano, totalmente descontraído, passado na comunidade. Sentados à porta de casa é incontável o número de pessoas que pára para dois dedos de conversa e então os que cumprimentam é uma coisa surreal.

Destaque para um trovador equipado com uma guitarra feita de um pau de vassoura e três cordas de pesca que me dedicou uma canção, em crioulo, da qual só percebi o meu nome repetido uma série de vezes.

Foi um serão verdadeiramente musical, porque pouco depois começo a ouvir os sons celestiais de cantares africanos acompanhados por um batuque. É na igreja, diz-me o Minervino. Peço-lhe para me mostrar. Vamos lá, é mesmo na rua de trás. As moças estão a cantar no interior, não há luz, a escuridão é total. Ele pergunta a alguém se podemos gravar o registo musical. Grande momento, pára a musica, é feito o pedido e logo toda a gente concorda e se coloca a postos para iniciar a música do princípio.

Na filmagem não se vê mas vi  eu. Aquelas faces jovens, iluminadas, a cantar como anjos, aquele som africano que povoa imaginários, é a África em síntese, vocalizada, mas pela primeira vez é-o à minha frente, a menos de um metro de mim, e não num qualquer documentário na televisão. Cantam com uma alegria incrível, e… foi um momento muito mágico, digno de pertencer à galeria do melhor das minhas viagens. O Minervino ficou também tocado pelo ambiente, acho.

Conversámos pela noite dentro. Uma pausa enquanto ele ia buscar uma ganza para fumar… e eu, betinho, copinho de leite peço-lhe para me trazer uma garrafinha de leite. Que querem, depois de quatro dias estou a ressacar lactícineos.

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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